Sexta-feira, 17 de Março de 2006

Expo-África Século XXI - Uma concepção de João de Barros

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NOTA: O post seguinte é o resumo que fizemos de apenas uma parte do dossier/Projecto "Expo-África Século XXI" que o autor, João de Barros, amavelmente nos cedeu em Bissau em jeito de apresentação, em Dezembro do ano transacto, pelo que o texto que se segue não vincula grandemente o autor. Por se tratar de um assunto/tema/Projecto que reputo de sumamente importante – e que considero dever ser alvo de uma ampla e séria auscultação pública – tomei a liberdade de aqui divulga-lo em “miniatura” – obviamente, com a permissão prévia do autor, recorrendo-nos, sobretudo, por razões óbvias, aos aspectos mais descritivos que técnicos, no intuito alguma maneira dar a conhecer os seus contornos e igualmente auscultar opiniões e/ou sensibilidades sobre o mesmo. Hei-lo, portanto, e a nossa opinião, dar-la-emos proximamente, na medida em que apesar do texto que se segue ter sido escrito por nós, também não nos vincula, necessariamente.

João de Barros – actual Secretário de Estado da Comunicação Social da Guiné-Bissau –, vem aprimorando e ultimando a concepção de um Projecto de realização de uma exposição denominada "Expo-África Século XXI". À semelhança das várias exposições internacionais que já vêm sendo realizadas desde o século XIX nos epicentros da modernidade (Londres, Paris, Chicago, entre outras) –, ressalta o objectivo primordial de, por um lado, fazer jus a dupla necessidade de preservação dos valores tradicionais próprios e simultaneamente, por outro, aos imperativos da modernização, segundo a racionalidade e o conceito radicado na convicção de que o conhecimento humano é transnacional.

Assim como a Torre Eiffel, o Palácio de cristal e a Roda gigante mantiveram-se no imaginário colectivo como símbolos visíveis do avanço tecnológico exibido nas mais diversas exposições, a "Expo-África Século XXI" pretende mostrar e ensinar as virtudes do tempo presente e confirmar a previsão de um futuro promissor, quer pela via da salvaguarda dos valores tradicionais e culturais, quer pela amostragem do mundo moderno e avançado em que vivemos, desdobrando-se a mesma em espectáculos nos campos da ciência, das artes, da arquitectura, dos costumes e da tecnologia.

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Um pormenor do Projecto "Expo África Século XXI"

É escusado dizer-se que, tal como as outras grandes exposições mundiais, João de Barros certamente ponderou igualmente a possibilidade de a "Expo-África Século XXI" apresentar-se como um símbolo material imprescindível ao reforço do sentido da Nação e da reconciliação que se impõe entre os guineenses, mas também uma oportunidade para exorcizarmos a generalizada sensação de decadência moral, de degeneração do espírito, de enfraquecimento intelectual e, consequentemente, a necessidade de se conferir um novo Élan as virtualidades latentes da Guiné-Bissau e dos guineenses, de modo a que, sem perdermos de vista a necessidade de preservação dos fundamentos do nosso substracto cultural e societal, possamos também acertar o passo com o mundo moderno.

Segundo a proposta de João de Barros, o palco da "Expo-África Século XXI" (exposição que se pretende Universal e Pan-Africana e em que todos os países africanos e organizações internacionais, de parcerias africanas, estarão igualmente representadas ) será a Vila de João Landim, “janela aberta ao encanto da Natureza, cultura universal e moderna, e a uma vida saudável com produtos naturais de excelente qualidade”, localidade que será um pólo de Desenvolvimento Regional que projectará a visibilidade internacional da Guiné-Bissau, na medida em que a concepção da “Expo-África Século XXI” assenta igualmente no compromisso da Nova Parceria para o Desenvolvimento Africano (NEPAD).

Serão ali construídas, de raiz, infraestruturas que orçarão cerca de 800 milhões de dólares americanos, prevendo-se, segundo o autor do Projecto, que a exposição venha a ter lugar nos finais da presente década, a qual acolherá ainda convidados guineenses (do país e da diáspora) e individualidades de mérito inquestionável e mundialmente consagrados nas mais diversas áreas, a saber: política, ciência, tecnologia, empresariado, artes e letras, e outros, a fim de proferirem colóquios, conferencias e/ou palestras em vários domínios, com destaque para as áreas que, entre outras, interessem particularmente a Guiné-Bissau, quais sejam:

- A problemática da paz e do desenvolvimento do continente africano;
- Questões universais, tais como: soberania alimentar, a água como um bem comum;
- Desmilitarização dos povos africanos;
- Educação para a democracia e o direito ao desenvolvimento;
- A luta contra a desertificação e os perigos sobre-exploração dos recursos naturais;
- A escravatura;
- Pandemias e as doenças modernas;
- A fome no mundo;
- Os limites da responsabilidade Estatal;
- O VIH-SIDA e outras novas doenças e epidemias;
- Responsabilidades sociais das empresas;
- Democratização das tecnologias de comunicação e informação;
- As novas formas do racismo, e da violência;
- A diversidade cultural num mundo em profunda globalização
- O Direito Internacional e os desafios sociais do Milénio.

À semelhança da multiplicidade de opiniões dissonantes que, no respeitante ao Projecto de construção da torre metálica de 160 metros, de autoria de Gustave Eiffel, dividiram na altura a fina flor da intelectualidade francesa no século XIX, antevê-se igualmente que na Guiné-Bissau a “Expo África Século XXI” possa suscitar acesa polémica e até dividir opiniões relativamente a este Projecto de autoria de Arquitecto João de Barros, salvaguardadas embora as devidas proporções, contextos, nuances e motivações diferenciadas entre um e outro Projecto.

Temos pois para nós que, apesar da magnitude dos nossos problemas mais elementares e da nossa pretensa pequenez territorial e espiritual e a pobreza, é salutar que ousemos sonhar e ousemos vencer, desde que sobre uma base e postulados que assentem equilibradamente na nossa determinação de também dasafiar os limites do nosso enclausuramento existencial, pelo que importa essencialmente que o Projecto de João de Barros possa suscitar um sério e multidisciplinar debate sobre a sua viabilidade, na medida em que, independentemente das probalidades de sua implementação ou não ou dos efeitos colaterais que o mesmo possa engendrar (certa e eventualmente positivos ou supostamente perniciosos), os debates que sobre ele recairão jamais se apresentarão como simples exercícios de espírito – assim espero – pois comprometem a seu modo o futuro.

Oxalá a "Expo África Século XXI", após tanta polémica possa, à semelhança do sucesso granjeado em 1879 por Gustave Eiffel, apresentar-se como uma esperança para a Guiné-Bissau e os guineenses, tanto mais que João de Barros está disso convicto, na medida em que a Expo África, segundo o próprio, apresenta também acrescidas e importantes vantagens económicas (incremento de postos de trabalho, requalificação urbananística e ambiental), para além de inovações importantes em matéria de lazer, desporto, turismo e outros sectores.


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Sexta-feira, 10 de Março de 2006

Guiné-Bissau estará presente na IVª Assembleia da World Movement for Democracy

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Sob o lema “Para uma democracia avançada: Justiça, Pluralismo e Participação” terá lugar em Istambul, Turquia ( Lütfi Kirdar Convenção & Centro de Exibição de Istambul) entre os dias 2 à 5 de Abril do corrente ano, a IVª Assembleia da Word Movement for Democracy (Movimento Mundial para a Democracia).

