Sábado, 3 de Junho de 2006

Mal-amados

Pacheco Pereira.jpg
JOSÉ PACHECO PEREIRA

NOTA: Neste interessante artigo de Pacheco Pereira, mais uma vez a Guiné-Bissau foi tratada como um zero à esquerda. Porém, não sei se justa ou injustamente. Do que sei, é que os guineenses vão-se acomodando, engolindo o peixe pelo rabo, pelo menos aqueles sobre quem recai a responsabilidade de (re)erguer o país e a guineidade, tal a energia ciclópica que desperdiçam em lutas intestinas e titânicas pelo controle do poder político e dos parcos recursos materiais que, paradoxalmente, o país nem sequer dispõe. Enfim, se esta situação não é triste, tal como diz um adágio guineense, ao menos dá vonte de rir...

Leopoldo Amado

"PUBLICO" de 1.6.06

Jack Welsh, descrito na imprensa portuguesa como "um dos gestores
mais admirados em todo o mundo" não esteve com meias medidas e, numa
conferência em que participou, exprimiu o seu espanto pelo facto de
os portugueses não se mostrarem "envergonhados" pela maneira como
são vistos no estrangeiro. E disse mais: "É humilhante para os
portugueses a percepção que o exterior tem de Portugal, que é a de
uma contínua degradação e declínio ao longo dos últimos anos."

Welsh fez bem em dizê-lo e fazia-nos bem ouvir mais verdades como
esta para substituirmos a nossa balofa e inconsequente auto-estima
pela percepção de que a realidade não é propriamente um espelho do
nosso excesso identitário. Como vivemos no mundo das ilusões, não
queremos saber por que é que homens como Welsh, que não precisava
sequer de se dar ao trabalho e à incomodidade de dizerem coisas
feias sobre os seus anfitriões, são capazes de sentir por nós
a "vergonha" que nós não temos. Basta ler os comentários indignados
a estas declarações para ver como a "arrogância do estrangeiro" nos
serve para esconjurar o que não queremos ver e desresponsabilizarmo-
nos do que fazemos e não fazemos.

E particularmente útil sermos confrontados com a nossa imagem vista
de "fora", quando mais uma vez nos entregamos à tarefa permanente de
nos iludirmos com o futebol. A futebolândia está a assumir o papel
de nossa "pátria", quando não conseguimos fazer melhor a que temos.
Talvez por isso lidamos bem e contentamo-nos com o que dura pouco e
não dá muito trabalho, fadados para bater os recordes do Guinness,
se isso implicar número, festa, um pouco de idiotice e muitos
autocarros pagos pelos nossos impostos. Encher as ruas de Pais
Natais e os estádios de senhoras coloridas, isso somos capazes de
fazer. Ser exigentes e abandonar a nossa consabida "displicência",
que Eça retratou como ninguém em Fradique, isso não nos leva a
colocar bandeirinhas nas janelas.

Mas nem o futebol apaga de todo o choque que as imagens de Timor
fazem à nossa idílica visão do "mundo feito pelos portugueses",
outro repositório da nossa permanente procura de auto-estima na
ignorância e na facilidade. É uma velha ilusão pós-colonial que
temos por todo o lado, a de acharmos que os povos por onde nós
passamos, muitas vezes de forma completamente episódica, nos estimam
de forma muito especial. A realidade encarrega-se de nos desiludir,
mas nós queremos pouco saber da realidade.

Os brasileiros discutem seriamente se não teria sido melhor terem
sido colonizados pelos holandeses e alguns maldizem o dia em que a
Holanda perdeu o Brasil para o reino de Portugal. Reagem
pavlovianamente a qualquer up-grade da nossa presença, seja nos
dicionários e na ortografia, seja na literatura, seja nos negócios,
seja na política. A maioria dos portugueses nem sequer sabe, nem
ninguém lhes diz, que muitos "irmãos" brasileiros nutrem tais
sentimentos familiares.

