Sexta-feira, 25 de Agosto de 2006

Sobre "A Hora da Verdade" - novo livro de José Manuel Mendes Pereira

Hora da verdade 4.jpg
Revelação n.º 2, Edição do autor, 338 páginas, s/ data.

Hoje, chegou-me as mãos o livro (Revelação n.º 2, não tive acesso ao n.º 1) de José Manuel Mendes Pereira intitulado “A Hora da Verdade” – Incúrias e Contrabandos”. Como não podia deixar de ser, li-o de um só fôlego e, por isso, reconheço que preciso de tempo para melhor o digerir, após uma segunda e mais atenta leitura, pois não é recomendável que sobre ele produza opiniões sem um espírito despido de emoções, positivas ou negativas, tal o calafrio que em mim provocou o ambiente escabroso que grassou e grassa nas Forças Armadas guineenses e que o autor de alguma maneira procurou trazer ao de cima.

Desde logo, curiosamente, notei a existência de fortes paralelismos (certamente não fortuitos) entre este livro de José Manuel Mendes Pereira e o de Queba Sambú (“Ordem para Matar”), tratando-se, tanto num caso como noutro, de autores que foram ou são elementos das Forças Armadas guineenses, ligados aos serviços da segurança de Estado e da contra-inteligência militar e que resolveram contar em livro a sua “verdade”, trazendo ambos à colação assuntos e documentos até aí desconhecidos do grande público.

Voltaremos neste espaço, tentando identificar os paralelismos referidos, tanto mais que para lá das eventuais outras ilações a tirar e da justeza dos juízos de valor emitidos pelos autores – ressalta imediatamente, tanto num como noutro livro, a conclusão, provisória que seja, de que um dos maiores “Calcanhar de Aquiles” da Guiné-Bissau, senão mesmo o mais pernicioso, é justamente aquele que se prende aos vários assuntos ligados às Forças Armadas do país e aos serviços da Segurança de Estado, mormente o indissociável e recorrente problema da corrupção e o uso da violência gratuita.

Livro enfadonho, este do José Manuel Mendes Pereira, porque entristece qualquer guineense verdadeiramente amante da Guiné-Bissau e da paz, mas é, concomitantemente, a justo título, tal como de resto o é também o de Queba Sambú, reflexo podre e escabroso, para não dizer asqueroso, do vil percurso trilhado pelas estruturas de poder na Guiné-Bissau, salvaguardando-se, obviamente, as poucas ou quase nulas excepções de outros sectores da sociedade que, desde a independência à esta parte, de alguma maneira escaparam a impiedosa influência deste perverso e negativamente ambiente, matizado pela corrupção, degradação moral e violência gratuita existente nas Forças Armadas e na sociedade guineense em geral, com o agravante de sermos forçados a constactar que, após uma violenta guerra civil que foi a expressão máxima desta atmosfera deletéria, estes e outros assuntos que se prendem às Forças Armadas guineenses não foram erradicados nos dias que correm(afinal, não se-los miraculosamente), antes, pelo contrário, continuando a influenciar negativamente o país, interna e externamente.

Como quer que seja, podemos desde já avançar que este livro põe evidência o facto de ter sido completamente quebrado, no complexo processo político da Guiné-Bissau, o equilíbrio entre a sociedade civil, o sector privado, os sindicatos e o Estado. Aliás, é desse desequilíbrio que resultou um Estado autoritário e sobredimensionado, a inexistência de uma oposição forte, para além de uma sociedade civil quase sem voz.

Esta situação agudizou-se com a guerra civil e só praticamente agora começou-se novamente a assistir ao ressurgimento ténue e gradual do sector privado, à diversidade sindical e ao (re)aparecimento de organizações não governamentais. Mas tal desequilíbrio está ainda longe de ser ultrapassado. O sector privado não constitui ainda massa crítica suficiente para influenciar as decisões do Governo, pois nem sequer é tomado como interlocutor em discussões de concertação social. A oposição política ganha outra dinâmica numa situação de paz, mas continua ainda bastante débil. A criação de organizações não governamentais transformou-se num rendoso negócio e vem tirando credibilidade ao papel que este tipo de instituições pode desempenhar.

Os intelectuais, que já se demarcavam na altura do Estado autoritário, demarcam-se hoje ainda mais face a práticas de governação pouco recomendáveis. Como consequência desse alheamento, o papel fundamental de conceber e implementar políticas para a promoção do desenvolvimento ressentiu-se fortemente no país, na medida em que uma das grandes debilidades que evidencia o actual quadro, a par de um deficiente funcionamento da administração estatal, prende-se justamente com a dificuldade em conceber e implementar políticas de longo prazo, pois são pouco conhecidos os trabalhos que evidenciem um planeamento estratégico de longo prazo de que o país tanto precisa.