A IVª Assembleia reunirá mais de 500 activistas de democracia de todo o mundo a fim de propiciarem um espírito de aprendizagem de valores democráticos e das diversas experiências susceptíveis de fortalecer o Movimento Mundial como uma rede de solidariedade, de permuta e cooperação.

Os participantes (que só poderão tomar parte nos trabalhos mediante convite expresso da WMD) contam-se entre os activistas da democracia, “unionistas” de comércio, estudiosos, “fazedores” de política e individualidades que, de uma ou outra maneira, pormovem a democracia no mundo.

A IVª Assembleia será composta principalmente de seminários de discussão para maximizar oportunidades de participação e permuta de ideias. No final dos trabalhos, não haverá nenhuma declaração ou resolução de política emitida pela Assembleia. Será também instalada uma “Feira de Democracia”, caracterizada por uma área de exibição, um centro de treino com recurso a novas tecnologias, um salão de exibição video e um “corredor da cidade”, no qual os participantes podem conversar e trocar experiências sobre as causas respectivas.

A IVª Assembleia contará com a presença de dois guineenses: Leopoldo Amado, Secretário Executivo da Guineáspora e membro do Management Committee da ADF (African Democracy Forum), qualidade essa em que em Fevereiro de 2004 já havia participado em Durban (África do Sul) na IIIª Assembleia e Jamel Handem, que participará pela primeira vez como dirigente da PLACOM, em representação das ONG’s e da sociedade civil da Guiné-Bissau.

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"Brasil não superou herança escravista", observa Carlos Lopes em entrevista

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Carlos Lopes

21/11/2005 - Ricardo Meirelles - Pnud

Negros continuam a amargar os piores indicadores sociais, observa Carlos Lopes, editor-chefe do relatório do PNUD sobre racismoO Brasil ainda não superou a herança escravista. Mais de um século após a abolição da escravidão, os negros continuam a amargar os piores indicadores sociais do país. “Fica claro que existe uma estabilidade na condição dos negros, que se mantém ao longo da história”, observa Carlos Lopes, editor-chefe do Relatório de Desenvolvimento Humano Brasil 2005 — Racismo, pobreza e violência, lançado pelo PNUD. Lopes foi representante do PNUD e da ONU no Brasil de junho de 2003 a outubro deste ano, período em que idealizou o relatório e coordenou sua elaboração. Este mês, assumiu o cargo de diretor político do Gabinete do secretário-geral da ONU, Kofi Annan. Seu novo trabalho em Nova York o impossibilitou de comparecer ao lançamento do estudo, na sexta-feira, no Capão Redondo, bairro da periferia de São Paulo. Em entrevista por e-mail à PrimaPagina, ele destacou que a atuação do PNUD Brasil no combate ao racismo não é recente. Nos últimos anos, porém, intensificou-se, em grande parte por estímulo do próprio Carlos Lopes, que é natural de Guiné Bissau e especialista em África. Leia abaixo os principais trechos da entrevista. Por que o PNUD escolheu racismo, pobreza e violência como o tema de seu relatório de desenvolvimento humano no Brasil?

Carlos Lopes — Faz alguns anos que o PNUD vem se interessando pelo aprofundamento do conhecimento socioeconômico da questão racial no Brasil. Os trabalhos lançados com o IPEA [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] e, mais recentemente, com a Fundação João Pinheiro, já tinham esse enfoque de desagregação do desenvolvimento humano e do IDH nas suas várias vertentes. A questão da violência é um interesse mais recente, provocado pela erosão das conquistas sociais devido a uma má gestão da segurança humana. Os números do Brasil impressionam, e a tendência da classe media é de apelar por mais repressão, redução da idade penal e criminalização da pobreza. Por essas razões, achamos importante combater as idéias de tolerância zero, que no Brasil teriam necessariamente um viés racial. Daí nasceu a idéia de conjugar a análise desses três pilares.

Na sua avaliação, qual a importância do relatório para os estudos sobre racismo no Brasil?

Carlos Lopes —Este relatório traz um conjunto de informações e análises que é pioneiro no Brasil. Tem também uma metodologia inovadora. O relatório tenta desmistificar, ao mesmo tempo em que problematiza, a questão do racismo no Brasil. Não deve agradar a muitos, porque rompe com muitos tabus. A partir deste relatório, vai ser muito mais difícil certos especialistas manterem sua linha de argumentação simplista.

O relatório mostra que a maioria dos negros brasileiros é pobre. Isso é apenas uma herança da escravidão ou indica a persistência do racismo na sociedade brasileira?

Carlos Lopes — Fica claro que existe uma estabilidade na condição dos negros, que se mantém ao longo da história. Por essa razão, pode-se dizer que a herança da escravidão ainda não desapareceu e que políticas de reparação são amplamente justificadas. O racismo à brasileira é um fato, mas também é um fato que ele tem na sua diferença mais perversidade do que vantagens.

O estudo do PNUD demonstra que os indicadores da população negra em algumas áreas da educação, como alfabetização e número de matrículas, vêm melhorando num ritmo superior ao da população branca. Por que isso ainda não se refletiu em renda, por exemplo? É só uma questão de tempo?

Carlos Lopes — Isso acontece em alguns indicadores de educação e saúde, não todos. E a progressão tem a ver com variantes demográficas e também é influenciada pela urbanização do Brasil. Ou seja, não é linear que ela tenha a ver com as políticas de universalização, como alguns se apressarão a concluir. Tem mais a ver com o fato de que por inércia da urbanização e acesso a determinados serviços e equipamentos existem melhorias ligeiras em alguns indicadores. Mas, mesmo assim, os pobres fora das zonas metropolitanas continuam a ser na grande maioria negros, com progresso mais lento nos indicadores sociais. O relatório aponta, em vários casos, a dificuldade de se obterem dados desagregados por raça. O sr.acha que isso também é um reflexo do racismo? Carlos Lopes — O Brasil tem um avanço enorme na desagregação, em relação a outros países da América Latina. Vamos pois celebrar o fato de que graças ao IBGE e outros produtores de estatística primaria já se podem fazer analises como as que aparecem no RDH. Dito isto, é evidente que não estamos ainda na situação ideal nem em relação à clareza dos processos classificatórios nem dos domínios cobertos por estatísticas desagregadas.

Alguns estudiosos — como Peter Fry, que tem um artigo no relatório do PNUD — afirmam que usar a divisão por raça nos levantamentos de dados é uma maneira de acirrar o racismo e, nesse sentido, de aprofundar o conflito racial. Como o sr. vê esse tipo de abordagem?

Carlos Lopes — Não se resolve o problema do racismo, que é uma construção sociopolítica, se não se debater a fundo o tema. Por isso, achamos importante que vozes que eventualmente são dissonantes dos nossos argumentos entrassem na discussão dentro do relatório. É o caso do Peter Fry, que acha às vezes que organismos como o nosso podem estar a importar uma forma de ver o problema. Discordo diplomaticamente. Mas o mais importante é reconhecer que existe descriminação, e isso o Peter afirma sem rodeios.

Se raça não existe, como deixa claro o sumário executivo do relatório, por que usar esse conceito em um censo populacional, por exemplo?

Carlos Lopes — Da mesma forma que se pode dizer que nação não existe, mas se usa o tempo todo. Conceitos puros muitas vezes não determinam o discurso. No caso de raça, ninguém tem dúvida de que não só está presente no discurso como serve de justificação pela negação: não há racismo, dizem muitos. Não dizem não há raça. Só por essa razão temos de devolver com uma análise da questão.

O PNUD usa, em alguns trechos do relatório, a palavra fenótipo em vez de raça ou cor. Por quê?

