Sexta-feira, 28 de Julho de 2006

Timor: é só o começo

foto_col_6059.jpg
por Boaventura Sousa Santos

A interferência da Austrália na fabricação da crise timorense está cada vez mais clara: documentos de política estratégica australiana de 2002 revelam a importância de Timor Leste para a consolidação da posição regional australiana, tanto no plano econômico como militar.

Boaventura de Sousa Santos

A crise política em Timor, para além de ter colhido de surpresa a maior parte dos observadores, provoca algumas perplexidades e exige, por isso, uma análise menos trivial do que aquela que tem vindo a ser veiculada pela comunicação social internacional. Como é que um país, que ainda no final do ano passado teve eleições municipais, consideradas por todos os observadores internacionais como livres, pacíficas e justas, pode estar mergulhado numa crise de governabilidade? Como é que um país, que há três meses foi objeto de um elogioso relatório do Banco Mundial, que considerou um êxito a política econômica do governo, pode agora ser visto por alguns como um Estado falhado?

À medida que se aprofunda a crise em Timor Leste, os fatores que a provocaram vão se tornando mais evidentes. A interferência da Austrália na fabricação da crise está agora bem documentada e vem desde há vários anos. Documentos de política estratégica australiana de 2002 revelam a importância de Timor Leste para a consolidação da posição regional da Austrália e a determinação deste país em salvaguardar a todo o custo os seus interesses. Os interesses são econômicos (as reservas de petróleo e gás natural estão calculadas em trinta mil milhões de dólares) e geomilitares (controlar rotas marítimas de águas profundas e travar a emergência do rival regional: a China).

Desde o início da seu governo, o primeiro-ministro timorense, Mari Alkatiri, um político lúcido, nacionalista mas não populista, centrou a sua política na defesa dos interesses de Timor, assumindo que eles não coincidiam necessariamente com os da Austrália. Isso ficou claro desde logo nas negociações sobre a partilha dos recursos do petróleo em que Alkatiri lutou por uma maior autonomia de Timor e uma mais eqüitativa partilha dos benefícios. O petróleo e o gás natural têm sido a desgraça dos países pobres (que o digam a Bolívia, o Iraque, a Nigéria ou Angola). E o David timorense ousou resistir ao Golias australiano, subindo de 20% para 50% a parte que caberia a Timor dos rendimentos dos recursos naturais existentes, procurando transformar e comercializar o gás natural a partir de Timor e não da Austrália, concedendo direitos de exploração a uma empresa chinesa nos campos de petróleo e gás sob o controlo de Dili.

Por outro lado, Alkatiri resistiu às táticas intimidatórias e ao unilateralismo que os australianos parecem ter aprendido em tempos recentes dos seus amigos norte-americanos. O Pacífico do Sul é hoje para a Austrália o que a América Latina tem sido para os EUA há quase duzentos anos. Ousou diversificar as suas relações internacionais, conferindo um lugar especial às relações com Portugal, o que foi considerado um ato hostil por parte da Austrália, e incluindo nelas o Brasil, Cuba, Malásia e China. Por tudo isto, Alkatiri tornou-se um alvo a abater. O fato de se tratar de um governante legitimamente eleito fez com que tal não fosse possível sem destruir a jovem democracia timorense. É isso que está em curso.

Uma interferência externa nunca tem êxito sem aliados internos que ampliem o descontentamento e fomentem a desordem. Há uma pequena elite descontente, quiçá ressentida por não lhe ter sido dado acesso aos fundos do petróleo. Há a Igreja Católica que, depois de ter tido um papel meritório na luta pela independência, não hesitou em pôr os seus interesses acima dos interesses da jovem democracia timorense ao provocar a desestabilização política com as vigílias de 2005 apenas porque o governo decidiu tornar facultativo o ensino da religião nas escolas. Toleram mal um primeiro-ministro muçulmano, mesmo laico e muito moderado, porque o ecumenismo é só para celebrar nas encíclicas.

