Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

Sobre "A Hora da Verdade" - novo livro de José Manuel Mendes Pereira

Hora da verdade 4.jpg
Revelação n.º 2, Edição do autor, 338 páginas, s/ data.

Hoje, chegou-me as mãos o livro (Revelação n.º 2, não tive acesso ao n.º 1) de José Manuel Mendes Pereira intitulado “A Hora da Verdade” – Incúrias e Contrabandos”. Como não podia deixar de ser, li-o de um só fôlego e, por isso, reconheço que preciso de tempo para melhor o digerir, após uma segunda e mais atenta leitura, pois não é recomendável que sobre ele produza opiniões sem um espírito despido de emoções, positivas ou negativas, tal o calafrio que em mim provocou o ambiente escabroso que grassou e grassa nas Forças Armadas guineenses e que o autor de alguma maneira procurou trazer ao de cima.

Desde logo, curiosamente, notei a existência de fortes paralelismos (certamente não fortuitos) entre este livro de José Manuel Mendes Pereira e o de Queba Sambú (“Ordem para Matar”), tratando-se, tanto num caso como noutro, de autores que foram ou são elementos das Forças Armadas guineenses, ligados aos serviços da segurança de Estado e da contra-inteligência militar e que resolveram contar em livro a sua “verdade”, trazendo ambos à colação assuntos e documentos até aí desconhecidos do grande público.

Voltaremos neste espaço, tentando identificar os paralelismos referidos, tanto mais que para lá das eventuais outras ilações a tirar e da justeza dos juízos de valor emitidos pelos autores – ressalta imediatamente, tanto num como noutro livro, a conclusão, provisória que seja, de que um dos maiores “Calcanhar de Aquiles” da Guiné-Bissau, senão mesmo o mais pernicioso, é justamente aquele que se prende aos vários assuntos ligados às Forças Armadas do país e aos serviços da Segurança de Estado, mormente o indissociável e recorrente problema da corrupção e o uso da violência gratuita.

Livro enfadonho, este do José Manuel Mendes Pereira, porque entristece qualquer guineense verdadeiramente amante da Guiné-Bissau e da paz, mas é, concomitantemente, a justo título, tal como de resto o é também o de Queba Sambú, reflexo podre e escabroso, para não dizer asqueroso, do vil percurso trilhado pelas estruturas de poder na Guiné-Bissau, salvaguardando-se, obviamente, as poucas ou quase nulas excepções de outros sectores da sociedade que, desde a independência à esta parte, de alguma maneira escaparam a impiedosa influência deste perverso e negativamente ambiente, matizado pela corrupção, degradação moral e violência gratuita existente nas Forças Armadas e na sociedade guineense em geral, com o agravante de sermos forçados a constactar que, após uma violenta guerra civil que foi a expressão máxima desta atmosfera deletéria, estes e outros assuntos que se prendem às Forças Armadas guineenses não foram erradicados nos dias que correm(afinal, não se-los miraculosamente), antes, pelo contrário, continuando a influenciar negativamente o país, interna e externamente.

Como quer que seja, podemos desde já avançar que este livro põe evidência o facto de ter sido completamente quebrado, no complexo processo político da Guiné-Bissau, o equilíbrio entre a sociedade civil, o sector privado, os sindicatos e o Estado. Aliás, é desse desequilíbrio que resultou um Estado autoritário e sobredimensionado, a inexistência de uma oposição forte, para além de uma sociedade civil quase sem voz.

Esta situação agudizou-se com a guerra civil e só praticamente agora começou-se novamente a assistir ao ressurgimento ténue e gradual do sector privado, à diversidade sindical e ao (re)aparecimento de organizações não governamentais. Mas tal desequilíbrio está ainda longe de ser ultrapassado. O sector privado não constitui ainda massa crítica suficiente para influenciar as decisões do Governo, pois nem sequer é tomado como interlocutor em discussões de concertação social. A oposição política ganha outra dinâmica numa situação de paz, mas continua ainda bastante débil. A criação de organizações não governamentais transformou-se num rendoso negócio e vem tirando credibilidade ao papel que este tipo de instituições pode desempenhar.