Porém, da tristeza provocada pelas “verdades” que o José Manuel patenteou no seu livro, ocorre dizer que, em termos da nossa evolução estratégico-estrutural, apesar de tudo, não temos que nos deixar influenciar pelas circunstâncias actuais, pois nada está ganho e nada está perdido. Tudo está nas nossas mãos e nas dos nossos descendentes, por uma razão: a História não conhece impasses. Guiné-Bissau não é efémero do tempo que passa; é o contínuo que resulta do passado, no presente e para o futuro, da vontade dos guineenses.

Importa pois compreender, avaliar e fazer progredir o quadro estrutural (tempo; espaço; as coisas; os homens) na sua realidade única, que é a do longo prazo. A perspectiva duradoura da história do futuro é feita em cada momento, com cada acção, e resulta, conceptualmente, das articulações entre dois binários: Teoria e História; e História e Prospectiva.

É nesse quadro que abordaremos proximamente este livro de José Manuel Mendes Pereira, a quem felicito pela iniciativa, independentemente do facto de concordar ou não com as asserções fundamentais nele contidas.

Leopoldo Amado

NOTA:

Há dias, a RDP-África noticiou a prisão de alguns elementos das Forças Armadas guineenses e, como que por pressão interna e externa, os órgãos de comunicação, tanto nacionais como estrangeiros, deixaram curiosamente de acompanhar o assunto.

Porém, dentre os elementos presos e acusados ora de tentativa de golpe de Estado ora de tentativa de assassinar Tagma na Wai, Chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, figuram, entre outros, altas patentes como o Lamine Sanhá, Tchambu Mané e Lamine Sissé, curiosamente, todos mandingas e ex-apoiantes de Ansumane Mané, líder da rebelião que derrubou o Presidente Nino Vieira em 1998 e alegadamente assassinado em Novembro de 2000, durante o consulado de Kumba Yalá como Presidente da República.

Recorde-se, no entanto, que alguns dos militares agora presos, estiveram também detidos e afastados por longo tempo das fileiras militares, na sequência dos tumultos que conduziram a morte de Ansumane Mané. Porém, reintegrados no Exército, são agora novamente presos, sob a acusação de tentativa de golpe de Estado e tentativa de asassinar Tagma na Wai, actual Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas.

Após a leitura “en passant” do livro de José Manuel Mendes Pereira (e igualmente o de Queba Sambú), o mínimo que se pode concluir – esperamos estar enganados! – é que as rixas e a confrontação surda, sempre patentes nas Forças Armadas, entre os mandingas e balantas (etnias tradicionalmente maioritárias na sociedade castrense), a par das fortes projecções que estas disputas e quezílias se reproduzem no poder civil, prosseguem o seu curso normal nas Forças Armadas guineenses e, por arrasto, também em torno das estruturas do Estado da Guiné-Bissau.

Oxalá os “Estados Gerais”, a Missão Especial do Secretário-geral as Nações Unidas (UNOGBIS), a sociedade civil guineense, a CPLP e a própria Comunidade Internacional possam rapidamente consciencializar-se dessa incontornável realidade para que se possa acautelar, enquanto é tempo, dessa atmosfera de sintomática e frágil paz social, aliás, cujos sinais evidentes, de resto, chegam-nos novamente da Guiné-Bissau.

Leopoldo Amado
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Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Olhares de fora - A mudança da relação com África

Lito 1.jpg
Carlos Lopes

In "O Mundo em Português" Nº60, Dez, 2005


na relação de Portugal com o mundo era o cantinho reservado a África. Sentia um misto de entusiasmo, por saber o continente tão presente no quotidiano português, com tanta visibilidade nos media, e com um enorme volume de conhecimentos científicos guardados em instituições várias, e de tristeza, por saber que essa motivação perdia a batalha dos corações mais jovens, com a ausência de uma política deliberada de integração dos imigrantes, e a leveza com que se desviavam os olhos em relação ao futuro de África. A relação de Portugal com África ficava cada vez mais datada e menos dinâmica.

Esta constatação era tanto mais intrigante quanto se antevia que a Revolução dos Cravos – e a descolonização que se lhe seguiu – representavam um virar de página, a passagem de uma relação colonial para uma relação de parceria.

Ao longo dos anos foi-se verificando uma procura de África para negócios e actividades de curto prazo, mas menos interesse no advir, na cultura, no aprofundamento do conhecimento sobre a contemporaneidade. Era como se bastasse o que se sabia para manter uma relação que se foi desenhando como paternalista e, às vezes, interesseira.