E há, obviamente, Ramos Horta, Prêmio Nobel da Paz, um político de ambições desmedidas, totalmente alinhado com a Austrália e os EUA e que, por essa razão, sabe não ter hoje o apoio do resto da região para a sua candidatura a secretário-geral da ONU. Foi ele o responsável pela passividade chocante da CPLP (Comunidade de Países de Língua Oficial Portuguesa) nesta crise. A tragédia de Ramos Horta é que nunca será um governante eleito pelo povo, pelos menos enquanto não afastar totalmente Mari Alkatiri. Para isso, é preciso transformar o conflito político num conflito jurídico, convertendo eventuais erros políticos em crimes e contar com o zelo de um procurador-geral para produzir a acusação. Daí que as organizações de direitos humanos, que tão alto ergueram a voz em defesa da democracia de Timor, tenham agora uma missão muito concreta a cumprir: conseguir bons advogados para Mari Alkatiri e financiar as despesas com a sua defesa.

E que dizer de Xanana Gusmão? Foi um bom guerrilheiro e é um mau presidente. Cada século não produz mais que um Nelson Mandela. Ao ameaçar renunciar, criou um cenário de golpe de Estado constitucional, um atentado direto à democracia por que tanto lutou. Um homem doente e mal aconselhado, que agora corre o risco de hipotecar o crédito que ainda tem junto do povo para abrir caminho a um processo que acabará por destruí-lo.

Timor não é o Haiti dos australianos, mas, se o vier a ser, a culpa não será dos timorenses. Uma coisa parece certa, Timor é a primeira vítima da nova guerra fria, apenas emergente, entre os EUA e a China. O sofrimento vai continuar.




Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

publicado por jambros às 04:31
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Domingo, 16 de Julho de 2006

DE “FIGA CANHOTA” À "JOVALE": CONJUNTOS “PATCHARI”

FIGA CANHOTA - JOVALE.jpg
Paris 1994 - Da esq. p/ a dir. Valdir Medina, Leopoldo Amado, Maximiano Pontes e João Mota

Na passagem da década de “60” para “70”, em plena época colonial, já Cobiana Djazz, por impulso sobretudo do José Carlos Schwarz, emergira como primeiro grupo de música moderna da Guiné-Bissau, não obstante serem conhecidos alguns elementos como o Ernesto Dabó que, sensivelmente na mesma época, já era o vocalista principal dos “Náuticos”, um grupo musical da marinha portuguesa maS que já apresentava um e outro tema em crioulo da Guiné.

Do Cobiana Djazz, para além de músicas em crioulo, destacava-se ainda a intensa actividade política dos seus elementos, nomeadamente a do próprio José Carlos Schwarz, mas também de Aliu Bari, Armando Salvaterra, Duco Castro Fernandes e outros. Aliás, o próprio repertório do Cobiana Djazz, não obstante a beleza estética das canções era também um repositório velado de protestos e de acções consciencialização política, pelo que este grupo se tornou famosíssimo tanto pelas músicas que ia gravando nos estúdios da rádio, em que subrepticiamente desafiva as autoridades coloniais, mas igualmente pelo facto de alguns dos seus elementos mais proeminentes terem ousado opor-se corajosamente ao colonialismo português na Guiné, tendo por isso sido presos e condenados pela PIDE ao degredo na Colónia Penal das Ilhas das Galinhas. Foram os casos, entre outros, do José Carlos Schwarz (vocalista e viola solo e acompanhamento) e Aliu Bari (também compositor, vocalista e viola acompanhamento).

Figa Canhota 4.jpg
Paris/94 - Da esq. p/ a dir. Maio, Valdir, João e esposa e Leopoldo Amado

Já na década de “70”, ainda nos derradeiros anos da época colonial, outros grupos viriam a surgir sob a directa influência do Cobiana Djazz, embora seja também possível identificar razões apenas bucólica ou académica nas motivações subjacentes a criação de alguns conjuntos, como sejam os casos dos conjuntos Juventude 71, Capas Negras, N´Kassa Kobra, Mama Djombo ou o Caboiara 7.