Carlos Lopes — Porque fenótipo é aparência, enquanto que tanto raça como cor querem indicar o mesmo, mas com palavras e termos carregados de conteúdo e história. Sempre que possível, devemos aliviar a análise para ir ao essencial, em vez de arrastarmos a carga que termos, como raça e cor têm. Mas, como explicamos no RDH, os processos classificativos, sejam voluntários ou não, são algo que não controlamos e que muitas vezes temos de usar porque a estatística, a coleta dos dados, foi feita com esses conceitos, termos, designações.

O relatório mostra que os negros são as principais vítimas da violência policial. Mas mostra também que a Polícia Militar tem, em sua base, uma grande proporção de negros. Por que isso acontece? Isso é um indício de que aumentar a participação de um grupo discriminado nas instituições de poder pode não significar que esse grupo receberá melhor tratamento?

Carlos Lopes — Na realidade, a ausência de negros nas mais variadas esferas do poder é mais do que conspícua. É antes uma demonstração da ausência de direitos políticos. O fato de estarem ausentes dos veículos principais de expressão da cidadania relega os negros para as margens da sociedade, e eles podem encontrar-se nos dois lados dessas margens: como repressores ou principais sofredores da violência.

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Segunda-feira, 6 de Março de 2006

Parabéns Zézinha!

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Se dissesse que a minha/nossa amiga Zézinha Costa completou hoje... anos de vida, não faltaria quem me censurasse, eventualmente por quebrar a praxe ou por simplesmente divulgar a idade ("as tchubas") de uma invulgar mulher de armas e bagagens. Não. Nada direi acerca da sua idade, mas não resisto em dizer-vos que se trata de uma mulher de um coração grande que há meio século, completados justamente hoje, vem distribuindo imenso amor, carinho e amizade aos seus familiares e amigos e à terra por que muito tem sofrido, sem que nada ou algo esperasse em troca.

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E porque viver com um coração grande é obra, sobretudo após meio século e tratando-se de alguém cuja exuberante alegria a todos contagia positivamente, aqui vai o nosso PARABÉNS A VOCÊ e, cumprindo a formalidade de não revelar as tuas "tchubas", também os meus/nossos desejos para que o dia de hoje se repita por muitos e longos anos de vida: com alegria; com paz; com amor; com um pouco mais dinheiro (que sempre ajuda); com a amizade imaculada com que nos habituastes; com amor e alento, fundados na esperança de melhores dias para ti, tua família e tua chorosa pátria.

Leopoldo Amado
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Sábado, 4 de Março de 2006

This is Our Beloved Country

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Sol, suor e o verde e mar,
Séculos de dor e esperança!
Esta é a terra dos nossos avós!
Fruto das nossas mãos,
Da flôr do nosso sangue:
Esta é a nossa pátria amada

Por Leopoldo Amado

Na Guiné-Bissau, enquanto o Presidente Nino Vieira anuncia reiteradas vezes a sua determinação em patrocinar uma Conferência de Reconciliação Nacional, a representação do Secretário Geral das Nações Unidas e alguns sectores representativos da sociedade civil (Grupo de boa-vontade, Grupo dos "Estados Gerais", etc) vêm desenvolvendo, discretamente, uma série de acções e debates (considerados urgentes e imprescindíveis) no sentido de influenciar a agenda da Paz, da Estabilidade e do Desenvolvimento. Porém, também temos para nós que este debate é urgente e imprescindível, apesar de um pouco redutor, por apenas considerar a dimensão da Paz, da Estabilidade e do Desenvolvimento, não englobando outros aspectos (mormente a dimensão cultural e ontológica) que igualmente conformam cumulativamente o que comummente se designa por "desígnio nacional".

Para mim, desígnio nacional é algo muito intimamente ligado à dignidade e ao interesse nacional: um imperativo transversal a toda sociedade guineense e que existe para lá dos partidos políticos e das querelas que opõe os vários grupos de interesse.

Ele relaciona-se com a necessidade de defesa de políticas que promovam o desenvolvimento e o progresso, portanto, algo que ninguém pode impor a outro em jeito de pensamento único e que, por isso mesmo, deve mobilizar o concurso e a participação de todos no debate sobre esse mesmo desígnio nacional, uma vez que ele é dinâmico, requerendo, por isso, uma constante actualização. Será necessário acrescentar que, com a humildade que convém – seja qual for a nossa função – no respeito dos outros, mas também com a firme intenção de participar na obra comum –, pertence a cada um de nós descobrir através do debate sério os valores a defender, de os aprofundar e de avaliar o seu impacto na nossa vida quotidiana.

É triste a constatação de que a currícula escolar dos diferentes níveis do nosso sistema de ensino não contemple nem aspectos relativos ao valor pátrio, nem o aprendizado das malhas históricas em que se forjou e emergiu a Nação guineense. Por isso, para nós, a missão fundamental do desígnio nacional é hoje, mais do que nunca, fornecer a cada pessoa os meios para o desenvolvimento de todo o seu potencial, para o exercício de uma liberdade autónoma, consciente, responsável e criativa, sobretudo agora que regressámos de guerras mais ou menos póstumas (guerra de libertação, conflito politico-militar, golpes palacianos, assassinatos de titulares de cargos públicos, etc) e das quais ninguém parece honrar-se, justamente porque o imprescindível desígnio nacional, que devia ter sido por todos considerado imperativo do nosso devir enquanto país e enquanto povo, vacilou, fraquejou ou mesmo desapareceu. É vital, por um lado, não ter a memória curta e, por outro, dar o passo decisivo.

Há que não descurar por mais tempo o consenso nacional indissociável da ideia de desígnio nacional. Ao nível do país, é ao Governo, aos intelectuais (não somente académicos e universitários), aos partidos políticos e a todas as autoridades responsáveis que incumbe a pesada responsabilidade: sensibilizar permanentemente a nação para a finalidade da sua acção, os objectivos a atingir e a estratégia a prosseguir, tarefa que, em regime democrático, constitui o primeiro dever dos detentores (directos e indirectos) do poder. Sem rodeios, sem subterfúgios nem desvios, com a franqueza de homens e mulheres fortes.

A Nação guineense, como comunidade cultural transpessoal que se pretende diferenciada num meio hostil, exige que o desígnio nacional e o Povo assumam a sua defesa e promoção, como garantia da realização do mesmo. Assim, esse desígnio nacional, decorrente dos valores que uma cadeia de gerações soube conservar e elaborar, garantia que significa segurança, isto é, a preservação da estabilidade e da independência desta comunidade que emergiu historicamente em Nação e assim pretende continuar, pelo menos aparentemente.

Por isso, para mim, desígnio nacional é também uma função determinante no prosseguimento da política de segurança, da política em geral, com vista à manutenção da integridade do Território, garantia da estabilidade e da independência nacional. Se no nosso país, o desígnio nacional e a Sociedade que o encarna deixarem de representar, para eles próprios e aos olhos do resto do mundo, um conjunto de valores dignos de ser salvaguardados; se a herança destes valores transmitida pelas gerações anteriores já não merece, ou não interessa, ser conservada e, consequentemente, legada às gerações vindouras, então porque não fazer um impasse na função "desígnio nacional", uma vez que parece vão, inútil e incomportável, fazer qualquer esforço num domínio caduco, de conteúdo exclusivamente histórico, reflexo baço de uma tradição ultrapassada? E mesmo que aquela herança permaneça como núcleo e fundamento do desígnio nacional, porquê sujeitar a Nação a tamanho sacrifício se não se adivinhar no horizonte qualquer ameaça susceptível de o ameaçar?

