Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Good-bye Nigéria - “The Giant of Africa”

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Estive recentemente oito dias em Lagos. Aterrei no Aeroporto “Murtala Muhammed”, um colosso infraestrutural, do mais moderno, construído em forma de polvo, à imagem e semelhança do Aeroporto “Shiphol” de Amsterdão, aliás, cidade que escalei antes de chegar propriamente a antiga capital da Nigéria.

Ao contrário do que supunha, a organização no Aeroporto “Murtala Muhammed” era excelente, tanto mais que em espaço de destaque, foi instalado em pleno aeroporto um serviço de atendimento e reclamações, onde se pode ler, em letras gordas, mais ou menos isto: “Nós os nigerianos, conscientes da nossa capacidade de almejarmos os nossos mais profundos anseios de dignidade e desenvolvimento, fazemos profissão de fé de lutarmos contra a corrupção e trabalharmos com transparência e honestidade para o engrandecimento da Nigéria”.

Como estava a rodear-me de todos os cuidados e mais alguns, dado os exagerados preconceitos que comigo transportava, o gabinete de atendimento e reclamações tranquilizou-me um pouco, tanto mais que o meu voo se tinha atrasado consideravelmente, receando algumas complicações que adviessem da possibilidade de, na saída do aeroporto, não encontrar ninguém para me acolher. Como efectivamente não encontrei ninguém, decidi ir de táxi para o Hotel. Saio do aeroporto e sou de imediato assediado por uma multidão de cambistas e taxistas que, falando todos ao mesmo tempo, à viva força, queriam convencer-me a preferir os seus serviços. Valeu-me a pronta intervenção de um policia que, após os afastar violentamente à cacetada, conduziu-me a um taxista seu conhecido, com quem concertou previamente o preço que eu havia de pagar até ao Hotel Tamarin, em Ikedja, um bairro mais ou menos próximo do aeroporto.

Supunha igualmente que chegaria a Lagos com um calor de rachar e enganei-me, tanto assim que foi justamente a amena temperatura que rondava os vinte e poucos graus que me ajudaram a suportar o caótico transito das horas de ponta de Lagos, algo surrealista que nunca tinha visto antes: milhares e milhares de carros em paciente fila de «pára e arranca», com os condutores em algazarra furiosa uns com os outros e milhares de incansáveis vendedores ambulantes de permeio, a tentarem vender de tudo aos passageiros, correndo alternadamente entre as viaturas, com a maior normalidade. Eu que sempre me escandalizei com a acção desordenada dos «toca-tocas» dos finais de tarde de Bissau, Lagos apresentou-se-me – perdoe-se-me a contradição –, como o melhor exemplo do caos organizado. Aliás, se a gasolina não custasse 50 Nairas na Nigéria (1 dólar igual a 134 Nairas), dificilmente os automobilistas nigerianos suportariam ficar horas a fio nas filas, com os motores a roncarem despreocupadamente entre a barafunda, e a darem também o ar da sua graça.

Dissemos «caos organizado» e a contradição justifica-se, na medida em que é nesse caos, real ou aparente (consoante o ângulo em que analisamos a cidade) que treze milhões de nigerianos se projectam em Lagos para às grandes distâncias que separam os bairros; uns em luxuosos carros, certamente os mais afortunados e a “plebe”, a esmagadora maioria da população, à pé ou em transportes colectivos e ainda de motorizada (que também funciona perigosamente como táxi). Em Lagos, mesmo nos subúrbios, tudo se vende e se compra: desde bonitos carros em segunda mão importados da Europa e da USA até comida local, esta, normalmente de baixo custo e confeccionada, sem exagero, em milhões de cozinhas ladeadas de chapas de zinco (o equivalente dos "máquis" da África francófona), desordenadamente improvisadas em cada virar da esquina, em cada passeio, em cada curva, em cada contracurva, por debaixo das pontes ou mesmo defronte a um qualquer edifício estatal.

A Nigéria, apesar de ser um país de imensos recursos agrícolas, petrolíferos e industriais, impressiona verdadeiramente pelo fosso nele existente entre a opulência dos ricos (cujos sinais exteriores de riqueza são assaz visíveis), contrastando o mesmo com a pobreza extrema em que vegeta a grande maioria da população, aliás, completamente desamparada e projectada para o sector informal da economia, onde a muito custo arranca o mínimo necessário à sobrevivência. Impressionou-me sobremaneira ter visto, no caminho para Vitoria Island, a partir da maior ponte de África, milhares de famílias a viverem em casas lacustres construídas com chapas metálicas e estacas de madeira que as sustêm sobre as águas de um Lago. Pensar-se-ia à partida tratarem-se de comunidades piscatórias, e são-nos de facto, apesar de também aí viverem parte considerável de nigerianos que, por serem pobres e vulneráveis, acabaram por ser o alvo fácil da enorme pressão urbanística, própria de cidades superpovoadas como Lagos, e por conseguinte, “empurrados” para o mar.