No entanto, outros conjuntos que emergiram na altura, contribuiram também para vulgarizar o panorama musical e moderno da Guiné-Bissau, como foram os casos de Nô Pinctcha (liderado por Dicson nas hostes do PAIGC), Tenan Koia e Chave de Ouro e Issabary, liderado na altura por João Dantas na zona de "Caracol" (não confundir com o grupo Issabary que na década de "80" fez furor em Portugal). Desta segunda vaga destacaram-se nessa altura músicos como Maney (viola solo da Juventude 71), Malam (Mama Djombo), Tundu (Mama Djombo),César Lopes (vocalista da Juventude 71), Caló Cardoso (tumbista dos Capas Negras), Sidónio Pais (vocalista dos Capas Negras), Gonçalo (contra-solista dos N' Kassa Kobra), Tchico Karuca (Mama Djombo, já falecido), Ramiro Naka (viola ritmo dos N' Kassa Kobra), Rui Dayves (baterista do Cobiana Djaz, também já falecido), Zeca Garcia (vocalista do Chave de Ouro e depois N’Kassa Kobra ejá em Lisboa dos Sabá Miniamba), Perdigão (viola baixo do Cobiana Djaz), Armando (tumbista do Nô Pintcha recriado depois da luta e depois do Mama Djombo), Néné Tuti (vocalista do N’ Kassa Kobra) e Bocar Djaló (Chave de Ouro, Tenan Koia e depois N’ Kassa Kobra). Do Nô Pincha recriado, eram ainda nomes sonantes o João Carlos (voz) Sene (Voz), Zizi (viola baixo) e mais tarde o vocalista Jaime (Kurpo cinho).

Assinale-se ainda o facto de ainda na década de “70” e princípios de "80" alguns conjuntos terem também dado na diáspora uma enorme contribuição para a consolidação da incipiente a musica moderna guineense. Foi caso do conjunto Djorson (essencialmente constituído pelos irmãos Castro Fernandes e Ernesto Dabó) que editou ainda em 76 ou 77 em lindo single em vinil, com sugestivas músicas em crioulo que fizeram toda uma época. Foi igualmente o caso do conjunto SABÁ MINIAMBA em Portugal, que se formou sobretudo com base nos elementos dos ex-Capas Negras que se deslocaram ao estrangeiro a fim de prosseguirem os estudos universitários, destacando-se, entre estes, Jorge Medina (já falecido), Sidónio Pais e Sanfa (vulgo Djon Quartel). Deveu-se a dois ou três LP’s editados por SABÀ MINIAMBA em Portugal uma maior divulgação e conhecimento cultural da Guiné-Bissau no além fronteiras. Identica amplitude tiveram alguns êxitos discográficos do conjunto N’ Kassa Kobra que, após uma tournée a Lisboa, decidiu primeiro deixar-se estar em Portugal e depois em França. Na década de "80", o grupo musical Issabary, constituido por Nununo, Dalau, Juca Delgado e Guto Pires engossaram ainda mais os esforços de divulgação da música guineense no estrangeiro.

Voltando a Guiné-Bissau, registe-se que, no entanto, o frenesim dos conjuntos não parou. Com a organização por parte da Direcção Geral da Cultura de acirrados e concorridos festivais no Estádio “Lino Correia”, assistiu-se doravante a uma verdadeira febre de agrupamentos musicais (conjuntos “patchari”, dir-se-ia em crioulo). Era, digamos assim, uma terceira vaga da emergência de grupos musicais que, entretanto, co-existiam e até rivalizavam com os mais antigos. É a altura dos Pó Ferro, Lacarães, onjunto do Banco Nacional (embrião do actual Tabanca Djazz), Jovens de Lolo (Bairro d’ Ajuda), Nô Pintcha, Juventude Cobornel (Bairro d’ Ajuda), N’Baranço, Figa Canhota, Dama Djazz, N’ Tiba C…, Esperança de África (Canchungo), Tchifri Preto, Bolama Ritmo (Bolama), Dokolma, Dama Djazz (Bula) e vários outros pequenos agrupamentos que se criavam com a mesma velocidade com que se extinguiam. Uma nota merece o caso dos irmãos Costa (Nelson e Manecas) que, ainda crianças nessa altura, eram no entanto já tidos como promessas de futuro.