Se, porém, o conjunto do nosso povo preserva o direito ao respeito dos outros, o dever de proteger os interesses morais e materiais que lhe asseguram a liberdade e a escolha do seu destino no mundo, se, igualmente, é admitido que não será possível excluir a hipótese de perturbações de extensão local, regional ou mundial, e que subsistem, de tal modo evidentes, focos de conflitos, de perigos e de ameaças, então, haverá que concluir que o princípio do desígnio nacional mantém e manterá, no horizonte, toda a sua validade e actualidade.

O percurso de instabilidade política da Guiné-Bissau é disso um exemplo. Os conflitos recorrentes da nossa sociedade e a sua quase inevitável reincidência, apesar dos prodígios de valor dos militares e civis neles sacrificados, sem lucidez nem coragem, mais não fizeram que avivar, dolorosamente, as frustrações e contradições deste Povo paradoxal, cioso da sua independência, mas demasiado sensível aos ventos do desalento, numa atitude injustificada de falta de confiança nas suas virtualidades, uma atitude conducente a uma dependência excessiva e progressiva que, por diversificada, não deixa de ser dependência, nos domínios económico, técnico, militar, político, cultural e outros.

No conceito actual, desígnio nacional consiste na defesa preponderante como "ultima ratio" daquilo que nos é comum, que nos une e nos projecta para as malhas da estabilidade política, do progresso social e da interacção com o mundo globalizado. Os regimes e Governos caem sempre que não se mostram à altura das suas responsabilidades nessa matéria. Pelo contrário, a sua legitimidade confirma-se logo que se revelam aptos a assegurar a defesa e promoção do desígnio nacional. Aliás, os sucessivos Governos que a Guiné-Bissau teve desde a independência e que descuraram sobremaneira a promoção do desígnio nacional, são ou foram, na minha acepção, ilegítimos, pelo menos do ponto de vista ético. Moralmente, só o Governo legítimo é capaz de assegurar a defesa do desígnio nacional.

Contrariamente, a sua inexistência ou a sua existência ténue (o caso da Guiné-Bissau), potencia conflitos; torna a instabilidade mais perene e reincidente; desvirtua o sentido do querer colectivo; hipoteca as perspectivas do desenvolvimento e do progresso social; propicia a corrupção e o reforço da atmosfera deletéria de "salve-se quem puder", para além de reduzir ao infímo a imaginação, a energia e a capacidade criadoras, o que é o mesmo que obliterar a liberdade – factor imprescindível para que o desígnio nacional seja a "estrela polar" de um povo. Eis o que se me oferece comentar a propósito do "desígnio nacional", embora reconheça (não pode ser de outro modo) que a existência de outros conceitos a ele relativos seja salutar e até indispensável a uma melhor formatação do mesmo.

Para concluir, diria que o conceito do desígnio nacional não compadece, como vem sendo regra na Guiné-Bissau, com uma figura de fachada, de fraca densidade de conteúdo e incapaz de acção prática. Ele deve ser a mola que nos impulsiona, o ideal-tipo e o abanão que nos sacode dos atavismos vários em que nos encontramos rumo ao progresso social, mas também algo em que todos se reconhecem e nele participem, com vista ao seu melhor ajustamento correlativamente com os desafios e objectivos do país e da Nação, obviamente, com base no respeito pelas diferenças e pelas regras.

Lisboa, Março de 2005






publicado por jambros às 15:51
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Sexta-feira, 3 de Março de 2006

MÁRIO PINTO DE ANDRADE - Escritor e político angolano: 1928 - 1990

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Por Fernando Correia da Silva

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QUANDO TUDO ACONTECEU...

1928: A 21 de Agosto Mário Pinto de Andrade nasce no Ngolungo Alto (Angola). - 1929/1947: Estudos primário e secundário em Angola. - 1948: Viaja para Portugal; matricula-se no curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa. - 1949/52: Juntamente com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo, na Casa dos Estudantes do Império, no Clube Marítimo e no Centro de Estudos Africanos promove actividades culturais visando a redescoberta de África. - 1953: Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. - 1954: Vai viver em Paris. - 1955: Redactor da revista Présence Africaine, é também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros; acabará por se formar em Sociologia, na Sorbonne. - 1960: Com a prisão de Agostinho Neto pela PIDE, Mário assume a presidência do recém fundado MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE ANGOLA (MPLA); Mário como presidente e Viriato da Cruz como secretário-geral transferem a direcção do MPLA de Luanda para Conakry. - 1961: Após a independência do Congo Belga, Mário e Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville. - 1962: Mário entrega a presidência do MPLA a Agostinho Neto, que acabara de fugir de Portugal. - 1965/67: Mário coordena a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP). - 1973: É mandatado pelo Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA, para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral. - 1974: Mário, com o seu irmão Joaquim funda a “Revolta Activa”, corrente que se opõe à liderança de Agostinho Neto no MPLA, exigindo a democratização do regime; os dois irmãos Pinto de Andrade e outros militantes são muito perseguidos e têm que abandonar Angola. - 1976/8: Após a independência de Angola, Mário exila-se na Guiné-Bissau e ocupa o cargo de coordenador-geral do Conselho Nacional de Cultura. - 1978/80: Mário é o Ministro da Informação e Cultura da Guiné-Bissau. - 1980: Golpe de “Nino” Vieira na Guiné; Mário desloca-se para Cabo Verde. - Anos 80: Mário colabora na “História Geral da África” - 1990: A 26 de Agosto Mário falece em Londres.

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...
- A ver vamos se é mania ou intuição...

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NEGROS CALÇADOS

Ainda no Café Chiado pergunto ao Mário por que não fez curso superior em Angola e ele responde-me que em Angola não há cursos superiores, por isso veio para Portugal.

- Mas isso, ó Mário, deve custar um dinheirão...
- Não te esqueças que eu sou descendente de negros calçados.

Fico atordoado com a resposta.

- De um lado pés descalços, do outro negros calçados? É isso?
- Sim, Fernando, é mais ou menos isso. Mas calçados, antes de tudo, porque faziam o comércio de longa distância, desde o Ngolungo Alto até Luanda. Os Andrade acabaram por ir viver em Luanda, embora mantivessem sempre o comércio com Ngolungo Alto. Assim capitalizámos recursos, não só económicos, mas também culturais. Somos dos primeiros a ser alfabetizados pelos padres católicos. A propósito: o meu irmão Joaquim já decidiu estudar para padre. Sim, Fernando, somos uma burguesia mas também somos os representantes do primeiro nativismo angolano.

PRAÇA DAS FLORES

Em minha casa, no bairro Alvalade, em Lisboa, mostro ao Mário alguns dos poemas que tenho escrito. Ele declara gostar dos versos porque mantêm uma estrutura tradicional apesar de abordarem temas sociais e políticos. Contudo, aconselha-me a ler os poetas medievais portugueses (que eu mal conheço...). Digo-lhe que vou comprar uma antologia. Ele acha bem, mas antes convida-me a ir a sua casa e eu vou. A sua “casa” é um quartinho numa rua que desagua na Praça das Flores. E o Mário lê-me, interpretando com gestos largos, poemas do Rei Sancho I, de Juan Zorro, de Torneol, de Codax, de Meogo, de Charinho, do Rei Afonso X, do Rei D. Diniz. Praça das Flores? Seja! Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! Ai Deus, e u é?

Na minha vida o vento sopra sempre às avessas. Um africano (tinha que ser um africano?) é quem me ensina a palmilhar as veredas do Cancioneiro Medieval Português...

