Quinta-feira, 8 de Junho de 2006

Amílcar Cabral: EUA soltam documentos sobre a morte do líder do PAIGC

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Nota: A edição on-line de "A Semana", de Cabo Verde, publicou ontem, 07-06-06, o artigo que seguidamente ppostamos e que dava conta de que os EUA tinham acabado de “soltar” novos documentos sobre a morte de Amílcar Cabral, líder do PAIGC. Em jeito de nota, ocorre-nos dizer que a novidade apenas se reporta às conversas dos dirigentes americanos reproduzidas no artigo.

Quanto ao resto, já era por demais sabido que os EUA, não obstante terem-se mantido mais ou menos fiéis a Portugal relativamente ao cerco diplomático de que este era alvo nos areópagos internacionais, mantinham também, sobretudo no quadro da NATO (OTAN), uma constante pressão político-diplomática sobre Portugal, no sentido de o forçar a proceder à descolonização em África.

Várias razões, mormente o súbito desequilibro de forças em favor do PAIGC, perfilam entre as causas que explicam o assassinato de Cabral, embora não hajam dúvidas de que o plano de proclamação do Estado da Guiné-Bissau – concebido desde pelo menos 1965 e cuja materialização o PAIGC tinha agendado para o decurso de 1973 – seja a causa imediata do assassinato de Cabral.

Porém, muito se tem escrito e dito sobre a autoria moral do assassinato de Cabral (pois sabe-se muito mais relativamente a autoria material), sem que novas luzes sejam trazidas à ribalta. Com efeito, não sobram dúvidas de que a autoria moral do assassinato de Cabral é, no mínimo, de responsabilidade múltipla, aliás, responsabilidades essas que varia de nível de comprometimento à medida em que os agentes do “complot” se aproximam ou se afastam, quais círculos concêntricos, do núcleo daqueles mais directamente interessados no desaparecimento físico de Amílcar Cabral.

Ora, era natural que uma figura da dimensão de Cabral tivesse inimigos, dentro e fora do PAIGC. Como o PAIGC era constituído de guineenses e caboverdianos, era também natural que, na perspectiva “de dentro”, existissem guineenses e caboverdianos na múltipla teia de responsabilidades relativamente ao seu assassinato, pese embora o axioma, pelo menos do nosso ponto de vista, da directa participação da PIDE e das autoridades coloniais portuguesas no acto.

Assim, na nossa óptica, a única novidade que os americanos “soltaram” sobre o assassinato de Amílcar Cabral é a de que na sua trama tomaram igualmente parte, citamos, “um feudo entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente”, pois até aqui, sobretudo em Cabo Verde, era e é uma espécie de hábito adquirido vislumbrar-se apenas os guineenses entre os esconjurados “de dentro” do PAIGC.

De resto, nenhumas outras novidades nos trouxeram os documentos que os americanos “soltaram” que nem feras, mas que nenhumas mossas fazem, em virtude de nada ou quase nada adiantarem relativamente ao estado actual do conhecimento sobre a matéria, antes pelo contrário, desvalorizando incompreensivelmente a directa participação da PIDE e das autoridades coloniais portuguesas no vil acto, quando asseveram, apenas marginalmente, "haver sinais de envolvimento português", quando, na realidade, dentre os interessses justapostos em linhas concêntricas e que mais se abeiravam do núcleo daqueles a quem mais directamente interessava a eliminação física de Cabral – e isso é possível hoje provar-se – figurava inquestionavelmente a PIDE e as autoridades coloniais portuguesas.

Leopoldo Amado

Eis o artigo:

Menos de um mês após o assassínio do dirigente histórico do PAIGC, Amílcar Cabral, os Estados Unidos concluíram que Portugal não esteve directamente envolvido na sua morte, revelam documentos oficiais tornados públicos esta segunda-feira em Washington. Contudo os Serviços de Informações e Investigação do Departamento de Estado concluíram também que a "cumplicidade de Lisboa" no assassínio do dirigente nacionalista "não pode ser excluída".

Segundo o jornalista José Pestana, da Agência Lusa, os documentos agora tornados públicos incluem telegramas, minutas de reuniões ao mais alto nível do governo norte-americano e ainda propostas sobre a política a seguir por Washington face à deterioração da situação militar na Guiné-Bissau e Moçambique.

Amílcar Cabral foi assassinado a 20 de Janeiro de 1973 em Conackry e a 01 de Fevereiro aqueles serviços do Departamento de Estado emitiram um relatório onde referiam: "a maior parte dos sinais indicam (que o assassínio de Cabral) foi resultado de um feudo entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente", acrescentando contudo "haver sinais de envolvimento português".

Os documentos agora tornados públicos revelam ainda que a diplomacia norte-americana se encontrava a par de planos do PAIGC de declarar a independência da Guiné-Bissau nas zonas libertadas do território (o que veio a acontecer em Setembro de 1973) e ainda que, face à deterioração da situação militar, Portugal esteve envolvido em contactos com representantes do movimento de libertação nesse ano. Um estudo dos Serviços de Informações e Investigação do Departamento de Estado datado de 5 de Outubro de 1973 diz que o PAIGC controlava na altura "aproximadamente um terço do território" e avisa que o PAIGC irá pedir a adesão do pais à ONU "ainda este ano ou no próximo".

Em Dezembro de 1973, o então secretário de Estado, Henry Kissinger, presidiu a uma reunião em que a situação na Guiné foi discutida e em que Kissinger e outros destacados funcionários manifestaram a sua irritação face à inflexibilidade de Portugal na questão colonial. No encontro o então sub-secretário de Estado para questões políticas, William Porter queixa-se amargamente que "o problema é que eles (os portugueses) não nos dão nada com que possamos trabalhar. Não nos dão nada para que os possamos defender. Não nos dão uma única coisa. Falam muito," disse Porter. Kissinger afirma a certa altura que "não há solução excepto tirar-lhes (os territórios)".

Cinco meses depois o golpe de Estado de 25 de Abril de 1974 evitou que Washington tivesse que tomar uma "decisão política" quanto às colónias portuguesas.

publicado por jambros às 16:24
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