Hoje a África está presente em Portugal através dos guetos, dos jovens desempregados ou desamparados, e de uma atitude pessimista desenvolvida a partir do desapontamento da evolução política recente do continente. Trata-se também de uma questão geracional. Mas a verdade é que as elites portuguesas perderam a paciência. E pode-se muito bem entender porque.

O 25 de Abril não teria sido possível sem a conjugação da luta anti-fascista e anti-colonial. Antes – e logo depois de 1974 – as inspirações de uma boa parte da intelectualidade portuguesa, e dos movimentos políticos independentistas, tinham as mesmas raízes, os mesmos referenciais e a mesma esperança. À medida que foram surgindo os primeiros golpes, começou a haver uma retracção e um afastamento, logo transformado em fuga, para depois ser mesmo substituído por fustigação e ataque. Pobres africanos: esquecidos tornaram-se bravos – o instante de mostrar sua autonomia – para depois baixarem a cabeça e aceitarem mais um isolamento.

O discurso, esse evoluiu. Mudou para lusofonia, como que para não eliminar completamente o manto integrador anterior. Mas esse discurso tem limitações várias que Portugal também foi descobrindo – às vezes de forma áspera.

Se alguém me dissesse que em 2005 haveria mais europeus do leste que cabo-verdianos ou angolanos em Portugal, iria achar não só impossível mas mesmo inverosímil. No entanto, a dinâmica do mercado de trabalho, e as forcas centrífugas da União Europeia, acabaram por provocar isso mesmo: mais fluxo entre Kiev e Lisboa do que entre Bissau, Maputo e a capital do Tejo. Nunca poderia ter imaginado semelhante desenvolvimento, e em tão pouco tempo.

Para mim o mais espantoso na evolução de Portugal é a batalha demográfica. Ela vai obrigar a redefinir o que é ser português. Por imposições económicas, da segurança social, e de sobrevivência, Portugal vai ter de aceitar que precisa de emigrantes para sobreviver. E ao fazê-lo vai ter, de forma implícita ou explicita, que fazer escolhas de relacionamento. Esse é o verdadeiro teste da lusofonia para Portugal. Mas o problema está apenas equacionado. Amanha poderá acontecer a Lisboa o que incendiou Paris.

O mundo tem vivido uma serie de pequenas vinganças do velho Karl Marx, uma delas sendo que a primazia da economia sobre o resto acabou sendo imposta... pela globalização capitalista. Mas em outras frentes os marxistas enganaram-se, todos nos enganámos.

O Estado nação, definido como uma instituição de conformação unitária de língua, passado histórico, cultura, religião, e outras dominantes, faleceu. Tinha nascido com dificuldades. Muitas vezes a ideia de Nação foi construída a partir do Estado. Na maior parte dos países africanos a modernidade foi associada à construção do Estado nação. Em nome do nacionalismo se lutou pelas independências. Era assim normal que, ao analisar-se a realidade portuguesa se insistisse que se tratava até de um exemplo raro de confirmação de que poderia haver um Estado nação como definido teoricamente nos livros. Portugal continua a ser considerado, por muitos, como uma das mais velhas verdadeiras nações europeias.

Pelas suas características, sempre foi difícil para a intelectualidade portuguesa entender o que verdadeiramente se passava na África. O interesse tinha, pois, chances de ser seguido por desapontamento. E assim ficou um pouco suave de mais a ideia de que a proximidade cultural criada pela língua era um atractivo para relações especiais com os chamados Palop.

Foi-se a solidariedade de princípios, a cumplicidade revolucionária e, agora, também, o namoro lusófono. Com que se fica?

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Quarta-feira, 9 de Agosto de 2006

As próximas décadas - Tendências do desenvolvimento em África

Africa 2.jpg

por Fernando Jorge Cardoso, In "O Mundo em Português" Nº60, Dezembro de 2005

Perspectivar o rumo e as tendências de desenvolvimento de África nas décadas futuras tem sido um exercício repetido – e repetidamente falhado. Esta chamada de atenção é necessária, para realçar a natureza assumidamente incerta deste exercício especulativo.

Que tendências se destacam, pois, na evolução de África nas primeiras décadas do presente século?

A primeira delas decorre da natureza das economias africanas, que não têm capacidade para se desenvolver em contracorrente à evolução da economia mundial e, mais concretamente, em contracorrente à evolução das economias dos países com quem mantêm o essencial dos fluxos de comércio e investimento.