CASA DOS ESTUDANTES DO IMPÉRIO

Para mais facilmente vigiar os africanos que estudam em Lisboa, a ditadura salazarista funda uma associação: Casa dos Estudantes do Império. Tiro pela culatra! Assim concentrados, para os africanos mais evidentes se tornam as diferenças entre colonizadores e colonizados. Intervenções culturais, debates sucessivos, o nacionalismo negro a levantar fervura. Diz Amílcar Cabral, o guineense estudante de Agronomia:

- Vivo intensamente a vida e dela extraí experiências que me deram uma direcção, uma via que devo seguir, sejam quais forem as perdas pessoais que isso me ocasione. É necessário o regresso a África. Eis a razão de ser da minha vida.

Avança Agostinho Neto:

- É mais triste que espantoso que uma grande parte de nós, os chamados assimilados, não sabe falar ou entender qualquer das nossas línguas! E isto é tanto mais dramático quanto é certo que pais há que proíbem os filhos de falar a língua dos seus avós. É claro, quem conhece o ambiente social em que estes fenómenos se produzem e vê no dia a dia o desenvolvimento impiedoso do processo de “coisificação” não se admirará de tanta falta de coragem. Este desconhecimento das línguas que impede a aproximação do intelectual junto do povo cava um fosso bem profundo entre os grupos chamados assimilados e indígena.

E afirma o Mário Pinto de Andrade:

- Em contexto colonial, a assimilação traduz-se sempre na prática por uma destruturação social dos quadros negro-africanos e pela criação em número reduzido da elite assimilada. No caso português, a assimilação apresenta-se como uma receita (a única) que permite fazer sair o indígena, o negro-africano, das trevas da sua ignorância para entrar no santuário do saber. Uma forma da passagem do não-ser ao ser cultural, para empregar a linguagem de Hegel. O problema hoje é de saber como vai reagir o homem assimilado nessa situação artificial, parasitária de desenraizado. Como se vai afirmar? Fugindo do convívio com o indígena? Perdendo-se ao contacto com as luzes brilhantes da civilização? Aceitando e aprofundando a sua pseudo-condição de mestiço cultural?. Uma tarefa se impõe, a meu ver, no momento histórico que atravessamos, para responder justamente a essas interrogações, que é a de retomar, esquadrinhar no nosso passado as correntes de afirmação, da tomada de consciência, através de atitudes individuais e dos movimentos culturais que se foram desenvolvendo, diante do problema da cultura negro-africana e da assimilação. Concentrados, os africanos agora querem “redescobrir” a África que era deles e deles deixou de ser...

CENTRO DE ESTUDOS AFRICANOS

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Em 1953 Francisco José Tenreiro e Mário Pinto de Andrade organizam e editam um Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. Curiosamente, essa Caderno é dedicado a Nicolás Guillén. Porquê? Não tenho a certeza mas parece-me que foi por ter o cubano conseguido criar ritmos e sonoridades que infiltraram de negritude a língua castelhana. Portanto, bom exemplo para os africanos de língua portuguesa...

Ó Mário, entre os vários poemas reunidos no Caderno, escolho um teu em que se evidencia o drama do negro submetido ao colonialismo, o “contratado” para S. Tomé, drama que é preciso denunciar e expurgar.

CANÇÃO DE SALABU

Nosso filho caçula
Mandaram-no pra S. Tomé
Não tinha documentos
Aiué!
Nosso filho chorou
Mamã enlouqueceu
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho partiu
Partiu no porão deles
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Cortaram-lhe os cabelos
Não puderam amarrá-lo
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho está a pensar
Na sua terra, na sua casa
Mandaram-no trabalhar
Estão a mirá-lo, a mirá-lo
- Mamã, ele há-de voltar
Ah! A nossa sorte há-de virar
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé
Nosso filho não voltou
A morte levou-o
Aiué!
Mandaram-no pra S. Tomé

PRÉSENCE AFRICAINE

Em Janeiro de 1954, antes que a PIDE me deite a mão, dou o salto para o Brasil. E tu, Mário, dois ou três meses depois, suponho que pelos mesmos motivos, dás o salto para Paris.

Perco o contacto directo contigo mas, por vias terceiras, vou sabendo da tua vida.

Em 1955, sei que és redactor da revista Présence Africaine, e também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros. Também sei que estás a estudar e te vais formar em Sociologia, na Sorbonne.

TASCHKENT

Ó Mário: em 1958, juntamente com Viriato da Cruz, tu representas Angola na I Conferência de Escritores Afro-Asiáticos, em Taschkent, na URSS.

MPLA

Com outros angolanos, em 1960 és um dos fundadores do clandestino Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de raiz marxista. Transferes a direcção do Movimento de Luanda para Conakry e levas os teus camaradas a votarem no Agostinho Neto (então preso em Portugal) para presidente honorário do MPLA. Presidente efectivo és tu e secretário-geral é o Viriato da Cruz.

Em 1961, depois da independência do Congo-Belga, tu e o Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville, porque assim ficam mais perto de Angola.

Em 1962 Agostinho Neto consegue fugir de Portugal e, em Leopoldville, assume a direcção do MPLA. Mas o seu autoritarismo, a sua mania de ser presidente, a sua rigidez, levam-te a pedir a demissão, ó Mário...

MAIS TRABALHOS

Mário: entre 1965 e 69 coordenas a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP); e de 1971 a 72 integras o Comité de Coordenação Político-Militar do MPLA na Frente Leste. Em 1973 és mandatado pelo mesmo Comité para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral.

REVOLTA ACTIVA

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Em 1974 tu, o teu irmão Padre Joaquim e muitos outros intelectuais angolanos opõem-se à liderança de Agostinho Neto dentro do MPLA, exigindo a democratização do regime. Esse movimento fica sendo conhecido como Revolta Activa. Em consequência, vocês todos são perseguidos ferozmente por Agostinho e seus fiéis.

Batatada, mania ou intuição? - hei-de voltar a perguntar ao Alexandre O’Neill.

Mário: acabas por te exilar na Guiné-Bissau, onde assumes as funções de coordenador do Conselho Nacional de Cultura. Mais tarde serás até o próprio Ministro da Informação e Cultura, com a aprovação do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde).

REENCONTRO

Depois do 25 de Abril, já em 1975, sou incumbido de ir a Cabo Verde e Guiné-Bissau para tentar armar um esquema de cooperação com o meu condiscípulo e velho amigo Vasco Cabral, o homem da Economia da nova República.

O Vasco está provisoriamente instalado numa vivenda na marginal entre a cidade da Praia e a Prainha. Diz-me que ali também está instalado o Mário Pinto de Andrade. Ele a dizer-me isto e o Mário a aparecer. Olha para mim, hesita, sabe que me conhece mas não é capaz de me reconhecer. Compreende-se, já se passaram mais de 20 anos e as nossas feições, até o físico, mudaram, eu engordei e ele emagreceu. Ajudo, assopro:

- Um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela rua Garrett...

Desmanchas-te a rir, corres para mim, dás-me um grande e apertado abraço.

NINO VIEIRA

Na Guiné-Bissau, em 1980, João Bernardo “Nino” Vieira dá um golpe que depõe o presidente Luís Cabral (irmão de Amílcar). Consequências: Luís Cabral segue para Lisboa e o PAIGC cinde-se em dois, o PAICV (cabo-verdeano) e o PAIG (guineense). Tu, Mário, tal como muitos outros companheiros de luta, deixas a Guiné e aderes ao PAICV.

