Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Panaceias, lenitivos e paliativos...


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Tenho vindo a defender, publicamente, a ideia de que a comunidade internacional deveria ponderar seriamente a possibilidade de a Guiné-Bissau passar à gestão das Nações Unidas por um período entre 8 a 10 anos e, só então, proceder-se à transferência de poderes através de eleições. Os dados da ideia foram lançados, assistindo-se, a um aceso debate a esse propósito. A temática reporta-se a uma das questões muito caras aos guineenses, ciosos da sua noção de Nação. Passaram a existir inúmeras vozes concordantes, algumas cépticas e outras discordantes. Felizmente que assim é, pois registamos, com júbilo que, afinal, de alguma forma, o assunto está agendado no plano nacional, não devendo tardar muito que o venha a ser no plano internacional.

Sobre a ideia de um protectorado das Nações Unidas para a Guiné-Bissau, todas as leituras desembocam na constatação de que a sucessão de golpes e contra golpes comportam causas profundas e complexas, sem fim à vista. Torna-se imperativo fazer alguma coisa para estancar a espiral de violência que ciclicamente se abate sobre a Guiné-Bissau, onde, infelizmente, até hoje, os nossos mais próximos amigos, mesmo os mais bem intencionados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), nos ajudam, paradoxalmente, a justapor panaceias, lenitivos e paliativos, que não resolvem nada e acabam por potenciar novas crises. Lavram-se "memorandos de entendimento", a despeito da sempre provável implosão dos desentendimentos, inibindo o génio e a força criadora guineenses, e engendrando novos golpes e contra golpes.

Perante a proposta de colocar a Guiné-Bissau sob tutela das Nações Unidas, não venham agora - só agora! - com o argumento de que, nós os guineenses, somos mais ciosos do nosso incipiente sentido de Nação do que a necessidade de construirmos um verdadeiro Estado de Direito. Pode ser até que a gestão das Nações Unidas para a Guiné-Bissau venha a funcionar como um importante tónico para a nossa capacidade de coesão nacional.

Ante a nova crise golpista (a de 6 de Outubro passado), ao invés de procurarmos grandes remédios para os grandes males, não hesitamos em culpar a comunidade internacional pela não concretização das promessas de ajuda, eximindo-nos de questionar o lugar que ocupamos no concerto das nações, onde, porventura, mais por culpa própria do que da comunidade internacional, nem sequer tomamos parte efectiva. É verdade que o sistema internacional é, além de desfavorável, também injusto, sobretudo para os mais fracos, como nós. Ora, não é menos verdade de que não podemos e nem devemos contar excessivamente com a chamada ajuda ao desenvolvimento, na medida em que, a lógica do dom, no contexto das linhas de força que caracterizam as actuais relações económicas internacionais, é quase matéria do passado. A Guiné-Bissau tem que de alguma maneira aceder as vantagens comparativas, isto é, tem de produzir para consumir. Deve criar as condições, comparativamente vantajosas, susceptíveis de atrair o investimento externo e assim produzir riqueza. E, nesse sentido, não se pode assacar culpas à comunidade internacional, quando mergulhamos na folia colectiva de conjuras fratricidas, que vem ofuscando as perspectivas de desenvolvimento.

Urge por cobro a esta torrente transversal (não apenas junto às Forças Armadas) e omnipresente de golpes e contra golpes que se petrificou na sociedade com rastos de violência gratuita. Urge sanear a economia guineense, inserindo-a na economia internacional e global. Urge a criação de uma cultura de auto-responsabilização. Urge pôr travão a recorrente e perversa mendicidade a que nos entregamos. Urge tornar factível o princípio de igualdade de oportunidades, de molde a dissuadir potenciais focos de conflitos. E, sem pretender que as Nações Unidas venham a ser uma espécie de varinha mágica para todas as maleitas, cremos, que ela representa o que imperativamente precisamos. Chamemo-lo protectorado, tutela, ou superintendência; eis o que se afigura indispensável.
É por essas e outras determinantes, imperativos até, que uma transitória tutela das Nações Unidas para a Guiné-Bissau, não obstante as debilidades conhecidas do sistema da ONU - mas insuspeito até pela natureza intrínseca dos princípios que o enformam - serenaria os ímpetos frenéticos dos que na Guiné-Bissau, volta e meia, chantageiam e matam impunes com armas em punho.

Isso certamente as Nações Unidas não tolerariam na eventualidade de virem a assumir a gestão transitória do país. A gestão das Nações Unidas para a Guiné-Bissau criaria novos hábitos administrativos e procedimentos diferentes que criariam as condições indispensáveis à estabilização económica, política e social do país.