Um corolário desta afirmação põe em causa um dos pressupostos mais queridos do pensamento económico (in)dependentista: os países africanos não têm condições para prosseguir estratégias de substituição de importações, devendo, antes, potenciar as suas ligações à economia mundial, ou seja, aumentar as exportações, desejavelmente com o máximo de valor incorporado possível.

A segunda tendência decorre igualmente da evolução externa aos países africanos, designadamente o crescimento dos preços das matérias primas minerais, com realce ao do petróleo, sustentado, em larga medida, pela industrialização acelerada de China e, em menor escala, da Índia. Esta realidade vai provavelmente manter-se no longo prazo.

É evidente o aumento recente do investimento externo (incluindo o chinês) em várias economias africanas nos sectores da produção mineral e energética e na construção civil. Países como o Mali, Angola ou Moçambique são exemplo desta nova realidade. Esta tendência tem influenciado o rápido desenvolvimento e financiamento nos sectores da obras públicas e da mineração, bem como, colateralmente, dos serviços bancários e financeiros.

Em suma, para uma quantidade apreciável de países com recursos minerais exploráveis, existe a possibilidade de aproveitar, positiva ou negativamente, este fluxo de financiamento e investimento externo. Dependerá bastante das condições políticas internas e da qualidade e transparência da governação o rumo dos acontecimentos futuros. O desafio é aproveitar os recursos disponíveis para desenvolver países e não só elites predadoras. Este desafio está em aberto e terá, possivelmente, respostas diferenciadas.

A terceira tendência tem a ver com o binómio diferenciação-homogeneização: África vai desenvolver-se em bloco ou existirão países africanos a descolar mais rapidamente no sentido da modernização das respectivas economias? Esta questão entronca com as realidades da integração regional em curso no continente.

Previsivelmente a realidade de cada país vai continuar a distanciar-se do discurso africanista consensual. As agendas nacionais continuarão a sobrelevar sobre as agendas regionais e o surto de investimentos acentuará ainda mais a ligação e as dependências de diversos países às economias mais industrializadas e emergentes no cenário internacional. Uma provável excepção a esta regra será o anel de países clientes da África do Sul, ou seja, parte dos países situados na África austral. Esta tendência diferenciadora não constituirá, por si só, uma ameaça aos esforços de integração regional, na medida em que os mercados internos dos países cresçam e as iniciativas de abertura de fronteiras se mantenham. Porém, em termos de prioridades o nacional virá sempre antes do regional.

Uma quarta tendência tem a ver com a democratização em curso. Os procedimentos democráticos básicos – eleições, separação de poderes, primado da lei sobre a força - têm vindo a ser apropriados pelas elites governantes, que vão criando as suas alianças e clientelas internas e externas. É interessante notar a durabilidade de grupos e personalidades no poder que outrora defendiam regimes militares ou de partido único. Esta conversão democrática das elites veio, aparentemente, para ficar, e é largamente consensual. Ou seja, o espaço político está mais aberto, a imprensa é mais livre, os tribunais vão cultivando alguma independência do poder político.

O porquê do aparente triunfo dos regimes democráticos não vem somente da colagem às tendências e condicionalidades internacionais; ele advém igualmente do fenómeno em curso de privatização dos Estados e de apropriação de bens públicos através de esquemas de favoritismo e influência: o crescimento das burguesias internas está em curso e é claramente dominado por quem detém a dominação política. A prazo, com a emergência de sociedades civis e de partidos políticos mais fortes, as regras democráticas, a serem mantidas, poderão corrigir práticas predadoras. O facto que importa salientar é que muitos dos países africanos reiniciaram o processo de modernização na vigência de regimes democráticos – e isto é novo em África.

Uma quinta tendência situa-se no domínio dos conflitos violentos. Neste campo, existe uma forte aliança de objectivos entre a comunidade internacional, os governos, os partidos políticos, as igrejas e as organizações da sociedade civil, claramente empenhados no fim das guerras e das soluções violentas dos conflitos existentes. É previsível que, com a excepção da África oriental – Uganda, Sudão, Etiópia, Eritreia e Somália –, os conflitos ainda existentes na costa ocidental africana estejam resolvidos a curto prazo.

A médio prazo, a conflitualidade nas zonas mais perto do Médio Oriente e do Corno de África dependerão bastante da evolução política e militar em países como o Iraque, Irão, Arábia Saudita e Israel. A existência de conflitos violentos em vastas zonas, incluindo regiões ou mesmo países onde se verifica uma ausência de instituições do Estado, favorecem a criação e fixação de redes terroristas e de contrabando.