HISTÓRIA GERAL DE ÁFRICA

Durante toda a década de 80 tu, Mário, circulas entre Paris (a tua base), Lisboa, Moçambique e Cabo Verde. Trabalhas na pesquisa e elaboração de artigos e capítulos para a História Geral de África, obra em oito grossos volumes, projecto editorial de UNESCO. Trabalho colectivo a contribuir para uma melhor compreensão das sociedades e culturas africanas. Obra realizada por 350 autores sob a direcção de um comité científico integrado por 39 especialistas, dos quais 2/3 são africanos. Dada a sua importância para a humanidade, a obra é editada em inglês, em francês, em árabe e também em algumas línguas africanas.

NATIVISMO E ERRÂNCIAS

Dentro do espírito unitário da CONCP (Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas) também pesquisas o nativismo e o proto-nacionalismo na Guiné, em Cabo Verde, em Angola, em S. Tomé e Príncipe e Moçambique. A tua pesquisa não é concluída mas será postumamente editada com revisão do texto por José Eduardo Agualusa.

Um, dois, três apartes: a convite do Governo de Moçambique ali permaneces entre fins de 83 e princípios de 84. Voltas ao Maputo em Abril de 85 para, juntamente com a socióloga Maria do Céu Carmo Reis, dares um curso de 3 meses na Universidade Mondlane sobre Ideologias da Libertação Nacional. Entre 87 e 89 permaneces em Moçambique por períodos intermitentes.

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DOENÇA E MORTE

Problemas de saúde provocam o teu internamento no Hospital Egas Moniz, em Lisboa. Por decisão tua, do teu irmão Joaquim e da tua cunhada, em busca de melhoras segues depois para Londres. É tarde, nada a fazer. Ali morres a 26 de Agosto de 1990.

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Ó Mário, saudades já tenho da tua forma de ser e estar!

publicado por jambros às 18:48
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Quinta-feira, 2 de Março de 2006

Libertar a palavra

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por Mário Cabral

Estou regressando calma e paulatinamente, para o meu/nosso país, a heróica Guiné-Bissau. Quando em 1994, após as primeiras eleições multipartidárias, deixei o país, após anos de serviços prestados, nos sucessivos governos pós-independência, para cumprir o meu desejo de ser cidadão do mundo e servir as Nações Unidas, opção que me ajudaria a cumprir a minha missão de chefe de família, escrevi num artigo saído num jornal da praça, que me colocava ao serviço da nação, nas responsabilidades que iria exercer, alargando a área de soberania do meu país. Com efeito a pequenez territorial da Guiné-Bissau é, no meu entender, engrandecida, leia-se estendida, com o bom desempenho da sua diáspora, ao participar na recolha e partilha de experiências.

Após dois meses de vivência da realidade política, social, económica e cultural do país (estou desde o passado dia 13 de Dezembro de 2005 em Bissau), senti-me na necessidade de contribuir com algumas reflexões a partilhar com os meus conterrâneos.

A Guiné-Bissau, contrariamente ao que diz uma certa imprensa e muitos intelectuais nacionais e estrangeiros, é um país viável, convivial e promissor. Dotado de recursos humanos e naturais que são suficientes para um normal desenvolvimento do país, a Guiné-Bissau pode alargar e valorizar tanto os recursos humanos como os naturais, se regressarmos à observância de alguns valores que caracterizaram a nossa sociedade: honestidade, civismo, amor ao trabalho sério e bem feito, solidariedade, tolerância, hospitalidade, guinendade e bom senso.

Hoje no nosso país, o que se vê mais frequentemente (felizmente existem numerosas e honrosas excepções), é uma azáfama para assumir o poder a todo o custo (vale tudo, inclusive tirar olhos). Esse sentimento impera sobretudo em certa classe política e empresarial, se for correcta, a leitura que fiz da nossa sociedade. Porquê e para quê tais atitudes e comportamentos surgiram?

Apesar de todas os entraves resultantes das convulsões recentes, quer sociais, quer políticas, quer armadas, a sociedade guineense continua activa, empreendedora e imaginativa. Basta andar pelas ruas esburacadas, ornamentadas por vezes com montes de lixo não reciclado, para convivermos com os transeuntes que vão e vêm aos agitados mercados de Bandim, da praça ou de Kundok, verdadeiras bolsas de valores. Circula por esses postos do mercado informal, diariamente, largas centenas de milhares (serão milhões?) de francos guineenses, não obstante todos se queixarem de que o negócio está fraco, e está de facto. O cidadão comum sente e sabe, que se pode fazer mais e melhor, razão porque não baixa os braços!!!

Se o informal funciona, porque não funciona o público e/ou o privado organizado? Será que o guineense tem tendência para o que não é organizado, onde reina a confusão e o debrouillez-vous? Ou é porque pretende fugir ao fisco, por não ter ainda entendido que o Estado guineense lhe pertence e que, ao roubá-lo, se rouba a si mesmo? Será que, para além da educação cívica que se organiza ciclicamente, pouco tempo antes das eleições, não tem existido outras formações relativas aos direitos e deveres do cidadão? Será que não se organizam frequentes debates sobre temas essenciais da vida comum dos guineenses e de todos aqueles que escolheram a Guiné-Bissau para viver e labutar, na busca de consensos mobilizadores da vontade nacional?

Para alguém como eu, que tem vivido fora deste contexto geopolítico, é difícil compreender como é possível que os nossos políticos e dirigentes institucionais, por razões insondáveis e inconfessáveis, podem tomar o país e o povo que os elegeu, como reféns das suas lutas intestinas. Não será que o povo (accionista dessa empresa chamada Guiné-Bissau) vota confiante, em quem pensa que vai dar o melhor de si mesmo, para que o país avance? Não posso imaginar sequer, que um servidor do Estado e muito menos, que um homem/mulher do Estado, não perceba qual é a sua missão?!?! Pa ké ku no na kansa nó kabeça? Ó no na findji nan kuma nó na kansa n’utro?

Na Guiné-Bissau temos que aplicar estratégias win/win (ganhador/ganhador) e não persistir no lose/lose (perdedor/perdedor). Só temos a ganhar se todos ganharmos e não teimarmos em serpentear o caminho de cascas de banana, para gritarmos triunfantes depois, ui i laluuu!?? A quem interessa, ao amigo da onça? Amigo da Guiné-Bissau não será com absoluta certeza, o(s) autor(es) de tais praticas infelizmente frequentes!!!

Julgo que devemos tomar conjuntamente o engajamento de promover uma cultura de diálogo, de tolerância, de debates pacientes, de negociações aturadas, de compromissos sérios e honestos, porque é disso que necessitamos para avançar. Precisamos de nos orgulhar de nós mesmos, das nossas vitórias individuais e colectivas. Devemos ficar contentes quando o outro tiver sucesso. Isso é guineidade, a mola impulsionadora da elevação da auto-estima. A história recente mostra-nos que, só juntos podemos vencer os desafios do combate à pobreza e a boa integração no comboio da mundialização.

Impõe-se portanto, na minha modesta opinião que nos entendamos, que nos confraternizemos, que construamos os consensos mobilizadores para que possamos legar, senão para os nossos filhos, ao menos para os nossos netos, uma terra de esperança e de futuro promissor. Entretanto, por favor, desbloqueemos as vias de obstáculos naturais e artificiais para que, também nós, cada homem e cada mulher honrada, na dignidade, com honestidade e com esperança, possa ter a alegria de viver HOJE em paz e segurança, com os seus vizinhos e com o mundo que nos envolve. Ninguém, nenhum país é suficientemente forte para viver em autarcia, nada nem ninguém pode ignorar a comunidade internacional e a globalização que nos desafia e interpela.