*Historiador Guineense


publicado por jambros às 13:35
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«Na imigraçon, cansera, el qui nô pano di cubri»

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Ramiro Naka


Às vezes, como aconteceu ontem, tenho saudades de uma ou duas músicas de Ramiro Naka. A foto que publico, foi-me oferecida em Paris pelo cantor em 1991. Do que tenho saudades, é justamente de um álbum que ele lançou por essa altura, o qual havia de o levar a uma tournée de apresentação à Bissau, onde assisti a um dos seus espectáculos, no Estádio "Lino Correia".

De corpo atlético, que de resto exibia melhor que a sua monocórdica mas melódica voz, guardo de Ramiro Naka a imagem de artista-vibração, como nunca vi na Guiné-Bissau, nem da parte do excêntrico e electrizante Patcheco di Gumbé. Não esqueço, porém, que a monocórdica voz de Ramiro Naka é largamente compensada pelo alto significado enigmático que o conteúdo das suas músicas transmitem. Não foi Ramiro Naka quem cantou e disse que “na imigraçon, cansera, el qui nô pano di cubri”?, o qual podíamos traduzir mais ou menos assim: “Na imigração, fazemos das dificuldades nossos cobertores”. Pense-se nisso!

Leopoldo Amado
9 de Julho de 2005

publicado por jambros às 13:21
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Acontecimento(s) na Sanzala...

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Bolama, antiga capital da Guiné em tempos idos e placa giratória da economia colonial no ciclo de escravos e depois no da mancarra, prostrou-se para Baifás, uma vez mais, como o epicentro incólume das suas deambulações: ali despertou para à vida, no bairro da Sanzala, isto é, uma encruzilhada de “caminhos de cabra ”, entrecortados por poilões seculares que separavam os diferentes destinos que levavam e traziam pessoas dos subúrbios para o centro da cidade e vice-versa.

Sanzala era ainda um bairro em que se perscrutava a permanente vozearia monocórdica de gente humilde que, com desdém, ia e vinha em ritmo compassado, anunciando, por entre gestos e palavras imperceptíveis – pelo menos para Baifás –, cara de pouco amigo, em virtude dos negócios com os colonos comerciantes nunca corresponderem às expectativas que requeriam sacrifícios de toda uma campanha agrícola. Nesses semblantes carregados, escarrapachavam-se um misto de dor e de impotência, aliás, razões que impeliram Baifás a encetar, pela primeira vez, uma tentativa, por sinal vã, de procurar compreender o jugo da vida e da "coitadessa", sintomaticamente, a marca indelével que caracterizava, de maneira geral, os sanzalenses...

Por demais, o bairro era pobre e as casas caquécticas, porquanto, eram de construção precária, ou seja, sem água corrente, sem electricidade, albergando mais de três ou quatro famílias que habitavam os demais compartimentos geminados do mesmo casebre – “entra bú sai” – , como ironicamente se diz na Guiné-Bissau. De pés nus e ventres convexos, que se projectavam muito para além do nível do nariz, as crianças de Sanzala usavam calções com rombos concêntricos, disformes, o que lhes acentuava ainda mais o prognatismo dos ventres subnutridos, fazendo sobressair nelas as costelas ressequidas por dias e dias de apenas "um tiro".

Apesar de tudo, Sanzala ofereceu ao Baifás aquilo que, no mundo inteiro, semelhantes bairros, à mingua, ocasionam à milhões de crianças: a convivência recíproca de neófitos que, desavindos familiarmente e desenquadrados socialmente, se entregavam à uma ingenuidade lúdica e a uma solidariedade à toda prova, a qual, por fidelidade tradicional, amiudadas vezes, resistem à erosão dos tempos. Na época das chuvas, as árvores de frutos dos quintais enlameados eram tomadas de assalto pelas crianças que, em catadupa, arremessavam pedras para às mangueiras, às arvores de fruta-pão e de manpataz, apresentando-se esse exercício não somente como complemento do débil regime alimentar, mas também como forma de libertação de energia e aferição da pontaria.

Por alturas do lusco-fusco, enquanto os adultos se abeiravam de um poste de iluminação pública onde, sob a baça e difusa luz jogavam, ora damas ora cartas, as crianças improvisavam buracos por entre as fissuras das diferentes habitações onde jogavam berlindes até à exaustão. A casa do pai de Baifás, à semelhança da maioria daquela época, possuía uma varanda extensa e alta, a qual, era preciso subir a partir de uns cinco ou seis degraus de duas escadas construídas em cada extremidade. Volta e meia, absortos em jogos de berlindes, quando o pomo da discórdia se resumia em saber se “estremecer” é ou não “dar” ou se se tinha ou não "rebilas" –, as crianças –, acompanhando toda esta algazarra à argúcia de que se munia na interpretação das elásticas regras do jogo –, caiam aparatosamente, inadvertidamente ou por empurrão, a partir do metro e meio de altura das varandas, ocasionando o subsequente apuramento de responsabilidades e a zombaria se lhe seguia um ambiente que invariavelmente os levava à vias de facto ou à autênticas batalhas campais.

