Segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

O retrato de um dos mais atrozes aspectos da ditadura de Salazar

tarrafal.jpg
Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde)


FAZER HISTORIA INSISTINDO NA MEMÓRIA
PUBLICO
6.8.06
SÃO JOSÉ ALMEIDA

Fazer a história de uma cadeia é sempre uma tarefa pesada. Por
maioria de razão, é-o também fazer a história de uma prisão política.
Pesadíssima, quando o objecto de estudo é o Campo do Tarrafal, em
Cabo Verde. Apesar da violência do tema analisado, o resultado final
da tese de mestrado de Nélida Maria Freire Brito, publicado em livro
pelas edições Dinossauro, sob o título Tarrafal na Memória dos
Prisioneiros, é uma obra interessante, bem estruturada, que não se
coíbe de relatar a crueza e a ferocidade do tratamento dado aos
presos naquele que foi por eles baptizado como Campo da Morte Lenta.

Assim como não teme levantar as questões consideradas por alguns como
as mais polémicas: fazer o paralelo com os campos de concentração em
outros regimes fascistas, que muitos tendem a desvalorizar. E fá-lo
sem escamotear questões, sem ignorar emoções e sem omitir a diferença
entre liberdade e opressão. Mas também com o distanciamento
necessário para não transformar um estudo académico numa bandeira
política ou num texto de defesa de causas.

É, aliás, essa necessidade de distanciamento que leva a autora a
assumir, logo no início da introdução, o quanto esta investigação
mexeu consigo: "Assumo pessoalmente que me sinto próxima da luta dos
que estiveram no Campo de Concentração do Tarrafal ou noutros
calabouços da ditadura salazarista, e imagino que teria procurado
lutar a política colonial fascista e contra a discriminação racial
imposta pelo Governo de Salazar." Para logo de seguida clarificar que
partiu para este estudo motivada também pelo facto de, apesar de ser
angolana, ter ascendência cabo-verdiana.

A historiadora faz ainda um terceiro aviso, igualmente importante,
embora de ordem diversa. Do ponto de vista das fontes documentais a
que recorre, a historiadora clarifica que apenas usou os depoimentos
escritos, os relatos de memórias de presos no Tarrafal e optou por
nem sequer falar com os escassos sobreviventes.

O estudo de Nélida Maria Freire Brito é, assim, um estudo de história
sobre uma prisão política com características de campo de
concentração e que retraía o extremo da repressão da ditadura de
Salazar. "Ao analisar estas memórias, concluo que a vivência num
Campo de Concentração é muito diferente, tanto da vivida noutras
prisões políticas, como em prisões de delito comum. Percebemos como
no Tarrafal o tratamento era completamente diferente. Aquela
localidade cabo-verdiana ficava isolada de tudo e de todos.

Esse isolamento propositado dói propício ao tipo de tratamento
praticado no Campo. Sem a família por perto e no contexto específico
do espaço colonial, era muito mais difícil denunciar as
arbitrariedades ali perpetradas. Assim, este grupo de presos que
nunca ultrapassou o número de 220 efectivos detidos em simultâneo,
aprendeu a viver um quotidiano de resistência excepcional em todos os
aspectos da vivência humana. Esta experiência pode ser considerada
uma excepção na história do quotidiano das prisões em Portugal." E
acrescenta: "Estes presos sofreram dois níveis de isolamento: um
primeiro face ao exterior, isto é, ficaram isolados do mundo, algures
numa ilha do Oceano Atlântico; um segundo nível corresponde ao da
frigideira, ou seja, ao isolamento no interior do Campo relativamente
aos seus próprios companheiros."

É a história dessa prisão bárbara, em que o poder arbitrário da
ditadura tentou vergar, desestruturar e aniquilar os presos que para
lá enviava, retirando-lhes todos os direitos e toda a dignidade,
assumindo uma gestão do Campo em que a estratégia, mesmo que
oficialmente não assumida, era a da própria eliminação física,
através da deficientíssima alimentação, a total ausência de cuidados
médicos, o espancamento e a tortura, que a obra de Nélida Maria
Freire Brito reconstrói, sem preconceitos nem medo de afrontar e de
provocar polémica, mesmo quando retrata o racismo com que os próprios
presos olhavam os cabo-verdianos que viviam na ilha ou os guardas que
estavam de serviço ao forte. Assim como quando retrata o
comportamento sádico de directores, médicos e guardas que estiveram à
frente do Campo e que tiveram carta branca do regime para aí darem
azo às maiores atrocidades.

Em jeito de promessa, Nélida Maria Freire Brito afirma que gostaria
de voltar à história do Campo do Tarrafal para se debruçar sobre a
sua reabertura, a partir de 1960, como campo de prisioneiros
políticos das ex-colónias, ou seja, de militantes dos movimentos de
libertação de Angola, Guiné, Moçambique e do próprio Cabo Verde. Uma
história esquecida de um período que foi seguramente igualmente
bárbaro e atroz. Ficamos à espera.



publicado por jambros às 15:57
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1 comentário:
De esteves a 11 de Outubro de 2006 às 12:00
Algo de novo neste estudo: O racismo de presos para com os caboverdianos. Este pormenor, penso que é novidade...Penso que os presos em geral, seriam alheios a África. Curiosa esta constatação...


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