Bem hajam,

Mário Leopoldo Cabral

Portugal, 25 de Fevereiro de 2006
publicado por jambros às 16:41
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Quarta-feira, 1 de Março de 2006

QUANDO TUDO ACONTECEU...

correiasilva3.jpg
Por Fernando Correia da Silva

In http://www.vidaslusofonas.pt/vasco_cabral.htm


vasco_cabral01.jpg
Vasco Cabral

Em 1926 VASCO CABRAL nasce em Farim, no norte da Guiné-Bissau. - 1949: Participa, activamente, na campanha de Norton de Matos, candidato da Oposição anti-salazarista à presidência da República Portuguesa. - 1950: Conclui, em Lisboa, o curso de Ciências Económicas e Financeiras. - 1953: Em Bucareste, participa no IV Festival Mundial da Juventude; é preso ao regressar a Lisboa e só é libertado cinco anos depois. - 1956:Amílcar Cabral funda, em Bissau, o PAIGC, Partido Africano pela Independência da Guiné e Cabo Verde. - 1957: Em Pidjiguiti, porto de Bissau, a tropa colonialista massacra 50 marinheiros e estivadores que reclamam aumento de salários. - 1961: Militante comunista, em Portugal Vasco Cabral passa à clandestinidade. - 1962: Numa fuga organizada pelo PCP, Vasco Cabral, juntamente com o angolano Agostinho Neto, de barco alcança Tânger. Ruma para o sul e vai procurar Amílcar Cabral para aderir ao PAIGC e lutar pela independência da Guiné-Bissau. - 1963: Início da luta armada na Guiné-Bissau. - 1973: A 20 de Janeiro, um bando de militantes do PAIGC, manipulado pela tropa colonial portuguesa, em Conakry assassina Amílcar Cabral. Vasco Cabral escapa por um triz ao atentado e não desistirá de perseguir os assassinos até conseguir a sua execução. - 1974: Em Portugal, a 25 de Abril, o MFA (Movimento das Forças Armadas) derruba o governo de Marcelo Caetano, sucessor de Salazar; no mesmo ano Portugal reconhece a independência da Guiné-Bissau, cujo primeiro presidente será Luís Cabral, irmão de Amílcar. - 1975: Portugal reconhece a independência de Cabo Verde, cujo primeiro presidente será Aristides Pereira. - 1980: Nino Vieira dá um golpe de Estado; o presidente Luís Cabral vai desterrado para Lisboa. Vasco Cabral não se opõe ao golpe. - De 1974 a 2004: Vasco Cabral, no Governo guineense, é ministro da Economia e Finanças, coordenador de Economia e Planeamento, ministro de Estado da Justiça e membro do Conselho de Estado. Será também vice-presidente da República. - 2005: A 24 de Agosto Vasco Cabral morre em Bissau.

Na Vila Sousa, no Largo da Graça, em Lisboa, um grupo de obstinados, liderados pelo Tomás de Figueiredo, funda em 1975 a Federação das Cooperativas de Produção. Achavam eles (e eu também, porque junto estava eu) que era uma grande palhaçada o que uma certa Esquerda apregoava: greve contra a fuga dos patrões para o Brasil e para Espanha. Uma inteligente chega mesmo a dizer-nos:

- Primeiro tomamos o poder político e só depois é que tomamos o poder económico.
- E se for ao contrário, ó camarada?
- Se for ao contrário, pode haver graves desvios da linha justa.

Achamos que o mais correcto seria convencer os operários a tomar conta dos meios de produção abandonados pós 25 de Abril. A ideia vinga e os trabalhadores de umas cinquenta pequenas e médias indústrias aceitam a proposta e assim nasce a Federação das Cooperativas de Produção.
Uma das metas da Federação é promover a compra de matérias primas e a venda de produtos manufacturados. Com a independência das ex-colónias portuguesas o mercado tende a alargar-se. Ainda em 1975 sou mandatado pela Federação para viajar até à Guiné-Bissau, já que Vasco Cabral, o Ministro da Economia da jovem nação, é meu amigo pessoal. Foi assim: em 1949 ambos participámos na campanha de Norton de Matos, candidato da Oposição anti-salazarista à presidência da República Portuguesa; em 1950 fomos colegas em Ciências Económicas e Financeiras, ele no 5.º e último ano, eu no 1.º; em 1953 participámos, em Bucareste, no IV Festival Mundial da Juventude (ele como militante comunista, eu apenas como aderente do MUD Juvenil, movimento unitário antifascista). Tanto bastou para firmar a nossa amizade. E agora passo a recordar o que vim a saber depois: Vasco é preso em 53 e libertado cinco anos depois. Em 62, numa fuga organizada pelo PCP, Vasco, juntamente com o angolano Agostinho Neto, de barco alcança Tânger. Ruma depois para o sul e vai procurar Amílcar Cabral para formalizar a sua adesão ao PAIGC e, junto com o fundador do Partido, lutar pela independência da Guiné-Bissau e Cabo Verde. Cabral é pura coincidência de sobrenomes porque entre ambos não há qualquer parentesco. Em 63 começa a luta armada.

Por telegrama, combino encontro com o Vasco Cabral em Cabo Verde, onde ele está transitoriamente. Desço na ilha do Sal, um longo, plano e calvo rochedo em alto mar. Dali, num pequeno bimotor sigo para a Cidade da Praia, na ilha de Santiago, esta já arqueada, cumes e vales, litoral recortado, arvoredo à beira-mar.

Na Alfândega, ao apresentar o meu passaporte, dizem-me que há um carro do Estado à minha espera. Sento-me ao lado do motorista. Atravessamos a Cidade da Praia e seguimos pela Marginal rumo à Prainha.

Paramos frente a uma vivenda e no alpendre está o Vasco Cabral à minha espera. Levanta-se e abre os braços, eu corro para ele, o grande e apertado abraço, há mais de 20 anos que a gente não se via. Em 54 eu fugira para o Brasil antes que a PIDE me deitasse a luva, o que parecia estar prestes a acontecer. Porém, sob a euforia do Vasco pressinto um alçapão. A ver vamos aonde é que ele vai dar...

Lá do fundo da vivenda surge então o Mário Pinto de Andrade, angolano meu amigo desde os tempos do Café Chiado, em Lisboa. Mais um longo e apertado abraço. O Mário fora um dos dirigentes da luta pela libertação de Angola. Mas depois da independência saíra do seu país por não suportar a prepotência do seu camarada Agostinho Neto e, na condição de refugiado, viera para Cabo Verde trabalhar na área da Cultura.

Anoitece, deito-me, durmo. No dia seguinte, de manhã, o Vasco convida-me a ir até à Cidade da Praia. Vou. Num clube local disputa umas partidas de ténis. Não tenho jeito para esse desporto e fico na bancada a assistir. Uma hora depois, já cansado, o Vasco vem sentar-se a meu lado enquanto, lá em baixo, outros pares continuam a bater bola. Evoco o IV Festival Mundial da Juventude. Sorrindo com malícia, o Vasco pergunta-me pela brasileirinha que eu andava a namorar em Bucareste. Óptimo! se ele quer brincar talvez consinta que eu abra o seu alçapão secreto... Conto-lhe que em datas diferentes eu e a brasileirinha saímos de Bucareste porém marcámos reencontro em Paris. E de Paris rumámos para Lisboa onde viemos a casar em Janeiro de 54. O Vasco espantado com esta aventura mas não paro. Digo-lhe que ela era filha de judeus polacos emigrados para o Brasil e que o seu casamento com um não judeu causara traumas na família, apesar de progressistas serem eles. Digo ainda que, de navio, seguimos depois para o Brasil (eu já a furar o cerco da PIDE...) Ao descermos no porto de Santos lá estava toda a sua família, pais, irmão, avó, tios e primos. A avó, que teria mais de oitenta anos, dá-me um beijo e um abraço e, para a neta, diz qualquer coisa que me traduzem:

- Quando se cai de um cavalo, que seja de raça!