Não raras vezes, as tricas infantis acabavam por envolver famílias inteiras que se insultavam mutuamente, aproveitando normalmente a oportunidade para se sublimarem da omnipotente e omnipresente "coitadessa" e se ressarcirem, pelo menos psicologicamente, das expectativas frustradas em negócios mal sucedidos e, assim, em jeito de desforra, "contarem crioulo" à uns e outros, pondo os segredos e os podres à descoberto através de largos gestos, os quais, invariavelmente, acompanhava o violento bater de palmas e os gritos guturais que, à larga distância, alertavam qualquer surdo-mudo para a deflagração de mais uma zaragata de tabanca, para a qual, aliás, todos acorriam, como se de mais um acontecimento se tratasse. E era.

Leopoldo Amado
publicado por jambros às 13:18
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INTEGRAÇÃO E/OU EXCLUSÃO : O MUNDO DUAL DOS AFRO-EMIGRANTES E DOS AFRO-PORTUGUESES


Por Leopoldo Amado

Dos oito países do mundo que constituem a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), cinco são africanos. De comum com Portugal, têm uma mesma língua oficial, o português. Testemunham, também, uma história em comum, feita de encontros e desencontros de culturas e de povos. Para centenas de milhares de imigrantes oriundos dos PALOP (Países africanos de Expressão Oficial Portuguesa), era suposto que esta história em comum proporcionasse um melhor acolhimento do que aquele que tiveram.

Apesar de uma tão longa história em comum, continuam a ser raros os africanos que ascendem a posições de destaque na sociedade portuguesa, mercê sobretudo de preconceitos deliberadamente projectados sobre essa massa de imigrantes a quem não se reconhecem direitos efectivos, apesar de muitos deles, senão mesmo a maioria, estarem formal e constitucionalmente garantidos.

Desde Eusébio (anos 60), um número crescente de desportistas “portugueses” de renome internacional são africanos ou de ascendência africana. Os africanos que vieram antes da Independência, em 1974/74, e que na maior parte possuem nacionalidade portuguesa, terão sido as maiores vítimas do processo chamado de integração. Habitam, na sua maioria, em casas e bairros degradados. Alguns dos bairros onde são maioritários, como Marianas (Carcavelos, Cascais), Pedreira dos Húngaros (Oeiras), Outorela (Oeiras), Alto da Cova da Moura (Amadora), Quinta do Mocho (Loures), Arrentela (Seixal), Bela Vista (Setúbal) tornaram tristemente célebres pelas piores das razões: pobreza, tráfico de droga, violência, etc.

O aumento do número de imigrantes em Portugal, à semelhança do que aconteceu em outros países, recoloca entre nós, mas numa escala mais alargada o problema da inserção social destes novos residentes. As principais vítimas destas tendências são portugueses-africanos e imigrantes africanos. Ninguém ignorava, nem mesmo os sucessivos Governos, que o seu aumento na população residente em Portugal iria traduzir-se em novos problemas sociais, devido a crescentes problemas de integração e de inserção social. Esta inserção tende a provocar quase sempre fenómenos de xenofobia e racismo.

Inquéritos à opinião pública e a grupos específicos da população portuguesa, como jovens universitários, revelam que estamos perante um preocupante aumento de tendências racistas. A comunicação social passou também a tratar os casos esporádicos de crimes praticados por imigrantes numa forma alarmista, veiculando a mensagem que a segurança do país está posta em causa. A imagem do africano continua a ser associada ao trabalhador da construção civil e a profissões pouco qualificadas, embora também ao desporto e à música onde tem adquirido uma grande projecção. Os resultados escolares dos africanos são inferiores aos dos restantes portugueses nas mesmas escolas., podendo-se apontar várias razões, entre as quais, problemas de integração social e cultural, problemas no domínio da língua, etc.

