Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

INTEGRAÇÃO E/OU EXCLUSÃO : O MUNDO DUAL DOS AFRO-EMIGRANTES E DOS AFRO-PORTUGUESES


Por Leopoldo Amado

Dos oito países do mundo que constituem a CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa), cinco são africanos. De comum com Portugal, têm uma mesma língua oficial, o português. Testemunham, também, uma história em comum, feita de encontros e desencontros de culturas e de povos. Para centenas de milhares de imigrantes oriundos dos PALOP (Países africanos de Expressão Oficial Portuguesa), era suposto que esta história em comum proporcionasse um melhor acolhimento do que aquele que tiveram.

Apesar de uma tão longa história em comum, continuam a ser raros os africanos que ascendem a posições de destaque na sociedade portuguesa, mercê sobretudo de preconceitos deliberadamente projectados sobre essa massa de imigrantes a quem não se reconhecem direitos efectivos, apesar de muitos deles, senão mesmo a maioria, estarem formal e constitucionalmente garantidos.

Desde Eusébio (anos 60), um número crescente de desportistas “portugueses” de renome internacional são africanos ou de ascendência africana. Os africanos que vieram antes da Independência, em 1974/74, e que na maior parte possuem nacionalidade portuguesa, terão sido as maiores vítimas do processo chamado de integração. Habitam, na sua maioria, em casas e bairros degradados. Alguns dos bairros onde são maioritários, como Marianas (Carcavelos, Cascais), Pedreira dos Húngaros (Oeiras), Outorela (Oeiras), Alto da Cova da Moura (Amadora), Quinta do Mocho (Loures), Arrentela (Seixal), Bela Vista (Setúbal) tornaram tristemente célebres pelas piores das razões: pobreza, tráfico de droga, violência, etc.

O aumento do número de imigrantes em Portugal, à semelhança do que aconteceu em outros países, recoloca entre nós, mas numa escala mais alargada o problema da inserção social destes novos residentes. As principais vítimas destas tendências são portugueses-africanos e imigrantes africanos. Ninguém ignorava, nem mesmo os sucessivos Governos, que o seu aumento na população residente em Portugal iria traduzir-se em novos problemas sociais, devido a crescentes problemas de integração e de inserção social. Esta inserção tende a provocar quase sempre fenómenos de xenofobia e racismo.

Inquéritos à opinião pública e a grupos específicos da população portuguesa, como jovens universitários, revelam que estamos perante um preocupante aumento de tendências racistas. A comunicação social passou também a tratar os casos esporádicos de crimes praticados por imigrantes numa forma alarmista, veiculando a mensagem que a segurança do país está posta em causa. A imagem do africano continua a ser associada ao trabalhador da construção civil e a profissões pouco qualificadas, embora também ao desporto e à música onde tem adquirido uma grande projecção. Os resultados escolares dos africanos são inferiores aos dos restantes portugueses nas mesmas escolas., podendo-se apontar várias razões, entre as quais, problemas de integração social e cultural, problemas no domínio da língua, etc.

A isso tudo, acresce o facto de muitos africanos encontrarem-se em situação ilegal, mas mais grave que isso, estão completamente desenraizados e sem apoios nas respectivas comunidades. Atravessam gravíssimos problemas de solidão, o que os torna presas fáceis para redes de marginais e todo o tipo de exploradores. Outros, estão ainda de tal modo apegados às suas origens que se auto-excluem da sociedade que os acolheu, agravando deste modo a sua situação. A sociedade em que vivem surge como uma permanente agressão às suas crenças e valores. A todo o custo procuram manter a sua identidade cultural, os seus modos de vida tradicionais.

Há aqui todo um campo de intervenção que os sucessivos Governos africanos tem descurado: o apoio aos imigrantes na Europa. Um dos principais problema dos emigrantes, em qualquer parte do mundo, é sempre o da sua INTEGRAÇÃO ou INSERÇÃO SOCIAL nos países que os acolhem.

Quando existe grandes afinidade culturais, linguisticas e religiosas com os países que os acolhem esta integração está em princípio facilitada. Quando as diferenças culturais e religiosas são profundas, esta integração é muito mais difícil, como acontece, por exemplo, com os imigrantes de povos islamizados em países em França, Espanha, etc. Em qualquer caso, havendo vontade política, a integração pode ser facilitada através de programas sociais e educativos adequados (educação multicultural). Sobre este ponto podemos afirmar que o que se tem feito em Portugal é ainda muito insuficiente, sobretudo nos concelhos de maior concentração de emigrantes (Amadora, Loures, etc).

No entanto é preciso ter presente que a questão nunca é pacifica. Uma "boa" integração, representa sempre um "bom" processo de aculturação, o que implica quase sempre que os emigrantes “esqueçam” as suas raízes culturais e adoptem uma nova cultura, hábitos, tradições, etc. Acontece, todavia, que quando as culturas são muito distintas, ocorre com frequência problemas de desenraizamento cultural. O imigrante não se identifica com nenhuma das culturas, nem a do seu país de origem, nem com a do país de acolhimento. Este é um problema muito sentido pelas comunidades africanas na Europa.

Um dos factores que agrava estes problemas de integração, ocorre ao nível dos estratos mais baixos da população. A mão-de-obra imigrante, na sua esmagadora maioria desqualificada, concorre com trabalhadores locais pouco qualificados, eles próprios vítimas de processos de exclusão e auto-exclusão social. Os imigrantes aos seus olhos surgem, muitas vezes, como a causa dos seus problemas laborais, como a falta de emprego, ordenados baixos, etc.

A Integração e a Inserção Social dos imigrantes africanos dos PALOP é um problema que requerer uma mobilização colectiva, nomeadamente das comunidades educativas, para além, obviamente, da vontade política que Portugal precisa demonstrar, pois nunca reconheceram a comunidade de imigrantes dos PAOLOP enquanto tal, dependendo em parte isso, certamente, da vontade política das autoridades públicas de Portugal enquanto país de acolhimento, mas igualmente, claro está, da capacidade de auto-organização que os imigrantes africanos e africanos portugueses forem capazes de demostrar. Ou não?

Fevereiro 2005

Leopoldo Amado
publicado por jambros às 13:16
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