Uma sexta tendência tem a ver com a evolução do HIV/SIDA e das doenças mais graves no continente: a malária, as diarreias e infecções respiratórias. Parte das grandes endemias em África decorrem do subdesenvolvimento e da pobreza: a criação de redes de saneamento básico, o tratamento das águas, a melhoria das dietas alimentares serão, em última instância, o melhor combate contra uma parte destas doenças. A evolução da SIDA está igualmente ligada aos conflitos violentos – a paz, a modernização das sociedades africanas, o combate a práticas e mitos ancestrais, o aumento da informação e do acesso a meios de prevenção são armas poderosas contra a infecção. A utilização de novos medicamentos mais eficazes e a possível descoberta de uma vacina contra a malária, no próximo futuro, tenderão a melhorar os níveis de saúde e de produtividade do trabalho actuais.

Não obstante a previsível melhoria das condições sanitárias, sustentada pela paz, pelo crescimento económico e pela ajuda internacional, os efeitos perversos da epidemia de SIDA continuarão a afectar vastas regiões do continente africano, nomeadamente nas regiões austral e oriental. Em que medida é que os efeitos da doença se repercutem nas possibilidades de crescimento acelerado é uma discussão não consensual. Sem dúvida que estamos perante uma tragédia humana com impacto sobre as futuras gerações, e que influencia ritmos de crescimento, de produtividade e de competitividade. É cedo, porém, para concluir sobre inexoráveis obstáculos ao desenvolvimento e à modernização dos países.

Como nota final, não tanto como tendência, mas como condição sine qua non, o factor porventura mais influente para a evolução das sociedades africanas será a qualidade da formação, da educação e da instrução. Na sociedade do conhecimento, o capital humano não só condiciona o bom aproveitamento endógeno das riquezas naturais dos países, mas também determina cada vez mais a eficácia da especialização do trabalho e a competitividade das economias.


publicado por jambros às 17:37
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Bissau

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Luís Carlos Patraquim

Tchon de Papel, bairro da capital guineense. O gerador faz ouvir seu ronronar monótono no quintal da casa. A temperatura é amena, ou não estivéssemos na estação seca.

Há menos lixo, observam os habitantes que fazem o elogio do novo presidente da câmara. Decepção, portanto, para quem chegasse com visões simbólicas e quisesse ver, nos corvos e seu crocitar, o prenúncio de qualquer nova desgraça. Desde o 7 de Junho de 98, data do levantamento de Asumane Mané contra Nino Vieira, que a electricidade vem a espaços. Pela conversa com amigos se percebe que esse dia constitui uma espécie de linha de demarcação temporal na difícil narrativa do país.

Resolvida, noutro golpe e com aplauso quase geral da população, a questão da unidade com Cabo Verde, é hoje que a tarde de Bissau escorre, lenta e quase imóvel, por entre os edifícios degradados, as ruas por asfaltar, o linguajar imparável do povo apostado num infinito mercadejar de tudo: mancarra e laranjas, pilhas, roupa, arroz, movimento dos “toca toca”, vulgo “chapas” trazendo, levando, de uma periferia para um centro que se confunde com ela. Não obstante esta visão do viajante ocasional, toda a gente sabe bem fazer a distinção entre cidade e subúrbio.

Chega-se a um país que já foi mítico, naquilo que constitui a saga da luta de libertação, e confirma-se o que a crónica, jornalística ou de viva voz, vem contando sobre as suas atribulações. E dói. Dói ver isto na terra de Amílcar Cabral. E é então que, no que ao triângulo Angola-Moçambique-Guiné diz respeito, se percebe ser esta terra uma espécie de lugar geométrico onde os sonhos se esfumaram no ar, onde o mapeamento de uma certa utopia se perdeu na curva da estrada.

Na brisa da noite que já veio, cidade velha adentro, junto ao forte, com cais de Pidjiguiti escondido por uma última fileira de casas derruídas, são múltiplas e complexas as explicações. Desde a extrema complexidade étnica do país à inexistênca de uma efectiva implantação do aparelho de estado, do povoamento que não houve à integração crioula que criou seus próprios fantasmas, seus ódios e poses de afirmação, desde os desastres e inépcias das várias governações ao amiguismo e corrupções que grassam e impõem seus valores, suas escondidas regras.

As populações, essas, insistem em desenrrascar-se nos seus difíceis quotidianos, descrentes da governação, insinuando-se com a sua criatividade, por vezes agónica, na rede aparelhistica e interesseira que faz a pose do Estado que inexiste, garantem-me, para lá da capital e alguns arredores.