Eu (viola ritmo), o Maximiano Pontes (viola baixo), João Mota (viola solo), José Luís (voz), António Carlos (voz), Valdir Medina (tumba), Luizinho Habibe (bateria) e o Hélder, criamos o grupo FIGA CANHOTA, sensivelmente por volta de 1976/77. Basicamente, os grupos musicais eram criados com base em afinidades bairristas, mas no caso de FIGA CANHOTA, éramos de diversa proveniência: eu e António Carlos éramos do Bairro d’ Ajuda; João Mota e José Luís (Homi) do Bairro de Belém; Maximiano Pontes de Bissau Novo (em cuja casa ensaiávamos), Luizinho Habibe da zona do Alto Crim e Valdir Medina de Mindará. Lembro-me que há menos de 150 metros da casa do Maxi, nosso local de ensaio, existia também um conjunto musical cujo nome não me lembro, apesar de ter presente que nesse conjunto estavam, entre outros, Beto Tavares, Zito e Maio Copê.

Entretanto, no Bairro de Ajuda, para além dos conjuntos já existentes como Juventude Cobornel (constituido, entre outros por Estevão, Beto e Zizi) e Jovens de Lolo (constituido, entre outros, por Herculado, Nununo, Beto Badiu e Juca Delgado) estava também na forja um grupo que nunca chegou propriamente a constituir-se em conjunto, mas de que faziam parte Justino Delgado e Agostinho Capatchita. Lembro perfeitamente desses dois quando fui procurado por um pelotão de adolescentes (ainda quase crianças) porque propunham constituir-se em conjunto, quando decidi submete-los a um teste prévio. Após Agostinho Capatchita ter passado no teste como viola solo do grupo, lembro como hoje que o Justino Delgado cantarolou uma música de sua autoria (“Dugudé camba mar”) com que igualmente passou no meu teste, mas que me fez rir de morte. Os restantes "chumbaram", razão porque os aconselhei a procurarem outros elementos. Desse episódio, curiosamente, tanto eu como o Capatchita e o próprio Justino nos lembramos.

No grupo FIGA CANHOTA, ensaiámos religiosamente cerca de quatro anos e, ano após ano, alimentávamos pacientemente a esperança de havia de chegar a nossa vez de mostrar ao grande público o que valíamos. A nossa primeira oportunidade surgiu em 1978, num fim-de-semana para que fomos convidados a tocar em Bula, onde deveríamos aproveitar o intervalo da actuação de um conjunto qualquer para também brilharmos. Como seria a nossa estreia pública, saímos de Bissau carregados de um misto de imensa ansiedade e confiança, tanto mais que tínhamos uma excelente sintonia e domínio técnico-musical, apesar de ainda não termos experimentado material acústico eléctrico.

Porém, quase em cima da hora da actuação no Clube de Bula, fomos inesperadamente informados que o Comandante local das FARP tinha acabado de proibir qualquer tocata. Inclusivamente, vários militares presentes no local, ordenaram a dispersão da populaça aí apinhada. Mas nós que já tínhamos angariado alguma fama (os elementos dos conjuntos, de qualquer conjunto, angariavam facilmente fama), não tivemos meias medidas. Fomos passear com as nossas fãs e, cruzando-nos com uma patrulha das FARP no escuro como breu, fomos presos e entregues aos mosquitos ao relento, além de termos sido obrigados a correr voltas e voltas num pequeno campo de futebol de 5 até amanhecer.