Em Angola damo-nos bem com os governantes, convencidos que nos damos
bem com o povo. Mas estes tratam-nos com arrogância em todos os
momentos em que não nos portamos bem e esquecemos que somos
tolerados apenas enquanto formos serventuários de um dos poderes
mais corruptos de África. A elegância europeia da família "Dos
Santos" pode partilhar os salões com muitos empresários portugueses,
mas o que flúi entre eles é o dinheiro dos negócios, não é respeito
nem consideração. Qualquer mínima tergiversação no código de conduta
da omertá luso-angolana dá logo origem a editoriais do Jornal de
Angola e admoestações aos "tugas".

Na Guiné-Bissau, nem vale a pena pensar, porque se tornou
inabitável. É talvez a única parte do império que pensamos que
perdeu as cores verde-rubras e voltou a dissolver-se no negro de
África, na África não recomendável em que não entramos. Nunca
pensamos Angola e Moçambique só como África, mas a Guiné é África de
vez, ou seja, é-nos indiferente.

O que é que sobra? De São Tomé sabemos pouco, mas pensamos que
talvez pudesse ter sido um Dom-Tom português [ex-colónia francesa
com estatuto especial na UE] que deixamos escapar à sorte de ter
entrado na União Europeia e, como na ilha da Reunião, de ter vacas
pagas pela Política Agrícola Comum e as roças a funcionar. Temos a
vaga nostalgia de que, se não fosse o PREC, São Tomé, como aliás
Cabo Verde, poderiam ter continuado "nossos", com um governador
benigno, dinheiros comunitários e apenas com uma agitação residual e
irrelevante de alguns independentistas a quem a democracia do 25 de
Abril permitiria um partido e um jornal local em crioulo.

Macau, esse, nós esquecemos depressa. Ficou chinês com imensa
velocidade e só existe entre nós como memória da "árvore das
patacas", com a má fama de ter sido o local de perdição dos
socialistas que o governaram nos anos do fim. Foi-se o exótico, fica
Camilo Pessanha, mas quem é que coleccionaria cromos com o bizarro
Pessanha, quando temos os sub-21 e os supra-21?

Resta Timor, a última e hoje a maior das nossas ilusões pós-
coloniais, que desaba nos ecrãs de televisão, quando vemos os bandos
de "jovens" destruindo os escassos bens do seu país e somos
obrigados a chamar-lhes não indonésios, nem milicianos a soldo dos
indonésios, mas sim timorenses. O país que os portugueses acham que
tornaram independente com as manifestações silenciosas de Lisboa, a
quem os jornalistas passaram a chamar Timor Lorosae para que na
palavra os seus mitos se fizessem realidades, e sobre o qual
alimentamos o absurdo transversal, à esquerda e à direita, que os
timorenses querem ser portugueses, conhece um golpe de Estado (que
também não queremos ver), associado a violências típicas de "Estado
falhado", que o tornaram ainda mais pobre e esquecido.

Ficamos mal amados, mal lembrados, pouco estimados no mundo e Welsh
lembra-nos com crueldade que ainda estamos pior, que estamos num
caminho descendente. Lembrá-lo é negativismo dos intelectuais, traço
típico desde os "Vencidos da Vida" das nossas elites ou outro
defeito qualquer que faça parte do problema e não da solução?
Talvez. Também. Mas não só. E não deixo de pensar que mais vale uma
boa dose de realidade, cruel que seja, do que a ilusão das
bandeirinhas, que ao fim do primeiro jogo, ao fim de uma qualquer
derrota no relvado, se transforma em azedume, zanga e justificação
de impotência para nada se fazer.
publicado por jambros às 16:44
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1 comentário:
De esteves a 12 de Outubro de 2006 às 17:19
L.Amado, o parecer deste importante intelectual e politico português sobre a Guiné ou sobre outro pais em Africa, não é de se lhe atribuir grande importância, pois este tipo de políticos portugueses, consideram que tudo o que seja a Sul de Faro é algo de abstrato que só uns analfabetos e atrasados portugueses é que se deram ao sacrificio de perder lá o seu tempo...


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