Segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

...

agualusa.jpg
José Eduardo Agualusa

Feras, modo de usar
PUBLICO
30.7.06

Comecemos pelo fim: "Já tive uma mãe e ela amava-me". É com esta
frase que Uzodinma Iweala fecha o seu primeiro romance, "Beasts of no
Nation". Uma frase que não se esquece. O sucesso do livro surpreendeu
o autor, um jovem nigeriano de apenas 24 anos, que estudou literatura
em Harvard, e vive actualmente entre Lagos e Washington.

Não acho surpreendente que um bom livro consiga um rápido sucesso. O
que nunca deixa de me surpreender é o fulgurante sucesso de alguns
maus livros. "Beasts of no Nation", que li na tradução de Christina
Baum para a Nova Fronteira, com o título "Feras de Nenhum Lugar" é
sem dúvida um bom livro. Ignoro se alguma editora portuguesa o
tenciona publicar mas espero que sim, o mais cedo possível.

Uzodinma é uma das principais estrelas da Festa Literária de Parati
(FLIP), o maior acontecimento literário do mundo de língua
portuguesa, que principia no próximo dia nove de Agosto na belíssima
cidade histórica situada a sul do Rio de Janeiro.

Criado no seio de uma família de classe média alta, em Washington,
onde aliás nasceu, Uzodinma conseguiu construir um narrador
convincente, nos antípodas da sua própria origem e condição — Agu, um
menino pobre, que depois de sequestrado por um grupo de soldados de
um país da África ocidental, nunca nomeado, se transforma num
assassino.

Após o recomeço da guerra em Angola entrevistei crianças que haviam
sido recentemente desmobilizadas pelo exército governamental angolano
e pelas forças da guerrilha. Cheguei até elas através de Ana
Filgueiras, uma mulher extraordinária, portuguesa sem fronteiras, que
trabalhara com meninos de rua no Brasil, durante muitos anos, antes
de se mudar para Angola. Ana entregou a dois destes meninos
gravadores de cassetes com os quais eles percorriam os bairros de
Luanda, a pé e de bicicleta, recolhendo depoimentos de antigos
companheiros.

O objectivo, a publicação de um livro com os referidos depoimentos,
não chegou infelizmente a ser concretizado devido ao abrupto regresso
de Ana Filgueiras a Portugal - muito doente. Lembro-me de ter ficado
impressionado não tanto com a naturalidade com que os meninos
narravam as abominações da guerra, mas sobretudo com a ternura com
que recordavam a infância roubada e, em particular, o amor dos pais.

"Já tive uma mãe e ela amava-me".

Um exército, qualquer exército, é no essencial uma máquina destinada
a transformar jovens comuns em assassinos. "É fácil militarizar um
civil", gostava de lembrar o poeta angolano Ernesto Lara Filho: "O
problema, depois, é como civilizar um militar".

"Não pense, diz o Tenente. Deixe acontecer. No momento que a gente
pára pra pensar, a cabeça da gente fica que nem a parte de dentro de
uma fruta podre, diz ele. O Comandante diz que é como se apaixonar.
Você não consegue pensar sobre isso. Você só tem que fazer. Acredito
nele. Que mais posso fazer? Todos dizem, pare de se preocupar. Logo
vai ser a sua vez e você vai saber o que a gente sente quando mata
alguém. Todos riem de mim e cospem no chão perto do meu pé".

Para transformar um jovem comum num assassino, portanto, começa por
se lhe tira a mãe (a possibilidade de uma mãe) e depois o pensamento.
Uniformizar também ajuda. O uniforme uniformiza. Uniformizar é
despersonalizar. Em vez de um nome, um número.
Quase todos os países africanos que alcançaram a independência
através da luta armada viram-se envolvidos, pouco depois, em
sangrentas guerras civis. Os mais estáveis e prósperos países de
África, como o Botswana, Cabo Verde, ou a ilha Maurícia, são
precisamente aqueles que não mataram para se libertarem. Matar não
liberta ninguém.

"Então o Comandante me chama, Agu. Venha cá agora. Diz para o chefe
dos inimigos se ajoelhar, apesar do homem já estar ajoelhado e
vomitando. Fico em pé no meu lugar. Não quero matar ninguém hoje. Não
quero matar ninguém nunca. (...) Mata ele, diz o Comandante no meu
ouvido e levanta minha mão com o facão bem alto. Mata. (...) Segura
minha mão e abaixa ela com força na cabeça do inimigo, e sinto como
se uma corrente eléctrica atravessasse o meu corpo todo". O horror! O
horror! Sim, o horror! A realidade é sempre muito pior.
publicado por jambros às 16:10
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. ...

. Tajudeen Abdul-Raheem pos...

. PAIGC: uma história de co...

. A última Imagem da Guiné:...

. Amílcar Cabral, na pele d...

. Sobre "A Hora da Verdade"...

. Olhares de fora - A mudan...

. As próximas décadas - Ten...

. Bissau

. ...

.arquivos

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

blogs SAPO

.subscrever feeds