Não tivesse sido a pronta intervenção do velho Belmiro (respeitado comerciante de Bula e tio de José Luís) a quem ficamos a dever a nossa libertação, teríamos sido submetidos ao “Apollo” (perdurar-nos com cordas com a cabeça ao avesso a fim de sermos açoitados) ou obrigarem-nos a carregar com gigantescos pneus, aliás, ameaças essas que nos foram proferidas durante toda a noite, de resto, excessos e práticas muito em voga nos períodos imediatamente seguintes a assumpção do poder pelo PAIGC na Guiné-Bissau.

De diabrura em diabrura, para além da actividade estritamente musical, divertíamos à brava com o FIGA CANHOTA. De quando em vez, acabávamos com o conjunto quando alguém resolvia zangar-se ou quando dois ou mais elementos se punham à bulha. Porém, rapidamente o espírito de grupo se recompunha e, o mais temível e o mais velho de todos – Maximiano Pontes – volta e meia, distribuía invariavelmente os mesmos palavrões (“vigaristas!”) para chamar à razão os faltosos.

figa canhota.jpg
símbolo do Conjunto FIGA CANHOTA

Porém, apesar do rigoroso ambiente de disciplina em que ensaiávamos, no campo estritamente musical, parecia que os azares nunca se distanciaram de nós. Certa vez, alguns elementos dos N’Kassa Kobra que, à viva força, queriam testar as capacidades do FIGA CANHOTA, convidaram-nos a uma digressão sua à Bolama. Lá fomos em peso. Após impaciente espera do intervalo da actuação do N’ Kassa Kobra, cuja fama atingia naquela época o seu ponto mais alto, anunciou-se enfim ao público que "um grande e desconhecido conjunto – os FIGA CANHOTA! – iria subir ao palco".

A gabarolice do elemento do N’ Kassa Kobra em relação a nós (creio que foi Badjunco Ferro) foi tanta a ponto de darmos connosco, em pleno palco, a tremer de medo e completamente dessincronizados, logo nós que havíamos criado imensa expectativa. Na realidade, era a nossa estreia em público e em instrumentos musicais eléctricos, pelo que nesse dia, nem nada nem ninguém nos valeu, nem mesmo a sorte que às vezes protege os audazes e muito menos os palavrões (“vigarista!”) com que Maximiano Pontes censurava permanentemente a arritmia do Luizinho Habibe na bateria.

Completamente atrapalhados e a discutir no palco uns com os outros, não tardou muito que tivéssemos sido vaiados, apupados e quase que compulsivamente corridos, tendo mesmo alguém gritado do fundo da sala: “Não, bô bai lá, bô FIGA CANHOTA!”. Assim foi a nossa estreia e, escusado será dizer que passamos o resto do final de semana em Bolama a proferir acusações mútuas que quase iam dando cabo do FIGA CANHOTA. Contudo, valeu-nos um pouco a disponibilidade de Ansumane "Apertas" que, substituindo Luizinho Habibe, permitiu-nos salvar a face, com os três ou quatro derradeiros temas que apresentamos.


Naqueles tempos (tínhamos uma média de idades a volta dos 16/17 anos), atente-se também no facto de muitos de nós escrevermos poesia – sobretudo influenciados pela febre literária que também se apoderou dos jovens no período imediatamente após a independência. De dentro de FIGA CANHOTA, João Mota, Valdir Medina e eu, criamos em 1979 o grupo literário JOVALE, cuja composição corresponde justamente as duas primeiras letras dos nossos nomes: JO (João Mota), VA (Valdir Medina) e LE (Leopoldo Amado). Reuníamos regularmente em casa do João Mota que, entretanto, mudara para Chão de Papel, onde declamávamos os poemas que trazíamos e corrigíamos a forma e o conteúdo.