A isso tudo, acresce o facto de muitos africanos encontrarem-se em situação ilegal, mas mais grave que isso, estão completamente desenraizados e sem apoios nas respectivas comunidades. Atravessam gravíssimos problemas de solidão, o que os torna presas fáceis para redes de marginais e todo o tipo de exploradores. Outros, estão ainda de tal modo apegados às suas origens que se auto-excluem da sociedade que os acolheu, agravando deste modo a sua situação. A sociedade em que vivem surge como uma permanente agressão às suas crenças e valores. A todo o custo procuram manter a sua identidade cultural, os seus modos de vida tradicionais.

Há aqui todo um campo de intervenção que os sucessivos Governos africanos tem descurado: o apoio aos imigrantes na Europa. Um dos principais problema dos emigrantes, em qualquer parte do mundo, é sempre o da sua INTEGRAÇÃO ou INSERÇÃO SOCIAL nos países que os acolhem.

Quando existe grandes afinidade culturais, linguisticas e religiosas com os países que os acolhem esta integração está em princípio facilitada. Quando as diferenças culturais e religiosas são profundas, esta integração é muito mais difícil, como acontece, por exemplo, com os imigrantes de povos islamizados em países em França, Espanha, etc. Em qualquer caso, havendo vontade política, a integração pode ser facilitada através de programas sociais e educativos adequados (educação multicultural). Sobre este ponto podemos afirmar que o que se tem feito em Portugal é ainda muito insuficiente, sobretudo nos concelhos de maior concentração de emigrantes (Amadora, Loures, etc).

No entanto é preciso ter presente que a questão nunca é pacifica. Uma "boa" integração, representa sempre um "bom" processo de aculturação, o que implica quase sempre que os emigrantes “esqueçam” as suas raízes culturais e adoptem uma nova cultura, hábitos, tradições, etc. Acontece, todavia, que quando as culturas são muito distintas, ocorre com frequência problemas de desenraizamento cultural. O imigrante não se identifica com nenhuma das culturas, nem a do seu país de origem, nem com a do país de acolhimento. Este é um problema muito sentido pelas comunidades africanas na Europa.

Um dos factores que agrava estes problemas de integração, ocorre ao nível dos estratos mais baixos da população. A mão-de-obra imigrante, na sua esmagadora maioria desqualificada, concorre com trabalhadores locais pouco qualificados, eles próprios vítimas de processos de exclusão e auto-exclusão social. Os imigrantes aos seus olhos surgem, muitas vezes, como a causa dos seus problemas laborais, como a falta de emprego, ordenados baixos, etc.

A Integração e a Inserção Social dos imigrantes africanos dos PALOP é um problema que requerer uma mobilização colectiva, nomeadamente das comunidades educativas, para além, obviamente, da vontade política que Portugal precisa demonstrar, pois nunca reconheceram a comunidade de imigrantes dos PAOLOP enquanto tal, dependendo em parte isso, certamente, da vontade política das autoridades públicas de Portugal enquanto país de acolhimento, mas igualmente, claro está, da capacidade de auto-organização que os imigrantes africanos e africanos portugueses forem capazes de demostrar. Ou não?

Fevereiro 2005

Leopoldo Amado
publicado por jambros às 13:16
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Tributos ao leú


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O acaso deu-se numa conferência que teve lugar na Faculdade Direito de Lisboa onde ele partilhou a oratória com o loquaz Adriano Moreira e o na altura já batido jornalista, Mário Crespo. A temática era africana, qualquer coisa que já não consigo lembrar ao certo, mas que remete-me firmemente para a memorável comunicação proferida, de improviso, por um jovem advogado guineense. Esse jovem era Djony Sequeira. À partida, estabeleceu-se, entre nós, uma cumplicidade profunda.

Se a memória não me falha, Djony Sequeira chegou a Bissau em Setembro/Outubro de 1990, já lá eu estava. Acto continuo, mandou-me um cartão de visita, que ainda conservo, em que se identificava por letras impressas como dirigente (creio que vice-presidente) do PDP (Partido para a Democracia e Progresso), mal sabia eu que em Lisboa tinha havido uma dissidência no Movimento Bafatá (talvez a primeira), e que ele afastara-se dessa formação política para, conjuntamente com Amine Saad, dar corpo ao PDP. No verso, manuscrito, Djony aludia ainda à necessidade de “matarmos saudades”.

Num final de tarde, acabamos, efectivamente, por nos encontrarmos, na aprazível esplanada do café “Baiana”, numa altura em ele já estava a par das démarchés que embrionariamente vínhamos fazendo, nós outros, para a criação do PCD. Sorridente e bem disposto, Djony lamentou, à semelhança do que fizera em Lisboa, aquando da fundação do Movimento Bafatá, a impossibilidade de novamente partilharmos um mesmo destino. Cortesmente, embora, concluiu que estávamos ambos na mesma trincheira, porque os partidos políticos são a pedra angular da democracia e que essa luta era nossa, porque árdua mas patriótica.