Os intelectuais, que já se demarcavam na altura do Estado autoritário, demarcam-se hoje ainda mais face a práticas de governação pouco recomendáveis. Como consequência desse alheamento, o papel fundamental de conceber e implementar políticas para a promoção do desenvolvimento ressentiu-se fortemente no país, na medida em que uma das grandes debilidades que evidencia o actual quadro, a par de um deficiente funcionamento da administração estatal, prende-se justamente com a dificuldade em conceber e implementar políticas de longo prazo, pois são pouco conhecidos os trabalhos que evidenciem um planeamento estratégico de longo prazo de que o país tanto precisa.

Porém, da tristeza provocada pelas “verdades” que o José Manuel patenteou no seu livro, ocorre dizer que, em termos da nossa evolução estratégico-estrutural, apesar de tudo, não temos que nos deixar influenciar pelas circunstâncias actuais, pois nada está ganho e nada está perdido. Tudo está nas nossas mãos e nas dos nossos descendentes, por uma razão: a História não conhece impasses. Guiné-Bissau não é efémero do tempo que passa; é o contínuo que resulta do passado, no presente e para o futuro, da vontade dos guineenses.

Importa pois compreender, avaliar e fazer progredir o quadro estrutural (tempo; espaço; as coisas; os homens) na sua realidade única, que é a do longo prazo. A perspectiva duradoura da história do futuro é feita em cada momento, com cada acção, e resulta, conceptualmente, das articulações entre dois binários: Teoria e História; e História e Prospectiva.

É nesse quadro que abordaremos proximamente este livro de José Manuel Mendes Pereira, a quem felicito pela iniciativa, independentemente do facto de concordar ou não com as asserções fundamentais nele contidas.

Leopoldo Amado

NOTA:

Há dias, a RDP-África noticiou a prisão de alguns elementos das Forças Armadas guineenses e, como que por pressão interna e externa, os órgãos de comunicação, tanto nacionais como estrangeiros, deixaram curiosamente de acompanhar o assunto.

Porém, dentre os elementos presos e acusados ora de tentativa de golpe de Estado ora de tentativa de assassinar Tagma na Wai, Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, figuram, entre outros, altas patentes como o Lamine Sanhá, Tchambu Mané e Lamine Sissé, curiosamente, todos mandingas e ex-apoiantes de Ansumane Mané, líder da rebelião que derrubou o Presidente Nino Vieira em 1998 e alegadamente assassinado em Novembro de 2000, durante o consulado de Kumba Yalá como Presidente da República.

Recorde-se, no entanto, que alguns dos militares agora presos, estiveram também detidos e afastados por longo tempo das fileiras militares, na sequência dos tumultos que conduziram a morte de Ansumane Mané. Porém, reintegrados no Exército, são agora novamente presos, sob a acusação de tentativa de golpe de Estado e tentativa de asassinar Tagma na Wai, actual Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.

Após a leitura “en passant” do livro de José Manuel Mendes Pereira (e igualmente o de Queba Sambú), o mínimo que se pode concluir – esperamos estar enganados! – é que as rixas e a confrontação surda, sempre patentes nas Forças Armadas, entre os mandingas e balantas (etnias tradicionalmente maioritárias na sociedade castrense), a par das fortes projecções que estas disputas e quezílias se reproduzem no poder civil, prosseguem o seu curso normal nas Forças Armadas guineenses e, por arrasto, também em torno das estruturas do Estado da Guiné-Bissau.

Oxalá os “Estados Gerais”, a Missão Especial do Secretário-geral as Nações Unidas (UNOGBIS), a sociedade civil guineense, a CPLP e a própria Comunidade Internacional possam rapidamente consciencializar-se dessa incontornável realidade para que se possa acautelar, enquanto é tempo, dessa atmosfera de sintomática e frágil paz social, aliás, cujos sinais evidentes, de resto, chegam-nos novamente da Guiné-Bissau.

Leopoldo Amado
publicado por jambros às 21:08
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