FIGA CANHOTA 3.jpg
Paris/94 - O casal Valdir Medina e Lete Moura, na festa de minha despedida. À dir. ao fundo vê-se Sidónio Pais e Alice Évora

Na realidade, JOVALE teve existência efémera, mas ainda assim tivemos tempo de passar para um caderno os nossos poemas, com a linda caligrafia de João Mota. Esse caderno que ficou à minha guarda, curiosamente, resistiu a todas as intempéries possíveis e imaginárias. Deixei-o em Bissau antes de vir estudar em Lisboa em 1980 e, quando regressei a Bissau em 1989, encontrei-o entre os livros que o meu pai me deixara como recordação. Como saí de Bissau uma semana antes da eclosão da guerra civil que fustigou a Guiné-Bissau em 1998, deixei para trás o Caderno-Relíquia. Recuperei-o depois do final do chamado conflito político-militar, atafulhado por entre os escombros de uma parte da minha casa, severamente atingida por uma bomba.

Cadernos JOVALE.jpg
Um aspecto do Caderno-Relíquia, já amarelecido pelo tempo...

Curioso é também o facto de termos convido de que no nosso Caderno-Relíquia todos éramos autores de tudo, tanto é assim que secundava sempre os poemas ali estampados a assinatura "JOVALE". Foi uma fase interessante, tanto mais que vários poemas constantes desse caderno foram depois musicados, ora por nós ora por nossas namoradas (Lete, Rucal e Ete), nomeadamente os poemas "Mimada Mimosa", de minha autoria, mas musicado pela Rucal, "Pr'a ti Lety", escrito por Valdir Medina e musicado pela Lete e "Sintido Cabalido", escrito e musicado por João Mota e a Ete.

Vivíamos, é certo, a fase de ouro mais romântica da nossa adolescência, embora a mesma já piscava o olho à uma juventude mais madura. É justamente isso que deixam transparecer esses poemas, aliás, razão porque coloco seguidamente alguns poemas, apenas como amostragem, pois RECORDAR É VIVER! – diz-se e com razão.

MEU VIOLÃO PROCURA, Por João Mota

Figa Canhota 5.jpg
Paris/1994 - João Mota, o quarto a contar da esq. Ainda da esq. p/ a dir. Maximiano, Valdir e Leopoldo

Dedos pequenos
Dedos com vontade
Correm todo o braço
Saltitando nas escalas

O som suave vibra
A presença de algo rindo
As cordas parecem contentes
E gemem com mais força

Ah! Se eu faço
Dó e Lá seguido de Sol
Que linda melodia
Meu violão descobre

Agora vou escrevendo
Riscando um simples composto
Cujo titulo será:
VIDA E LUTA

JOVALE (João Mota)

MIMADA MIMOSA, por Leopoldo Amado

Leopoldo Amado.jpg
Leopoldo Amado

Pa bô mimosa
És nha n'godo sêdo
Nha quinti sangue di manpassada
Ma bu frieza e suma
Bas di puti ku lacaran na pera

Nim si tchuba de pedras na cai
Nim si maus bocas na papia
Nim si turbada rebenta
Bardadi ca na sucundi

Na bô mimosa mimada
Fiança na amanhã sinta
Na cambança cu bu na rema
Fidjos de fluris na patchari

Aonti passa
Aós tem di sel
Amanhã na bim
Ma tempo na dá tempo tempo
Pa dentro di tempo
Tempo decidi nô amanhã

Pabia mundo
E canua
Na urdumunho de mar
E turpeça ku um pé de firma

JOVALE (Leopoldo Amado)

PR’ A TI LETY, por Valdir Medina

Lete e Didi.jpg
Valdir e Lety

Quando rosas belas eu te der
Jamais temerei o Inverno doloroso
Sonharei contigo para sempre
Cantarei para ti – sem me cansar

Pr’a ti Lety
Como saudar-te?
Como evocar-te?
Na longa e negra caminhada
Pelo vento de mulher querida minha

Entre as mil setas que me cravam
Em cordas que me suspendem
Que a tempestade não amaine
Pr’a que nenhuma rocha vacile

Flores-rosas para ti não faltam
Quando em direcção a Offir-mãe
E a terras que amadureceram caminharmos

Em cada passo do meu andar – não só meu
Vai para ti – não só para ti
Mas para um céu sem nuvens
E para ti
Um beijo tenro do meu coração em chamas

Quando com vontade te amar
A noite estará no fundo dos mares
Nossos dorsos colados farão história
Para que possa um dia cantar e dizer:
Vivi um dia e vivo sempre!

