Terça-feira, 19 de Setembro de 2006

PAIGC: uma história de conspiração interna e exclusão de militantes

PAIGC.jpg
Por VNN Staff / Nelson Herbert, of Voice of America

O PAIGC é talvez, dos partidos da independência das antigas colónias portuguesas em África, o que mais turbulência tem experimentado por altura da realização de reuniões magnas.

Os factos remontam ao longínquo ano de 1964, quando de 13 a 17 de Fevereiro o partido da independência da Guiné-Bissau, reuniu pela primeira vez na tabanca de Cassacá, no sul do país, o seu congresso, num momento crucial para a definição e correcção das rotas a navegação da gesta da libertação.

Das matas, onde se estalara um mês antes a guerra de guerrilha do PAIGC, chegavam notícias de desvios, de excessos e de exageros cometidos por alguns dos comandantes militares, tendo contraditoriamente por alvo as populações, de cujo apoio dependia o sucesso do movimento libertador da então Guine portuguesa.

Cassacá foi essencialmente o congresso da aplicação do correctivo que a então situação requeria. Marcada por uma expurga a larga dimensão, vários dirigentes e comandantes militares foram na altura criticados em público, denunciados pela população, expulsos do partido e os casos de traição irremediável entregues aos tribunais do povo. Vivia-se a primeira manifestação de depuração interna.

Vários nomes desaparecem então de cena e nesse mesmo congresso era fundado as Forças Armadas Revolucionárias do Povo, as FARP, o braço armado do movimento libertador.

Pela sua importância ao movimento libertação guineense e no lançamento dos pilares da construção futura de um estado independente, Cassacá é por sinal o único evento, a única reunião magna do PAIGC, que conseguiu sobrepor-se à barreira partidária e afirmar-se como referência na própria história do país.
O Congresso de 1973

De 18 a 22 de Julho de 1973, o PAIGC reunia nas zonas libertadas do leste do país, o seu II congresso... num momento crucial para o movimento de libertação, e um pouco mais de seis meses volvidos sobre o assassinato em Conacri do líder histórico, Amílcar Cabral.
Tal como em Cassacá, o momento era o da superação das divergências internas do partido mergulhado num clima de desconfiança, conspiração e sobretudo de desmobilização.

No fundo, era urgente salvar o partido e sobretudo eleger uma nova liderança, capaz de conduzir a guerrilha, ao golpe de misericórdia e ao descalabro da presença colonial, cujo fim se avizinhava de há muito nas matas da Guiné.

Neste congresso, o primeiro por sinal depois do assassinato de Amílcar Cabral, Aristides Pereira é eleito para o cargo de secretário-geral contra a aparente vontade de um grupo de responsáveis partidários guineenses, liderados por Fidélis Cabral de Almada que se posicionara, na altura, a favor da escolha de Nino Vieira, na corrente de sucessão de Amílcar Cabral.

Seria o reacender das clivagens partidárias internas, de cunho racial e tribal.
Num ambiente de divergências recalcadas e adiadas, o inconformismo e o descontentamento interno do PAIGC resultante por certo de questões mal resolvidas no congresso de 1973, viria então a se acentuar e a se manifestar em 1977, já no pós independência e durante o III congresso do partido. Tal como em Cassacá, em 1964, persistiam os problemas com as chefias ou a oficialidade militar balanta.

O III Congresso de 1977

O congresso de 1977, acabaria por representar o prelúdio do golpe militar de 14 de Novembro de 1980, que levaria ao derrube do regime do então presidente Luís Cabral e ao desmantelamento do projecto de unidade Guiné-Cabo Verde.

Meses depois e na sua primeira reunião magna de carácter extraordinário, em Bissau, Nino Vieira, então líder do Movimento Reajustador de 14 de Novembro seria confirmado na liderança do PAIGC, partido que insistia entretanto, em manter a sigla C na sua designação, quiçá por uma simples referência histórica sem entretanto nenhuma consistência prática e territorial.

Em 1991, no âmbito do V congresso, as divergências internas do PAIGC voltariam a ribalta da cena politica guineense, nas vésperas da abertura política do país e do regime, ao multipartidarismo.

O partido procede então a sua maior expurga interna, marcada pela expulsão da maior parte dos intelectuais daquela formação partidária, que se constituíram no chamado grupo dos 121.

Desfecho similar teria o congresso extraordinário de Maio de 1998, em que a liderança partidária de Nino Vieira, faz frente, e pela primeira vez, a uma ousada lista alternativa liderada por Manuel Saturnino Costa, a um clima de pressão no sentido do apuramento de responsabilidades no escândalo de tráfico de armas para os rebeldes independentistas do Casamance, a denúncias de posturas e opções tribalistas e racistas no seio do partido, e sobretudo a uma situação de excessiva partidarizaçao das forças armadas nacionais, supostamente republicanas.

Um mês depois a Guiné-Bissau mergulhava-se numa guerra civil que culminaria 1999, no derrube de Nino Vieira.

Fiel a sua natureza masoquista, para alguns, a determinação politica na resolução dos problemas internos do partido para outros, mais de meio século volvidos sobre fundação do partido, o PAIGC volta a reunir, a partir de 18 a 20 corrente, o seu V Congresso extraordinário que terá como pano de fundo a afirmação do ex-partido governamental e alterações dos estatutos, que actualmente impedem a expulsão de dirigentes.
O congresso, não electivo, decorrerá em Morés, uma pequena localidade situada 140 quilómetros a norte de Bissau, e local simbólico dos tempos da guerrilha pela independência.

As questões internas dentro do PAIGC serão o ponto alto do congresso, convocado expressamente com esse fim, pouco depois de "Nino" Vieira ter assumido a presidência guineense, a 1 de Outubro, arrastando, consigo, os dirigentes e militantes do PAIGC que o apoiaram, como candidato independente, nas eleições presidenciais.

O regresso de Nino Vieira

Entre esses dirigentes figuram altos responsáveis do partido, nomeadamente o primeiro vice-presidente do PAIGC, Aristides Gomes, suspenso da força política vencedora das legislativas de 2004 em Abril deste ano, entretanto nomeado e empossado a 9 de Novembro como novo primeiro-ministro, na sequência de um decreto presidencial de Nino Vieira.

Sob o lema reafirmação e estabilidade do PAIGC, tal como nos eventos anteriores, neste V Congresso extraordinário de Mores e de se esperar que o espírito de exclusão e de expurga partidária interna venha a se apoderar das emoções dos camaradas e por conseguinte, cabeças venham a rolar no terreiro...

Resta entretanto saber, até que ponto o partido dos ”camaradas” conseguirá, de mais este jogo de “inclusões” e “exclusões” de militantes e responsáveis partidários, tão antiga como a própria história da sua existência, refazer-se da conflitual idade interna e ressentimentos, que decorrem normalmente dos seus congressos.


publicado por jambros às 14:13
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. ...

. Tajudeen Abdul-Raheem pos...

. PAIGC: uma história de co...

. A última Imagem da Guiné:...

. Amílcar Cabral, na pele d...

. Sobre "A Hora da Verdade"...

. Olhares de fora - A mudan...

. As próximas décadas - Ten...

. Bissau

. ...

.arquivos

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

blogs SAPO

.subscrever feeds