Mas como país é viável! E é, com certeza. Dizem-me e eu registo, que só a produção da castanha de caju significa uma receita de mais de duzentos milhões de dólares – cálculos por baixo – que se esvai entre candongas financeiras e cambiais, com o francoCFA – convertível – a ajudar à festa. Para não falar nos recursos do mar, das pescas ao petróleo ‘off shore’. Algumas iniciativas teimam em remar contra a maré, desde o surgimento de bancos para o micro- crédito e a pequena poupança, ao delinear de algumas medidas fiscais, Tudo à espera de melhores dias.

Situada numa região complexa, com o fantasma de Casamança, esse sim como um corvo a adejar, a Guiné Bissau espera. Espera que o governo passe na Assembleia, que Nino Vieira se tenha metamorfoseado no sage de que precisa, que os velhos guerrilheiros regressem definitivamente a casa – honrando-se os que o merecem – e que uma classe empresarial digna desse nome se consolide. Neste interim é o assalto de libaneses e de nigerianos, a crescente instabilidade na cidade embora, e à escala, isso fizesse sorrir qualquer habitante de Joanesburgo ou mesmo de Maputo.

Nas tertúlias nocturnas, com a aura de intimidade que o caráter afável e hospitaleiro dos guineenses oferece e a falta de electricidade paradoxamente confere, o tema das conversas acaba sempre por ir ter à situação do país e às expectativas para o futuro. E como ele tem quadros! Grande parte deles desgraçadamente no exterior, a construírem suas vidas na estranja.

A acrescentar a isto só faltava a surda vaga islâmica que graça na região, a que o eleitorado, dizem, esteve atento aquando das últimas eleições. Barril de pólvora? Seguramente que não, sobretudo se se estiver atento e se se der uma oportunidade à reconstrução, ao gizar de projectos consequentes, sustentados.

Bissau vai adormecer ao som dos geradores, no bruá dos bazares de rua iluminados pela chama precária dos xipepho.


publicado por jambros às 11:29
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Segunda-feira, 7 de Agosto de 2006

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agualusa.jpg
José Eduardo Agualusa

Feras, modo de usar
PUBLICO
30.7.06

Comecemos pelo fim: "Já tive uma mãe e ela amava-me". É com esta
frase que Uzodinma Iweala fecha o seu primeiro romance, "Beasts of no
Nation". Uma frase que não se esquece. O sucesso do livro surpreendeu
o autor, um jovem nigeriano de apenas 24 anos, que estudou literatura
em Harvard, e vive actualmente entre Lagos e Washington.

Não acho surpreendente que um bom livro consiga um rápido sucesso. O
que nunca deixa de me surpreender é o fulgurante sucesso de alguns
maus livros. "Beasts of no Nation", que li na tradução de Christina
Baum para a Nova Fronteira, com o título "Feras de Nenhum Lugar" é
sem dúvida um bom livro. Ignoro se alguma editora portuguesa o
tenciona publicar mas espero que sim, o mais cedo possível.

Uzodinma é uma das principais estrelas da Festa Literária de Parati
(FLIP), o maior acontecimento literário do mundo de língua
portuguesa, que principia no próximo dia nove de Agosto na belíssima
cidade histórica situada a sul do Rio de Janeiro.

Criado no seio de uma família de classe média alta, em Washington,
onde aliás nasceu, Uzodinma conseguiu construir um narrador
convincente, nos antípodas da sua própria origem e condição — Agu, um
menino pobre, que depois de sequestrado por um grupo de soldados de
um país da África ocidental, nunca nomeado, se transforma num
assassino.

Após o recomeço da guerra em Angola entrevistei crianças que haviam
sido recentemente desmobilizadas pelo exército governamental angolano
e pelas forças da guerrilha. Cheguei até elas através de Ana
Filgueiras, uma mulher extraordinária, portuguesa sem fronteiras, que
trabalhara com meninos de rua no Brasil, durante muitos anos, antes
de se mudar para Angola. Ana entregou a dois destes meninos
gravadores de cassetes com os quais eles percorriam os bairros de
Luanda, a pé e de bicicleta, recolhendo depoimentos de antigos
companheiros.

O objectivo, a publicação de um livro com os referidos depoimentos,
não chegou infelizmente a ser concretizado devido ao abrupto regresso
de Ana Filgueiras a Portugal - muito doente. Lembro-me de ter ficado
impressionado não tanto com a naturalidade com que os meninos
narravam as abominações da guerra, mas sobretudo com a ternura com
que recordavam a infância roubada e, em particular, o amor dos pais.

"Já tive uma mãe e ela amava-me".