Aproximo-me da matriarca, dou-lhe um outro beijo e relincho.

O Vasco mata-se a rir com a história. Aproveito a galhofa para tentar abrir o alçapão. Pergunto-lhe como é que fora assassinado o Amílcar Cabral. Apesar de renitente, conta-me que um grupo de ex-guerrilheiros do PAIGC, controlados pela tropa colonial e pela PIDE, assaltara a sede do PAIGC na Guiné-Conacry, matara o Amílcar e preparava-se para matar outros dirigentes como o Aristides Pereira, o Pedro Pires e o próprio Vasco, quando Sekê Touré, presidente da Guiné-Conacry interviera e frustara a tentativa. Pergunto depois se o bando de assassinos tinha sido caçado e justiçado. Responde-me o Vasco:

- Não quero falar disso.

E não fala, ponto final. Mas não desisto. No fim de tarde, ao regressar à vivenda na Marginal, puxo o Mário para o pátio e peço-lhe que me explique a agonia do Vasco. E ele explica ou tenta explicar:

- Fernando, tu não sabes o que é a luta armada. Nem podes imaginar o que é ser traído por antigos companheiros de armas, a pretexto do tu seres cabo-verdiano e eles serem guineenses.
- Compreendo, ou tento compreender. E o Vasco caçou os assassinos?
- Todos.
- Quantos eram?
- Mais ou menos cinquenta entre matadores e cúmplices. Caçou e executou ou mandou executá-los. É por isso que ele anda sorumbático, porque cada um dos executados tinha sido seu companheiro de armas, portanto tinha sido seu amigo. Compreendes?

Sim, compreendo. Magoado, mas compreendo...

No princípio da noite um carro, acompanhado por quatro motociclistas, pára frente à vivenda. É Pedro Pires, o primeiro-ministro de Cabo Verde que vem despedir-se do Vasco, o qual viaja amanhã para Bissau. Eu também viajarei amanhã, mas num voo diferente. Não quero ser intrometido e recolho-me lá para os fundos da vivenda. Porém, pouco tempo depois o Vasco vai buscar-me e apresenta-me o Pedro Pires. É uma simpatia de homem. Entre outras coisas pergunta-me:

- Como é que vai a Reforma Agrária portuguesa? Vinga?

E eu respondo:

- Se o folclore revolucionário for substituído por uma eficiente gestão económica, não há quem possa destruí-la...
Abre-se a porta do avião e fico atordoado com a súbita fornalha húmida de Bissau, pelo menos 40 graus. Mas resisto e desço a terra.

Procuro e instalo-me na acolhedora residencial que o Vasco me indicou. Fica perto do palácio do antigo governador da colónia.

Depois procuro o Ministério da Economia. Lá está o Vasco. E, num anexo, lá está a Teresa, directora geral das Finanças. A Teresa, portuguesa e branca, é a esposa do Vasco, africano e negro. Portanto, por aqui não há racismo. Antes pelo contrário, há até muito amor, o Vasco desdobra-se em poemas como este em que um combatente se despede da bem amada:

Naquela tarde em que eu parti e tu ficaste
sentimos, fundo, os dois a mágoa da saudade.
Por ver-te as lágrimas sangraram de verdade
sofri na alma um amargor quando choraste.

Ao despedir-me eu trouxe a dor que tu levaste!
Nem só teu amor me traz a felicidade.
Quando parti foi por amar a Humanidade.
Sim! Foi por isso que eu parti e tu ficaste!

Mas se pensares que eu não parti e a mim te deste
será a dor e a tristeza de perder-me
unicamente um pesadelo que tiveste.

Mas se jamais do teu amor posso esquecer-me
e se fui eu aquele a quem tu mais quiseste
que eu conserve em ti a esperança de rever-me!

Em 1953, ainda na prisão, em Lisboa, Vasco começa a escrever poemas que reunirá, já depois da independência da Guiné-Bissau, sob o título A luta é a minha primavera. Acha que a língua portuguesa é a única que pode interpretar e traduzir os anseios das múltiplas etnias guineenses, cada qual com a sua fala própria e tentando ser a exclusiva ou a dominante. Será até ele o fundador da União Nacional de Escritores da Guiné-Bissau (assim mesmo, em português...).

No Ministério da Economia puxo dos meus apontamentos e o Vasco, a Teresa e eu estudamos quais as possibilidades de intercâmbio entre o Estado da Guiné-Bissau e a Federação das Cooperativas de Produção. Depois o Vasco pede que a Teresa me mostre a cidade. Descemos, eu e ela.

Lá em baixo há um automóvel à nossa espera. O motorista percorre alguns bairros da cidade. Acho pitoresca a agitação popular junto ao Mercado de Bandim. Depois paramos no cais de Pidjiguiti onde em 1957 a tropa colonial chacinou 50 marinheiros e estivadores que reclamavam aumento de salários. A Teresa diz-me então que há vários projectos de construção na cidade e por isso o Vasco decidiu que o mais prático seria levantar uma fábrica de tijolos. Paramos frente à fábrica e, todo lampeiro, saio do carro. Ouço uma grande gritaria lá por dentro e começam a chover tijolos sobre mim. Salto, esquivo-me, nenhum me acerta, felizmente... O motorista larga o carro e começa a gritar. Alguém, temeroso, vem da fábrica para a rua. Olha para mim com atenção e diz qualquer coisa que me traduzem: fui confundido com um militar português que, durante a guerra colonial, se divertia a molestar e torturar civis. Para não criar caso, finjo acreditar na explicação, mas realmente não acredito... Porém, 3 anos depois, na vila de Borba (em Portugal) ao entrar eu num tasco para comer e beber alguma coisa, há um bêbedo que corre para mim, de braços abertos, e a gritar:

- Major, ó meu Major!
- Mas qual Major, nem meio Major?
- Ó meu Major, mas já se esqueceu das diabruras que fizemos em Bissau?

Pronto! Afinal há por aí um fascista que tem a minha tromba. Se um dia eu morrer com um tijolada nos cornos, os meus leitores já ficam a saber o motivo...

No aeroporto, um beijo à Teresa e um abraço ao Vasco. Diz-me ele:

- Fernando, oxalá desta vez reapareças antes de passarem mais vinte anos...

Mas nem sequer voltaremos a ver-nos. Primeiro, porque a Federação foi desmantelada pela tal Esquerda que não a suportava. Segundo, porque em 1980 Nino Vieira armou um golpe de Estado que depôs Luís Cabral (irmão do Amílcar) e começou a governar a Guiné-Bissau a ferro e fogo, justamente ao contrário da fraternidade apregoada por Amílcar. E o Vasco, para meu espanto, não tugiu nem mugiu, até aceitou o cargo de Vice Presidente quando o Presidente era um ditador. Como foi isso possível? Temor de ter que voltar à execução de antigos companheiros de armas? Não sei, não sei, não entendo. Ou talvez entenda, porque li Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança.
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Uma nota final: o Vasco morre em Bissau a 24 de Agosto de 2005.









publicado por jambros às 10:22
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