Na realidade, Nigéria tem vagabundagem e banditismo em grande escalas, na medida em que convive-se aí com a marginalidade extrema, com o crime organizado e a consequente insegurança generalizada, os quais, de resto, são sintomáticos no facto de os policias munirem-se sempre, não apenas de pistolas e cassetetes, como na genearlidade dos outros países, mas de metralhadoras automáticas em riste, em permanente estado de prontidão. Nesse sentido - apenas e só nesse sentido -, e a avaliar pela quantidade e omnipresença de policias e agentes de segurança privados, fortemente armados, fica-se com a sensação de encontrarmo-nos num país em plena guerra, e certamente não estaremos muito longe da verdade se, nesse sentido, qualificarmos a Nigéria como «um mundo cão», pois é difícil entender como é que as imensas riquezas do país - sobretudo as que advêm da NNPC (Nigerian National Petroleum Corporation) - a petrolífera estatal do país - não estejam devidamente alocadas ao serviço da melhoria das condições de vida da grande maioria da população.

Mas, felizmente, existe igualmente uma outra dimensão da Nigéria, sobretudo àquela que espelha o facto deste grande país africano ser um colosso, não apenas pela grandeza geográfica do seu território (923,768 km2), mais de 250 etnias e línguas diferentes e ainda 36 estados); não somente pela quantidade dos seus habitantes (cerca de 150 milhões de pessoas), mas sobretudo porque é ali notório um desenvolvimento que deriva, em primeiro lugar, do facto de a Nigéria ser um importante mercado. A existência de um moderno parque industrial (do qual sobressai o das farmacêuticas), aliado a industria de extracção do petróleo e as enormes potencialidades agrícolas e haliêuticas, fazem realmente da Nigéria, tal como os próprios orgulhosamente dizem, “The Giant of Africa”. Com um nível médio de preparação intelectual muito acentuado, para não falar da indiscutível qualidade de ensino administrado nas Universidades e outros níveis de ensino, cremos não exagerar se afirmarmos que este país, à par da África do Sul, possui excelentes condições para continuar a pilotar o processo em curso do renascimento africano.

Mas Nigéria, outrossim, é um grande país, potencialmente rico, e onde se verifica a existência de uma cultura que resultou, por um lado, da feliz osmose entre a heterogeneidade étnica que comporta e doutro, da articulação, igualmente feliz, com a cultura de cariz ocidental-europeia, ou se quisermos, universal. Ao contrário do que se possa pensar, Nigéria tem também imensa africanidade e, pelos vistos, sabem acolher os seus visitantes com assinalável dignidade, de resto, algo semelhante as expressões próprias para assinalar a urbanidade da arte de bem receber os hóspedes, tal como “ganalé" dos senegaleses, com o seu Wolof ou a “morabeza” dos caboverdianos, nas diferentes variantes do crioulo das Ilhas. Possui ainda a Nigéria imensa beleza natural, pessoas simpáticas e - porque não di-lo - lindas e belas mulheres, para além, obviamente, de gente honesta, honrada e trabalhadora.

Na Nigéria, no quadro da ADF (African Democracy Forum) de que sou membro do Management Committee, à semelhança do que aconteceu em Durban há um ano, encontrei novamente imensos africanos e africanas (de todos os quadrantes e países) que acreditam piamente e lutam na vertente dos Direitos Humanos e da Democracia por uma África melhor e mais próspera. Para alguém como eu, que antes de conhecer a Nigéria apenas tinha como referências deste país as suas excelentes prestações nos mundiais de futebol; as peripécias do cantor Prince Nico N’ Barga e do seu grupo Rokafil Djazz (que morreu estupidamente num acidente de viação, nessas motos-táxis que abundam como formigas e onde ele se fazia transportar como cliente); a má fama que exageradamente os nigerianos têm no meu país –, apesar disso tudo, como dizia, foi um prazer e um privilégio conhecer um pouco esse promissor país, o que se deveu, e isso agradeço, a amizade das dirigentes da «Baobab Woman Human Rights» (a famosa organização de mulheres que conduziu com êxito a campanha mundial em favor de Safiya Hussaini e Amina Lawal) e que, de resto, também acolheu o Annual Meeting da ADF que ora se realizou. Good-bye Nigéria - “The Giant of Africa”.

Leopoldo Amado
Julho 2005

publicado por jambros às 12:25
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