Quarta-feira, 9 de Agosto de 2006

Bissau

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Luís Carlos Patraquim

Tchon de Papel, bairro da capital guineense. O gerador faz ouvir seu ronronar monótono no quintal da casa. A temperatura é amena, ou não estivéssemos na estação seca.

Há menos lixo, observam os habitantes que fazem o elogio do novo presidente da câmara. Decepção, portanto, para quem chegasse com visões simbólicas e quisesse ver, nos corvos e seu crocitar, o prenúncio de qualquer nova desgraça. Desde o 7 de Junho de 98, data do levantamento de Asumane Mané contra Nino Vieira, que a electricidade vem a espaços. Pela conversa com amigos se percebe que esse dia constitui uma espécie de linha de demarcação temporal na difícil narrativa do país.

Resolvida, noutro golpe e com aplauso quase geral da população, a questão da unidade com Cabo Verde, é hoje que a tarde de Bissau escorre, lenta e quase imóvel, por entre os edifícios degradados, as ruas por asfaltar, o linguajar imparável do povo apostado num infinito mercadejar de tudo: mancarra e laranjas, pilhas, roupa, arroz, movimento dos “toca toca”, vulgo “chapas” trazendo, levando, de uma periferia para um centro que se confunde com ela. Não obstante esta visão do viajante ocasional, toda a gente sabe bem fazer a distinção entre cidade e subúrbio.

Chega-se a um país que já foi mítico, naquilo que constitui a saga da luta de libertação, e confirma-se o que a crónica, jornalística ou de viva voz, vem contando sobre as suas atribulações. E dói. Dói ver isto na terra de Amílcar Cabral. E é então que, no que ao triângulo Angola-Moçambique-Guiné diz respeito, se percebe ser esta terra uma espécie de lugar geométrico onde os sonhos se esfumaram no ar, onde o mapeamento de uma certa utopia se perdeu na curva da estrada.

Na brisa da noite que já veio, cidade velha adentro, junto ao forte, com cais de Pidjiguiti escondido por uma última fileira de casas derruídas, são múltiplas e complexas as explicações. Desde a extrema complexidade étnica do país à inexistênca de uma efectiva implantação do aparelho de estado, do povoamento que não houve à integração crioula que criou seus próprios fantasmas, seus ódios e poses de afirmação, desde os desastres e inépcias das várias governações ao amiguismo e corrupções que grassam e impõem seus valores, suas escondidas regras.

As populações, essas, insistem em desenrrascar-se nos seus difíceis quotidianos, descrentes da governação, insinuando-se com a sua criatividade, por vezes agónica, na rede aparelhistica e interesseira que faz a pose do Estado que inexiste, garantem-me, para lá da capital e alguns arredores.

Mas como país é viável! E é, com certeza. Dizem-me e eu registo, que só a produção da castanha de caju significa uma receita de mais de duzentos milhões de dólares – cálculos por baixo – que se esvai entre candongas financeiras e cambiais, com o francoCFA – convertível – a ajudar à festa. Para não falar nos recursos do mar, das pescas ao petróleo ‘off shore’. Algumas iniciativas teimam em remar contra a maré, desde o surgimento de bancos para o micro- crédito e a pequena poupança, ao delinear de algumas medidas fiscais, Tudo à espera de melhores dias.

Situada numa região complexa, com o fantasma de Casamança, esse sim como um corvo a adejar, a Guiné Bissau espera. Espera que o governo passe na Assembleia, que Nino Vieira se tenha metamorfoseado no sage de que precisa, que os velhos guerrilheiros regressem definitivamente a casa – honrando-se os que o merecem – e que uma classe empresarial digna desse nome se consolide. Neste interim é o assalto de libaneses e de nigerianos, a crescente instabilidade na cidade embora, e à escala, isso fizesse sorrir qualquer habitante de Joanesburgo ou mesmo de Maputo.

Nas tertúlias nocturnas, com a aura de intimidade que o caráter afável e hospitaleiro dos guineenses oferece e a falta de electricidade paradoxamente confere, o tema das conversas acaba sempre por ir ter à situação do país e às expectativas para o futuro. E como ele tem quadros! Grande parte deles desgraçadamente no exterior, a construírem suas vidas na estranja.

A acrescentar a isto só faltava a surda vaga islâmica que graça na região, a que o eleitorado, dizem, esteve atento aquando das últimas eleições. Barril de pólvora? Seguramente que não, sobretudo se se estiver atento e se se der uma oportunidade à reconstrução, ao gizar de projectos consequentes, sustentados.

Bissau vai adormecer ao som dos geradores, no bruá dos bazares de rua iluminados pela chama precária dos xipepho.


publicado por jambros às 11:29
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