Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Tributos ao leú


Djoni.jpg

O acaso deu-se numa conferência que teve lugar na Faculdade Direito de Lisboa onde ele partilhou a oratória com o loquaz Adriano Moreira e o na altura já batido jornalista, Mário Crespo. A temática era africana, qualquer coisa que já não consigo lembrar ao certo, mas que remete-me firmemente para a memorável comunicação proferida, de improviso, por um jovem advogado guineense. Esse jovem era Djony Sequeira. À partida, estabeleceu-se, entre nós, uma cumplicidade profunda.

Se a memória não me falha, Djony Sequeira chegou a Bissau em Setembro/Outubro de 1990, já lá eu estava. Acto continuo, mandou-me um cartão de visita, que ainda conservo, em que se identificava por letras impressas como dirigente (creio que vice-presidente) do PDP (Partido para a Democracia e Progresso), mal sabia eu que em Lisboa tinha havido uma dissidência no Movimento Bafatá (talvez a primeira), e que ele afastara-se dessa formação política para, conjuntamente com Amine Saad, dar corpo ao PDP. No verso, manuscrito, Djony aludia ainda à necessidade de “matarmos saudades”.

Num final de tarde, acabamos, efectivamente, por nos encontrarmos, na aprazível esplanada do café “Baiana”, numa altura em ele já estava a par das démarchés que embrionariamente vínhamos fazendo, nós outros, para a criação do PCD. Sorridente e bem disposto, Djony lamentou, à semelhança do que fizera em Lisboa, aquando da fundação do Movimento Bafatá, a impossibilidade de novamente partilharmos um mesmo destino. Cortesmente, embora, concluiu que estávamos ambos na mesma trincheira, porque os partidos políticos são a pedra angular da democracia e que essa luta era nossa, porque árdua mas patriótica.

Passeávamos Bissau e arredores nos dias que se seguiram ao reencontro, apercebendo-me, a cada instante, que a realidade que, na flor da juventude, Djony deixara para trás, era por demais verosímil e mesmo distante em relação a essoutra, na qual, ele pretendia inserir-se com uma perna às costas. Dir-se-ia que a razão do Djony tinha que ser encontrada numa disposição particular de seu espírito, no forte sentimento que guiava doravante a sua vida e no sentido de missão de que se investiu. Para Sequeira, era dado assente que entre ele e o país que o viu nascer devia interpor-se um permanente fluxo e refluxo, algo magnético que comportasse o propósito de anular distâncias e esmiuçar vontades em acções substantivas.

De uma inteligência viva, ele era, no mais, um guineense como todos os outros, excepto no que tangia à ambições políticas ou de fortuna, porque Djony não as tinha no mínimo grau. Encarava a situação geral que o cercava como um pesadelo, o qual, aliás, encaminhava a sua alma de patriota meditativo a preocupações angustiosas. Acabamos por fazer dos finais das tardes de Bissau ocasião para forjarmos cumplicidades. Nesse tempo, os nossos passeios atravessavam o lusco-fusco e prolongavam-se pela noite dentro. Porém, aos olhos de Djony, Bissau, com as suas sombras cintilantes e figuras bailantes, não era nem noite nem dia, nem dilúculo nem crepúsculo; era a angústia, era a luz da incerteza.

Um sábado, cedo, Djony acompanhou-me a Mânsoa onde, Bissau inteiro, fugindo à carestia de vida, ia abastecer-se de carne. Quando o informei, a dado passo, que estávamos a passar ao lado de uma “ponta” que em vida foi do malogrado Viriato Pã, ele evocou-o como se este, apesar de finado, fosse uma parte de si próprio. Pude então escutar um verdadeiro tratado de Ciência Política, em jeito de sermão – é certo –, mas, sem dúvida, das mais curiosas ideias sobre como transformar o asqueroso em magnânimo.

Retive, dessa longa dissertação, que o problema não era nem Nino, nem fulano e nem beltrano, e que Viriato tinha sido engolido por uma poderosa máquina de destruição em plena laboração e que, se cruzássemos os braços, teríamos a mesma sorte, assim como os próprios carrascos do Viriato, justificando-se que, à semelhança de hordas de lobos esfomeados que não se poupam entre si, a Guiné-Bissau tornou-se numa sociedade algo antropófaba. Esperança, trabalho e lucidez: eis a trilogia com que Sequeira retemperava a necessidade redobrada de convencer tudo e todos de que a tolerância é uma virtude, sem a qual, nem a democracia e nem o desenvolvimento seriam possíveis.