Passeávamos Bissau e arredores nos dias que se seguiram ao reencontro, apercebendo-me, a cada instante, que a realidade que, na flor da juventude, Djony deixara para trás, era por demais verosímil e mesmo distante em relação a essoutra, na qual, ele pretendia inserir-se com uma perna às costas. Dir-se-ia que a razão do Djony tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava doravante a sua vida e no sentido de missão de que se investiu. Para Sequeira, era dado assente que entre ele e o país que o viu nascer devia interpor-se um permanente fluxo e refluxo, algo magnético que comportasse o propósito de anular distâncias e esmiuçar vontades em acções substantivas.

De uma inteligência viva, ele era, no mais, um guineense como todos os outros, excepto no que tangia à ambições políticas ou de fortuna, porque Djony não as tinha no mínimo grau. Encarava a situação geral que o cercava como um pesadelo, o qual, aliás, encaminhava a sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas. Acabamos por fazer dos finais das tardes de Bissau ocasião para forjarmos cumplicidades. Nesse tempo, os nossos passeios atravessavam o lusco-fusco e prolongavam-se pela noite dentro. Porém, aos olhos de Djony, Bissau, com as suas sombras cintilantes e figuras bailantes, não era nem noite nem dia, nem dilúculo nem crepúsculo; era a angústia, era a luz da incerteza.

Um sábado, cedo, Djony acompanhou-me a Mânsoa onde, Bissau inteiro, fugindo à carestia de vida, ia abastecer-se de carne. Quando o informei, a dado passo, que estávamos a passar ao lado de uma “ponta” que em vida foi do malogrado Viriato Pã, ele evocou-o como se este, apesar de finado, fosse uma parte de si próprio. Pude então escutar um verdadeiro tratado de Ciência Política, em jeito de sermão – é certo –, mas, sem dúvida, das mais curiosas ideias sobre como transformar o asqueroso em magnânimo.

Retive, dessa longa dissertação, que o problema não era nem Nino, nem fulano e nem beltrano, e que Viriato tinha sido engolido por uma poderosa máquina de destruição em plena laboração e que, se cruzássemos os braços, teríamos a mesma sorte, assim como os próprios carrascos do Viriato, justificando-se que, à semelhança de hordas de lobos esfomeados que não se poupam entre si, a Guiné-Bissau tornou-se numa sociedade algo antropófaba. Esperança, trabalho e lucidez: eis a trilogia com que Sequeira retemperava a necessidade redobrada de convencer tudo e todos de que a tolerância é uma virtude, sem a qual, nem a democracia e nem o desenvolvimento seriam possíveis.

Durante a viagem, Djony, de ar grave, perdia-se absorto em indecifráveis cogitações, apenas entrecortadas, de quando em quando, pela sua vontade em render-se, inebriado, perante o intenso verde que nos envolvia, asseverando-me, como um mais um é dois, de que aquelas terras estavam entregues à improdutividade porque a paisagem, para fazer jus à atmosfera reinante, narcotizante embora, estava impregnada de violência gratuita e de morte. Tentei, debalde, inferir que a prioridade para a agricultura sempre estivera na agenda do debate nacional, ao que retorquiu: “podia até ser uma indiscutível prioridade, mas, antes, tinha que constituir-se numa verdadeira vontade política!”.

Na viagem de volta à Bissau, Djony disse-me e anuí, de que aos poucos estava a perceber que a governação da altura era comparável às atitudes de um babysitter: “o bebé portou-se mal, castiga-se”. De que levada a coisa ao grande, "o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte". Que "quando não havia dinheiro no Tesouro Público, punham-se novas notas ou notas recolhidas novamente em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água".

Djony Sequeira era patriota. O amor da Pátria tomou-o por inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. O que ele pensou, ou melhor, o que o patriotismo o fez pensar, ia no sentido de apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. A um tempo, acreditamos, com reserva embora, tivesse sido possível materializar os nossos ideais. Mas, não fôramos só nós que vivemos esse tempo de folia colectiva, foi toda uma geração que, ao invés agora de se acomodar, deveria reflectir e tirar lições, enquanto for tempo, enquanto a procissão ainda estiver no adro.