Um exército, qualquer exército, é no essencial uma máquina destinada
a transformar jovens comuns em assassinos. "É fácil militarizar um
civil", gostava de lembrar o poeta angolano Ernesto Lara Filho: "O
problema, depois, é como civilizar um militar".

"Não pense, diz o Tenente. Deixe acontecer. No momento que a gente
pára pra pensar, a cabeça da gente fica que nem a parte de dentro de
uma fruta podre, diz ele. O Comandante diz que é como se apaixonar.
Você não consegue pensar sobre isso. Você só tem que fazer. Acredito
nele. Que mais posso fazer? Todos dizem, pare de se preocupar. Logo
vai ser a sua vez e você vai saber o que a gente sente quando mata
alguém. Todos riem de mim e cospem no chão perto do meu pé".

Para transformar um jovem comum num assassino, portanto, começa por
se lhe tira a mãe (a possibilidade de uma mãe) e depois o pensamento.
Uniformizar também ajuda. O uniforme uniformiza. Uniformizar é
despersonalizar. Em vez de um nome, um número.
Quase todos os países africanos que alcançaram a independência
através da luta armada viram-se envolvidos, pouco depois, em
sangrentas guerras civis. Os mais estáveis e prósperos países de
África, como o Botswana, Cabo Verde, ou a ilha Maurícia, são
precisamente aqueles que não mataram para se libertarem. Matar não
liberta ninguém.

"Então o Comandante me chama, Agu. Venha cá agora. Diz para o chefe
dos inimigos se ajoelhar, apesar do homem já estar ajoelhado e
vomitando. Fico em pé no meu lugar. Não quero matar ninguém hoje. Não
quero matar ninguém nunca. (...) Mata ele, diz o Comandante no meu
ouvido e levanta minha mão com o facão bem alto. Mata. (...) Segura
minha mão e abaixa ela com força na cabeça do inimigo, e sinto como
se uma corrente eléctrica atravessasse o meu corpo todo". O horror! O
horror! Sim, o horror! A realidade é sempre muito pior.
publicado por jambros às 16:10
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O retrato de um dos mais atrozes aspectos da ditadura de Salazar

tarrafal.jpg
Campo de Concentração do Tarrafal (Cabo Verde)


FAZER HISTORIA INSISTINDO NA MEMÓRIA
PUBLICO
6.8.06
SÃO JOSÉ ALMEIDA

Fazer a história de uma cadeia é sempre uma tarefa pesada. Por
maioria de razão, é-o também fazer a história de uma prisão política.
Pesadíssima, quando o objecto de estudo é o Campo do Tarrafal, em
Cabo Verde. Apesar da violência do tema analisado, o resultado final
da tese de mestrado de Nélida Maria Freire Brito, publicado em livro
pelas edições Dinossauro, sob o título Tarrafal na Memória dos
Prisioneiros, é uma obra interessante, bem estruturada, que não se
coíbe de relatar a crueza e a ferocidade do tratamento dado aos
presos naquele que foi por eles baptizado como Campo da Morte Lenta.

Assim como não teme levantar as questões consideradas por alguns como
as mais polémicas: fazer o paralelo com os campos de concentração em
outros regimes fascistas, que muitos tendem a desvalorizar. E fá-lo
sem escamotear questões, sem ignorar emoções e sem omitir a diferença
entre liberdade e opressão. Mas também com o distanciamento
necessário para não transformar um estudo académico numa bandeira
política ou num texto de defesa de causas.

É, aliás, essa necessidade de distanciamento que leva a autora a
assumir, logo no início da introdução, o quanto esta investigação
mexeu consigo: "Assumo pessoalmente que me sinto próxima da luta dos
que estiveram no Campo de Concentração do Tarrafal ou noutros
calabouços da ditadura salazarista, e imagino que teria procurado
lutar a política colonial fascista e contra a discriminação racial
imposta pelo Governo de Salazar." Para logo de seguida clarificar que
partiu para este estudo motivada também pelo facto de, apesar de ser
angolana, ter ascendência cabo-verdiana.

A historiadora faz ainda um terceiro aviso, igualmente importante,
embora de ordem diversa. Do ponto de vista das fontes documentais a
que recorre, a historiadora clarifica que apenas usou os depoimentos
escritos, os relatos de memórias de presos no Tarrafal e optou por
nem sequer falar com os escassos sobreviventes.