Durante a viagem, Djony, de ar grave, perdia-se absorto em indecifráveis cogitações, apenas entrecortadas, de quando em quando, pela sua vontade em render-se, inebriado, perante o intenso verde que nos envolvia, asseverando-me, como um mais um é dois, de que aquelas terras estavam entregues à improdutividade porque a paisagem, para fazer jus à atmosfera reinante, narcotizante embora, estava impregnada de violência gratuita e de morte. Tentei, debalde, inferir que a prioridade para a agricultura sempre estivera na agenda do debate nacional, ao que retorquiu: “podia até ser uma indiscutível prioridade, mas, antes, tinha que constituir-se numa verdadeira vontade política!”.

Na viagem de volta à Bissau, Djony disse-me e anuí, de que aos poucos estava a perceber que a governação da altura era comparável às atitudes de um babysitter: “o bebé portou-se mal, castiga-se”. De que levada a coisa ao grande, "o portar-se mal era fazer-lhe oposição, ter opiniões contrárias às suas e o castigo não eram mais palmadas, sim, porém, prisão e morte". Que "quando não havia dinheiro no Tesouro Público, punham-se novas notas ou notas recolhidas novamente em circulação, assim como se faz em casa quando chegam visitas e a sopa é pouca: põe-se mais água".

Djony Sequeira era patriota. O amor da Pátria tomou-o por inteiro. Não fora o amor comum, palrador e vazio; fora um sentimento sério, grave e absorvente. O que ele pensou, ou melhor, o que o patriotismo o fez pensar, ia no sentido de apontar os remédios, as medidas progressivas, com pleno conhecimento de causa. A um tempo, acreditamos, com reserva embora, tivesse sido possível materializar os nossos ideais. Mas, não fôramos só nós que vivemos esse tempo de folia colectiva, foi toda uma geração que, ao invés agora de se acomodar, deveria reflectir e tirar lições, enquanto for tempo, enquanto a procissão ainda estiver no adro.

Sequeira, à semelhança do Zé Carlos ou do Niná, marcaram, cada um a sua maneira, toda uma geração. Entre outros, podíamos acrescentar ainda nomes como o de Jorge Ampa, Jorge Cabral, Armando Salvaterra, Bartolomeu Simões Pereira, Luís Tchuda, Teófilo, "o mágico" e até mesmo Lisdália Funy, porventura, a mais jovem da plêiade. De comum, todas essas eminências, da nossa geração, responderam ao chamamento da terra. Demandaram em busca, no país natal ou fora dele, da trama que lhes cerceava as possibilidades de realização pessoal no/do país que os viu nascer, para acabarem, tragicamente, como acabaram. Malfadadamente, não escaparam à sinistra sina. Ainda em vida, tiveram ascensão fulgurante e eclipsaram, à pique, quiçá, com o mesmo impulso com que ousaram um dia levitar na “sociedade de cacres na cabás”.

Num ápice, desapareceram ingloriamente, da maneira como nem pouco mais ou menos mereciam. Uns, colhidos por morte misteriosa, outros, finados em violentos acidentes, e todos, certamente, depois de tanta energia gasta, estragada e vilipendiada por uma tolice política qualquer. Foram, pelo que fizeram e queriam fazer, dos que enchem décadas e, às vezes mesmo, já mortos, parece que continuam a viver. Enfim, como dizia Jorge Ampa, “coisas nossas, bem nossas!”.

Por Leopoldo Amado

publicado por jambros às 13:07
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. ...

. Tajudeen Abdul-Raheem pos...

. PAIGC: uma história de co...

. A última Imagem da Guiné:...

. Amílcar Cabral, na pele d...

. Sobre "A Hora da Verdade"...

. Olhares de fora - A mudan...

. As próximas décadas - Ten...

. Bissau

. ...

.arquivos

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

blogs SAPO

.subscrever feeds