Sequeira, à semelhança do Zé Carlos ou do Niná, marcaram, cada um a sua maneira, toda uma geração. Entre outros, podíamos acrescentar ainda nomes como o de Jorge Ampa, Jorge Cabral, Armando Salvaterra, Bartolomeu Simões Pereira, Luís Tchuda, Teófilo, "o mágico" e até mesmo Lisdália Funy, porventura, a mais jovem da plêiade. De comum, todas essas eminências, da nossa geração, responderam ao chamamento da terra. Demandaram em busca, no país natal ou fora dele, da trama que lhes cerceava as possibilidades de realização pessoal no/do país que os viu nascer, para acabarem, tragicamente, como acabaram. Malfadadamente, não escaparam à sinistra sina. Ainda em vida, tiveram ascensão fulgurante e eclipsaram, à pique, quiçá, com o mesmo impulso com que ousaram um dia levitar na “sociedade de cacres na cabás”.

Num ápice, desapareceram ingloriamente, da maneira como nem pouco mais ou menos mereciam. Uns, colhidos por morte misteriosa, outros, finados em violentos acidentes, e todos, certamente, depois de tanta energia gasta, estragada e vilipendiada por uma tolice política qualquer. Foram, pelo que fizeram e queriam fazer, dos que enchem décadas e, às vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Enfim, como dizia Jorge Ampa, “coisas nossas, bem nossas!”.

Por Leopoldo Amado

publicado por jambros às 13:07
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Afinal, o petróleo da Guiné-Bissau já está prestes a jorrar!


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A Semana / afrol News, 8 de Junio - El anuncio oficial de la apertura de nuevos pozos de exploración de petróleo en las aguas de Bijagós y la isla de Bolama ha sido aplazado por petición del Presidente de Guinea Bissau, Henrique Pereira Rosa, para que esto no interfiera en la campaña para las elecciones presidenciales, cuya primera vuelta se celebrará el 19 de junio, según ha declarado en Lisboa un diplomático guineano a 'A Semana'.

Con la condición de mantener la confidencialidad, uno de los participantes en los contactos con la empresa petrolífera Maurel & Prom, de la capital francesa, declaró que el elevado número de candidaturas para las elecciones presidenciales en Guinea Bissau se debe precisamente al descubrimiento de petróleo por los anglo-americanos de Premier Oil West Africa.

Maurel & Prom ya invirtió más de dos millones de dólares en los derechos de exploración de uno de los bloques, intentando así competir con los norteamericanos y británicos que están interesados en el petróleo de Guinea Bissau, que podría repercutir en la situación de extrema pobreza en la que vive el país desde que obtuviese su independencia de Portugal, en 1974.

Según se dijo durante los contactos mantenidos la semana pasada en París, en los cuales participó el cónsul honorario de Guinea Bissau, Claude Cohen, Maurel había desplazado al país tres lanchas rápidas y una avioneta, por acuerdos con personas como el anterior primer ministro Artur Sanha y Hélder Proença, uno de los partidarios de la candidatura de Nino Vieira a la Presidencia de la República.

El grupo de amigos de Cohen y del agregado comercial guineano en París, Nelson Semedo, hicieron saber que sus simpatías se dirigen al anterior Presidente interino Malan Bacai Sanhá, ahora candidato del PAIGC, y a los anteriores primeros ministros Francisco José Fadul y Faustino Imbali.


Por Jorge Heitor

O grande potencial petrolífero guineense
2005-05-22

Existe hoje em dia um grande potencial para a indústria petrolífera na Guiné-Bissau, pois que para além das velhas jazidas do Norte, na área das fronteiras tanto marítimas como terrestres com o Senegal, apareceram nos últimos anos potencialidades mais a sul, as quais estão a ser devidamente estudadas pela empresa britânica Premier Oil, na qual a norte-americana Amerada Hesse tem 25 por cento do capital.
O offshore guineense está profundamente sub-aproveitado, ainda poucas pessoas tendo ouvido falar dos blocos que a empresa nacional de combustíveis, a Petroguin, abriu à licitação de interesses internacionais, como os da Premier, que desde há dois meses é presidida por Simon Lockett, de 40 anos: áreas com milhares de km2, com nomes tais como Sinapa e Esperança. E cujas terras mais próximas são o arquipélago das Bijagós e a ilha de Bolama.
O poço Sinapa-2 começou a ser perfurado há um ano e foi até uma profundidade de 3.657 metros, tendo despertado o interesse de muitos políticos guineenses, pois que se poderá tratar de uma nova fonte de rendimentos para o país, até gora a viver sobretudo da agricultura e da pesca. 23 de Maio 2005

por Jorge Heitor, blog do próprio - http://www.blog.comunidades.net/heitor/index.php?op=arquivo&pagina=8&mmes=05&anon=2005


publicado por jambros às 12:55
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Good-bye Nigéria - “The Giant of Africa”

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Estive recentemente oito dias em Lagos. Aterrei no Aeroporto “Murtala Muhammed”, um colosso infraestrutural, do mais moderno, construído em forma de polvo, à imagem e semelhança do Aeroporto “Shiphol” de Amsterdão, aliás, cidade que escalei antes de chegar propriamente a antiga capital da Nigéria.