JOVALE (Valdir Medina)


Em 1994, estando eu de passagem por Paris a caminho de Bordéus, foi organizado, por iniciativa de Maximiano Pontes (a viver actualmente em Paris), um encontro com os restantes elementos do ex-FIGA CANHOTA que também viviam e ainda aí vivem. Nesse encontro a que estiveram presentes João Mota, Valdir Medina, Maximiano Pontes e eu próprio, evocamos e rimos à farta com os dois "desaires" que constituíram a estreia do FIGA CANHOTA. Também convivemos largamente e ainda pegamos das violas e relembramos os velhos tempos. Curiosamente, nada esquecemos. Tocamos e cantamos quase todos os temas dos FIGA CANHOTA, como se ensaiássemos ininterruptamente desde a fundação do nosso ex-conjunto àquele dia. Valeu à pena, pois o que por porventura faltou de brilho nos 4 anos que ensaíamos iingénua e compulsivamente, alimentando quimeras e fantansias próprias da adolescência, compensou-o largamente a viva memória que todos ndelevelmente guardamos desses bons velhos tempos que, de tão bons, infelizmente, já não voltam pr'a trás.

FIGA CANHOTA 2.jpg
Paris/94- Da esq. p/ a dir. Leopoldo Amado, Lete Moura, Valdir Medina, Sãozinha e Maxiano Pontes

Quanto ao grupo JOVALE, dei a notícia ao Valdir Medina e ao João Mota da existência do nosso Caderno-Relíquia. Assim, aqui fica a promessa de ir publicando neste espaço os fragmentos do JOVALE, pelos vistos, nosso tenro e eterno Caderno-Reliquia de Poesia, cujas cópias providenciarei brevemente para que cheguem a boas mãos em Paris. Mas irei publica-los fielmente e de forma faseada, com tudo quanto representam de maturidade ou de falta dela, próprio, portanto, de jovens que nem de perto tinham vinte anos, mas que procuravam de alguma maneira exorcisar o muro do seu enclausuramento existencial e, por isso, talvez ingenuamente, já se armavam em “poetas patetas”, como dizíamos a brincar.

Leopoldo Amado






publicado por jambros às 03:05
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Sábado, 15 de Julho de 2006

Um sobrevoo sobre Bolama e sobre a Guiné-Bissau (com imagens de satélites)!

Bolama 1.jpg
Cidade de Bolama - captada e gravada por mim hoje a partir de satélite

Já me constava que existem sites na internet que nos permitem, com recurso a novas tecnologias, fazer voos rasantes sobre qualquer ponto do planeta. Experimentei sobrevoar a Guiné-Bissau e vi de facto imagens únicas captadas por satélites. Como não podia deixar de ser, sobrevoei Bolama e reconheci um a um os seus lindos edifícios e ainda as ruas e ruelas que na infância palmilhávamos de lés a lés (é possível fazer-se o zoom).

De relance, sobrevoei Bissau, Luanda, Lisboa e Maputo. Assim, para além de informações topográficas (rede viária, itinerários, etc.), esta tecnologia permite ainda, entre outras maravilhas, que sejamos nós próprios a construir (e gravar) os mapas que quisermos, consoante as aplicações para as quais os queremos utilizar. Só faltou neste meu sobrevoo inaugural o elemento humano. Mas creio não tardar muito.

Que maravilha, heim? Vá já ao Google Earth no endereço seguinte: http://earth.google.com/

Leopoldo Amado


publicado por jambros às 21:04
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Mesa redonda com doadores a 7 e 8 de Novembro, em Genebra

mesa redonda.jpg

A mesa-redonda sobre a Guiné- Bissau na qual o país espera obter
cerca de 600 milhões de dólares (471 milhões de euros) vai decorrer a
07 e 08 de Novembro próximo, em Genebra, Suiça, anunciou hoje o
primeiro- ministro guineense.