O estudo de Nélida Maria Freire Brito é, assim, um estudo de história
sobre uma prisão política com características de campo de
concentração e que retraía o extremo da repressão da ditadura de
Salazar. "Ao analisar estas memórias, concluo que a vivência num
Campo de Concentração é muito diferente, tanto da vivida noutras
prisões políticas, como em prisões de delito comum. Percebemos como
no Tarrafal o tratamento era completamente diferente. Aquela
localidade cabo-verdiana ficava isolada de tudo e de todos.

Esse isolamento propositado dói propício ao tipo de tratamento
praticado no Campo. Sem a família por perto e no contexto específico
do espaço colonial, era muito mais difícil denunciar as
arbitrariedades ali perpetradas. Assim, este grupo de presos que
nunca ultrapassou o número de 220 efectivos detidos em simultâneo,
aprendeu a viver um quotidiano de resistência excepcional em todos os
aspectos da vivência humana. Esta experiência pode ser considerada
uma excepção na história do quotidiano das prisões em Portugal." E
acrescenta: "Estes presos sofreram dois níveis de isolamento: um
primeiro face ao exterior, isto é, ficaram isolados do mundo, algures
numa ilha do Oceano Atlântico; um segundo nível corresponde ao da
frigideira, ou seja, ao isolamento no interior do Campo relativamente
aos seus próprios companheiros."

É a história dessa prisão bárbara, em que o poder arbitrário da
ditadura tentou vergar, desestruturar e aniquilar os presos que para
lá enviava, retirando-lhes todos os direitos e toda a dignidade,
assumindo uma gestão do Campo em que a estratégia, mesmo que
oficialmente não assumida, era a da própria eliminação física,
através da deficientíssima alimentação, a total ausência de cuidados
médicos, o espancamento e a tortura, que a obra de Nélida Maria
Freire Brito reconstrói, sem preconceitos nem medo de afrontar e de
provocar polémica, mesmo quando retrata o racismo com que os próprios
presos olhavam os cabo-verdianos que viviam na ilha ou os guardas que
estavam de serviço ao forte. Assim como quando retrata o
comportamento sádico de directores, médicos e guardas que estiveram à
frente do Campo e que tiveram carta branca do regime para aí darem
azo às maiores atrocidades.

Em jeito de promessa, Nélida Maria Freire Brito afirma que gostaria
de voltar à história do Campo do Tarrafal para se debruçar sobre a
sua reabertura, a partir de 1960, como campo de prisioneiros
políticos das ex-colónias, ou seja, de militantes dos movimentos de
libertação de Angola, Guiné, Moçambique e do próprio Cabo Verde. Uma
história esquecida de um período que foi seguramente igualmente
bárbaro e atroz. Ficamos à espera.



publicado por jambros às 15:57
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Cabo Verde: País em 2º lugar na classificação Banco Mundial de boa

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Mapa de Cabo Verde

Cidade da Praia, 04 Ago (Lusa) - Só ultrapassado pela Arménia, Cabo
Verde está em 2º lugar na classificação que o Banco Mundial acaba de
divulgar sobre Boa Governação em 76 países pobres ou em vias de
desenvolvimento.

Controlo da inflação, dívida externa regularmente paga, uma economia
onde a concorrência é livre, despesas públicas equilibradas e bem
repartidas são alguns dos 16 critérios tidos em conta nesta
classificação do Banco Mundial.

Segundo explicações avançadas pelo Ministério das Finanças de Cabo
Verde, o Banco Mundial procura ter em conta sobretudo aspectos
económicos e sociais dos países analisados.

Carlos Santos, director do gabinete de estudos do Ministério das
Finanças explicou à Agência Lusa que esta classificação demonstra que
Cabo Verde está no bom caminho e que a classificação obtida
irá "melhorar o clima de confiança no país".

De acordo com aquele responsável, este "ranking" do Banco Mundial é
tido actualmente com um instrumento de grande importância, já que se
trata de um guia para os investidores internacionais.

"Estes, antes de aplicarem os seus recursos, procuram saber se o país
potencial é ou não fiável e se cumpre as suas obrigações" afirmou.

A seguir a Cabo Verde surgem na classificação do Banco Mundial, Samoa
e Santa Lúcia, dois micro-estados do Pacífico e das Caraíbas,
respectivamente.

No final da lista surgem as Comores, a República Centro Africana e o
Zimbabué.

Entre os Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP),
Moçambique surge em 36º lugar, São Tomé e Príncipe (60), Guiné-Bissau
(68) e Angola (70).

Relativamente a outros Estados africanos, o Senegal surge na 16ª
posição, abaixo do Burkina Faso (15) e acima do Mali (20), Níger
(47), Mauritânia (48), Nigéria (50) e Guiné- Conacri (57).
publicado por jambros às 10:49
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