Ao contrário do que supunha, a organização no Aeroporto “Murtala Muhammed” era excelente, tanto mais que em espaço de destaque, foi instalado em pleno aeroporto um serviço de atendimento e reclamações, onde se pode ler, em letras gordas, mais ou menos isto: “Nós os nigerianos, conscientes da nossa capacidade de almejarmos os nossos mais profundos anseios de dignidade e desenvolvimento, fazemos profissão de fé de lutarmos contra a corrupção e trabalharmos com transparência e honestidade para o engrandecimento da Nigéria”.

Como estava a rodear-me de todos os cuidados e mais alguns, dado os exagerados preconceitos que comigo transportava, o gabinete de atendimento e reclamações tranquilizou-me um pouco, tanto mais que o meu voo se tinha atrasado consideravelmente, receando algumas complicações que adviessem da possibilidade de, na saída do aeroporto, não encontrar ninguém para me acolher. Como efectivamente não encontrei ninguém, decidi ir de táxi para o Hotel. Saio do aeroporto e sou de imediato assediado por uma multidão de cambistas e taxistas que, falando todos ao mesmo tempo, à viva força, queriam convencer-me a preferir os seus serviços. Valeu-me a pronta intervenção de um policia que, após os afastar violentamente à cacetada, conduziu-me a um taxista seu conhecido, com quem concertou previamente o preço que eu havia de pagar até ao Hotel Tamarin, em Ikedja, um bairro mais ou menos próximo do aeroporto.

Supunha igualmente que chegaria a Lagos com um calor de rachar e enganei-me, tanto assim que foi justamente a amena temperatura que rondava os vinte e poucos graus que me ajudaram a suportar o caótico transito das horas de ponta de Lagos, algo surrealista que nunca tinha visto antes: milhares e milhares de carros em paciente fila de «pára e arranca», com os condutores em algazarra furiosa uns com os outros e milhares de incansáveis vendedores ambulantes de permeio, a tentarem vender de tudo aos passageiros, correndo alternadamente entre as viaturas, com a maior normalidade. Eu que sempre me escandalizei com a acção desordenada dos «toca-tocas» dos finais de tarde de Bissau, Lagos apresentou-se-me – perdoe-se-me a contradição –, como o melhor exemplo do caos organizado. Aliás, se a gasolina não custasse 50 Nairas na Nigéria (1 dólar igual a 134 Nairas), dificilmente os automobilistas nigerianos suportariam ficar horas a fio nas filas, com os motores a roncarem despreocupadamente entre a barafunda, e a darem também o ar da sua graça.

Dissemos «caos organizado» e a contradição justifica-se, na medida em que é nesse caos, real ou aparente (consoante o ângulo em que analisamos a cidade) que treze milhões de nigerianos se projectam em Lagos para às grandes distâncias que separam os bairros; uns em luxuosos carros, certamente os mais afortunados e a “plebe”, a esmagadora maioria da população, à pé ou em transportes colectivos e ainda de motorizada (que também funciona perigosamente como táxi). Em Lagos, mesmo nos subúrbios, tudo se vende e se compra: desde bonitos carros em segunda mão importados da Europa e da USA até comida local, esta, normalmente de baixo custo e confeccionada, sem exagero, em milhões de cozinhas ladeadas de chapas de zinco (o equivalente dos "máquis" da África francófona), desordenadamente improvisadas em cada virar da esquina, em cada passeio, em cada curva, em cada contracurva, por debaixo das pontes ou mesmo defronte a um qualquer edifício estatal.

A Nigéria, apesar de ser um país de imensos recursos agrícolas, petrolíferos e industriais, impressiona verdadeiramente pelo fosso nele existente entre a opulência dos ricos (cujos sinais exteriores de riqueza são assaz visíveis), contrastando o mesmo com a pobreza extrema em que vegeta a grande maioria da população, aliás, completamente desamparada e projectada para o sector informal da economia, onde a muito custo arranca o mínimo necessário à sobrevivência. Impressionou-me sobremaneira ter visto, no caminho para Vitoria Island, a partir da maior ponte de África, milhares de famílias a viverem em casas lacustres construídas com chapas metálicas e estacas de madeira que as sustêm sobre as águas de um Lago. Pensar-se-ia à partida tratarem-se de comunidades piscatórias, e são-nos de facto, apesar de também aí viverem parte considerável de nigerianos que, por serem pobres e vulneráveis, acabaram por ser o alvo fácil da enorme pressão urbanística, própria de cidades superpovoadas como Lagos, e por conseguinte, “empurrados” para o mar.