Projectada e muitas vezes adiada desde finais de 2003, a mesa-redonda
é tida como "última tábua de salvação" para a captação de fundos
adicionais para o relançamento da economia e desenvolvimento da Guiné-
Bissau, conforme hoje sublinhou o próprio primeiro-ministro,
Aristides Gomes.

O chefe do executivo de Bissau anunciou a data da mesa-redonda
durante um seminário que decorre em Bissau para a validação do
Documento de Estratégia Nacional para a Redução da Pobreza (Denarp).

Afirmando-se confiante na data, Aristides Gomes pediu à classe
politica guineense que ajude o país no sentido de evitar convulsões
ou situações de conflitualidade que possam perigar a mesa-redonda.

"Esperamos que a paz reine e a tranquilidade seja uma realidade para
que nada aconteça no sentido de perturbar a realização da mesa-
redonda na data marcada", exortou Aristides Gomes.

Segundo o chefe do governo de Bissau, até Novembro, o país terá todos
os documentos necessários para apresentar aos doadores, a começar
pelo Denarp, documento que congrega quatro eixos de acção para o
combate à pobreza que em certos casos é considerada de extrema na
Guiné-Bissau e o documento orientador do programa de reforma à nível
das Forças de Defesa e Segurança.

O Denarp custará 400 milhões de dólares enquanto o programa de
reforma nas Forças de Defesa e Segurança 200 milhões.

O governo de Bissau adoptou, em 2004, o Denarp como modelo orientador
para todas as acções de combate ou redução da pobreza no país,
contando que qualquer recurso financeiro proveniente do financiamento
externo terá que ser canalizado para estratégia.

De acordo com fonte do Ministério da Economia guineense, que controla
o sector do planeamento e coordenação das ajudas externas, desde 1998
que a Guiné-Bissau deixou de executar Programas de Investimento
Público (PIP).

A mesa-redonda seria o cenário para alterar esse quadro. Os fundos a
mobilizar no encontro seriam canalizados para programas de redução da
pobreza, construção de infra- estruturas, as reformas na
administração pública e relançamento da actividade económica,
interrompida com a guerra civil de 1998/99.

Enaltecendo a importância do Denarp para o futuro imediato da Guiné-
Bissau, o primeiro-ministro e o ministro da Economia, Issuf Sanhá,
sublinharam a determinação do governo em realizar uma série de acções
que vão transformar num sucesso a mesa-redonda de Novembro.

Para já, os dois governantes apontaram como meta urgente a aprovação
do Orçamento Geral de Estado (OGE) para 2006, ainda envolto em
polémica no parlamento, a que se junta a criação de um ambiente
favorável ao negócio, sobretudo, de capital estrangeiro, e o combate
à corrupção.

Noticias Lusofonas
11-Jul-2006




publicado por jambros às 11:37
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Quinta-feira, 6 de Julho de 2006

...

Novo livro de René Pélissier

"Angola, Guinées, Mozambique, Sahara, Timor, etc. - Une Bibliographie Internationale Critique (1990-2005)" é o título da obra do historiador francês René Pélissier, recentemente publicada pelas Editions Pélissier. Trata-se de um conjunto de guias de leitura dedicados a 7 países resultado da descolonização portuguesa e espanhola em África, incluindo ainda Timor-Leste.
Reunindo 1712 comentários sobre livros publicados em 18 línguas e em 52 países, a bibliografia engloba principalmente os temas da guerra, problemas sócio-políticos, história e economia de Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique, Goa, Macau, Sahara, Guiné Equatorial e Timor-Leste.

Pelissier inclui uma recensão sobre "Madre Cacau - Timor" (de Pedro Rosa Mendes e Alain Corbel, num projecto da ACEP), que define como "um livro de arte e de actualidades que penso ser o mais importante, em português, depois dos acontecimentos de 1999".
publicado por jambros às 14:02
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