Quinta-feira, 17 de Agosto de 2006

Olhares de fora - A mudança da relação com África

Lito 1.jpg
Carlos Lopes

In "O Mundo em Português" Nº60, Dez, 2005


na relação de Portugal com o mundo era o cantinho reservado a África. Sentia um misto de entusiasmo, por saber o continente tão presente no quotidiano português, com tanta visibilidade nos media, e com um enorme volume de conhecimentos científicos guardados em instituições várias, e de tristeza, por saber que essa motivação perdia a batalha dos corações mais jovens, com a ausência de uma política deliberada de integração dos imigrantes, e a leveza com que se desviavam os olhos em relação ao futuro de África. A relação de Portugal com África ficava cada vez mais datada e menos dinâmica.

Esta constatação era tanto mais intrigante quanto se antevia que a Revolução dos Cravos – e a descolonização que se lhe seguiu – representavam um virar de página, a passagem de uma relação colonial para uma relação de parceria.

Ao longo dos anos foi-se verificando uma procura de África para negócios e actividades de curto prazo, mas menos interesse no advir, na cultura, no aprofundamento do conhecimento sobre a contemporaneidade. Era como se bastasse o que se sabia para manter uma relação que se foi desenhando como paternalista e, às vezes, interesseira.

Hoje a África está presente em Portugal através dos guetos, dos jovens desempregados ou desamparados, e de uma atitude pessimista desenvolvida a partir do desapontamento da evolução política recente do continente. Trata-se também de uma questão geracional. Mas a verdade é que as elites portuguesas perderam a paciência. E pode-se muito bem entender porque.

O 25 de Abril não teria sido possível sem a conjugação da luta anti-fascista e anti-colonial. Antes – e logo depois de 1974 – as inspirações de uma boa parte da intelectualidade portuguesa, e dos movimentos políticos independentistas, tinham as mesmas raízes, os mesmos referenciais e a mesma esperança. À medida que foram surgindo os primeiros golpes, começou a haver uma retracção e um afastamento, logo transformado em fuga, para depois ser mesmo substituído por fustigação e ataque. Pobres africanos: esquecidos tornaram-se bravos – o instante de mostrar sua autonomia – para depois baixarem a cabeça e aceitarem mais um isolamento.

O discurso, esse evoluiu. Mudou para lusofonia, como que para não eliminar completamente o manto integrador anterior. Mas esse discurso tem limitações várias que Portugal também foi descobrindo – às vezes de forma áspera.

Se alguém me dissesse que em 2005 haveria mais europeus do leste que cabo-verdianos ou angolanos em Portugal, iria achar não só impossível mas mesmo inverosímil. No entanto, a dinâmica do mercado de trabalho, e as forcas centrífugas da União Europeia, acabaram por provocar isso mesmo: mais fluxo entre Kiev e Lisboa do que entre Bissau, Maputo e a capital do Tejo. Nunca poderia ter imaginado semelhante desenvolvimento, e em tão pouco tempo.

Para mim o mais espantoso na evolução de Portugal é a batalha demográfica. Ela vai obrigar a redefinir o que é ser português. Por imposições económicas, da segurança social, e de sobrevivência, Portugal vai ter de aceitar que precisa de emigrantes para sobreviver. E ao fazê-lo vai ter, de forma implícita ou explicita, que fazer escolhas de relacionamento. Esse é o verdadeiro teste da lusofonia para Portugal. Mas o problema está apenas equacionado. Amanha poderá acontecer a Lisboa o que incendiou Paris.

O mundo tem vivido uma serie de pequenas vinganças do velho Karl Marx, uma delas sendo que a primazia da economia sobre o resto acabou sendo imposta... pela globalização capitalista. Mas em outras frentes os marxistas enganaram-se, todos nos enganámos.

O Estado nação, definido como uma instituição de conformação unitária de língua, passado histórico, cultura, religião, e outras dominantes, faleceu. Tinha nascido com dificuldades. Muitas vezes a ideia de Nação foi construída a partir do Estado. Na maior parte dos países africanos a modernidade foi associada à construção do Estado nação. Em nome do nacionalismo se lutou pelas independências. Era assim normal que, ao analisar-se a realidade portuguesa se insistisse que se tratava até de um exemplo raro de confirmação de que poderia haver um Estado nação como definido teoricamente nos livros. Portugal continua a ser considerado, por muitos, como uma das mais velhas verdadeiras nações europeias.

Pelas suas características, sempre foi difícil para a intelectualidade portuguesa entender o que verdadeiramente se passava na África. O interesse tinha, pois, chances de ser seguido por desapontamento. E assim ficou um pouco suave de mais a ideia de que a proximidade cultural criada pela língua era um atractivo para relações especiais com os chamados Palop.

Foi-se a solidariedade de princípios, a cumplicidade revolucionária e, agora, também, o namoro lusófono. Com que se fica?

publicado por jambros às 13:59
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1 comentário:
De AUGUSTO FERREIRA CASSIMO a 1 de Abril de 2014 às 15:43

Ate hoje em Mozambique esta em desemvolve por autorizaçao dos negocios estramjeiros, como Area pesada,pedra preciosa(OURO) em redor de Africa


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