Na realidade, Nigéria tem vagabundagem e banditismo em grande escalas, na medida em que convive-se aí com a marginalidade extrema, com o crime organizado e a consequente insegurança generalizada, os quais, de resto, são sintomáticos no facto de os policias munirem-se sempre, não apenas de pistolas e cassetetes, como na genearlidade dos outros países, mas de metralhadoras automáticas em riste, em permanente estado de prontidão. Nesse sentido - apenas e só nesse sentido -, e a avaliar pela quantidade e omnipresença de policias e agentes de segurança privados, fortemente armados, fica-se com a sensação de encontrarmo-nos num país em plena guerra, e certamente não estaremos muito longe da verdade se, nesse sentido, qualificarmos a Nigéria como «um mundo cão», pois é difícil entender como é que as imensas riquezas do país - sobretudo as que advêm da NNPC (Nigerian National Petroleum Corporation) - a petrolífera estatal do país - não estejam devidamente alocadas ao serviço da melhoria das condições de vida da grande maioria da população.

Mas, felizmente, existe igualmente uma outra dimensão da Nigéria, sobretudo àquela que espelha o facto deste grande país africano ser um colosso, não apenas pela grandeza geográfica do seu território (923,768 km2), mais de 250 etnias e línguas diferentes e ainda 36 estados); não somente pela quantidade dos seus habitantes (cerca de 150 milhões de pessoas), mas sobretudo porque é ali notório um desenvolvimento que deriva, em primeiro lugar, do facto de a Nigéria ser um importante mercado. A existência de um moderno parque industrial (do qual sobressai o das farmacêuticas), aliado a industria de extracção do petróleo e as enormes potencialidades agrícolas e haliêuticas, fazem realmente da Nigéria, tal como os próprios orgulhosamente dizem, “The Giant of Africa”. Com um nível médio de preparação intelectual muito acentuado, para não falar da indiscutível qualidade de ensino administrado nas Universidades e outros níveis de ensino, cremos não exagerar se afirmarmos que este país, à par da África do Sul, possui excelentes condições para continuar a pilotar o processo em curso do renascimento africano.

Mas Nigéria, outrossim, é um grande país, potencialmente rico, e onde se verifica a existência de uma cultura que resultou, por um lado, da feliz osmose entre a heterogeneidade étnica que comporta e doutro, da articulação, igualmente feliz, com a cultura de cariz ocidental-europeia, ou se quisermos, universal. Ao contrário do que se possa pensar, Nigéria tem também imensa africanidade e, pelos vistos, sabem acolher os seus visitantes com assinalável dignidade, de resto, algo semelhante as expressões próprias para assinalar a urbanidade da arte de bem receber os hóspedes, tal como “ganalé" dos senegaleses, com o seu Wolof ou a “morabeza” dos caboverdianos, nas diferentes variantes do crioulo das Ilhas. Possui ainda a Nigéria imensa beleza natural, pessoas simpáticas e - porque não di-lo - lindas e belas mulheres, para além, obviamente, de gente honesta, honrada e trabalhadora.

Na Nigéria, no quadro da ADF (African Democracy Forum) de que sou membro do Management Committee, à semelhança do que aconteceu em Durban há um ano, encontrei novamente imensos africanos e africanas (de todos os quadrantes e países) que acreditam piamente e lutam na vertente dos Direitos Humanos e da Democracia por uma África melhor e mais próspera. Para alguém como eu, que antes de conhecer a Nigéria apenas tinha como referências deste país as suas excelentes prestações nos mundiais de futebol; as peripécias do cantor Prince Nico N’ Barga e do seu grupo Rokafil Djazz (que morreu estupidamente num acidente de viação, nessas motos-táxis que abundam como formigas e onde ele se fazia transportar como cliente); a má fama que exageradamente os nigerianos têm no meu país –, apesar disso tudo, como dizia, foi um prazer e um privilégio conhecer um pouco esse promissor país, o que se deveu, e isso agradeço, a amizade das dirigentes da «Baobab Woman Human Rights» (a famosa organização de mulheres que conduziu com êxito a campanha mundial em favor de Safiya Hussaini e Amina Lawal) e que, de resto, também acolheu o Annual Meeting da ADF que ora se realizou. Good-bye Nigéria - “The Giant of Africa”.

Leopoldo Amado
Julho 2005

publicado por jambros às 12:25
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