Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Acontecimento(s) na Sanzala...

MeuCoracao.jpg

Bolama, antiga capital da Guiné em tempos idos e placa giratória da economia colonial no ciclo de escravos e depois no da mancarra, prostrou-se para Baifás, uma vez mais, como o epicentro incólume das suas deambulações: ali despertou para à vida, no bairro da Sanzala, isto é, uma encruzilhada de “caminhos de cabra ”, entrecortados por poilões seculares que separavam os diferentes destinos que levavam e traziam pessoas dos subúrbios para o centro da cidade e vice-versa.

Sanzala era ainda um bairro em que se perscrutava a permanente vozearia monocórdica de gente humilde que, com desdém, ia e vinha em ritmo compassado, anunciando, por entre gestos e palavras imperceptíveis – pelo menos para Baifás –, cara de pouco amigo, em virtude dos negócios com os colonos comerciantes nunca corresponderem às expectativas que requeriam sacrifícios de toda uma campanha agrícola. Nesses semblantes carregados, escarrapachavam-se um misto de dor e de impotência, aliás, razões que impeliram Baifás a encetar, pela primeira vez, uma tentativa, por sinal vã, de procurar compreender o jugo da vida e da "coitadessa", sintomaticamente, a marca indelével que caracterizava, de maneira geral, os sanzalenses...

Por demais, o bairro era pobre e as casas caquécticas, porquanto, eram de construção precária, ou seja, sem água corrente, sem electricidade, albergando mais de três ou quatro famílias que habitavam os demais compartimentos geminados do mesmo casebre – “entra bú sai” – , como ironicamente se diz na Guiné-Bissau. De pés nus e ventres convexos, que se projectavam muito para além do nível do nariz, as crianças de Sanzala usavam calções com rombos concêntricos, disformes, o que lhes acentuava ainda mais o prognatismo dos ventres subnutridos, fazendo sobressair nelas as costelas ressequidas por dias e dias de apenas "um tiro".

Apesar de tudo, Sanzala ofereceu ao Baifás aquilo que, no mundo inteiro, semelhantes bairros, à mingua, ocasionam à milhões de crianças: a convivência recíproca de neófitos que, desavindos familiarmente e desenquadrados socialmente, se entregavam à uma ingenuidade lúdica e a uma solidariedade à toda prova, a qual, por fidelidade tradicional, amiudadas vezes, resistem à erosão dos tempos. Na época das chuvas, as árvores de frutos dos quintais enlameados eram tomadas de assalto pelas crianças que, em catadupa, arremessavam pedras para às mangueiras, às arvores de fruta-pão e de manpataz, apresentando-se esse exercício não somente como complemento do débil regime alimentar, mas também como forma de libertação de energia e aferição da pontaria.

Por alturas do lusco-fusco, enquanto os adultos se abeiravam de um poste de iluminação pública onde, sob a baça e difusa luz jogavam, ora damas ora cartas, as crianças improvisavam buracos por entre as fissuras das diferentes habitações onde jogavam berlindes até à exaustão. A casa do pai de Baifás, à semelhança da maioria daquela época, possuía uma varanda extensa e alta, a qual, era preciso subir a partir de uns cinco ou seis degraus de duas escadas construídas em cada extremidade. Volta e meia, absortos em jogos de berlindes, quando o pomo da discórdia se resumia em saber se “estremecer” é ou não “dar” ou se se tinha ou não "rebilas" –, as crianças –, acompanhando toda esta algazarra à argúcia de que se munia na interpretação das elásticas regras do jogo –, caiam aparatosamente, inadvertidamente ou por empurrão, a partir do metro e meio de altura das varandas, ocasionando o subsequente apuramento de responsabilidades e a zombaria se lhe seguia um ambiente que invariavelmente os levava à vias de facto ou à autênticas batalhas campais.

Não raras vezes, as tricas infantis acabavam por envolver famílias inteiras que se insultavam mutuamente, aproveitando normalmente a oportunidade para se sublimarem da omnipotente e omnipresente "coitadessa" e se ressarcirem, pelo menos psicologicamente, das expectativas frustradas em negócios mal sucedidos e, assim, em jeito de desforra, "contarem crioulo" à uns e outros, pondo os segredos e os podres à descoberto através de largos gestos, os quais, invariavelmente, acompanhava o violento bater de palmas e os gritos guturais que, à larga distância, alertavam qualquer surdo-mudo para a deflagração de mais uma zaragata de tabanca, para a qual, aliás, todos acorriam, como se de mais um acontecimento se tratasse. E era.

Leopoldo Amado
publicado por jambros às 13:18
link do post | comentar | favorito
|

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. ...

. Tajudeen Abdul-Raheem pos...

. PAIGC: uma história de co...

. A última Imagem da Guiné:...

. Amílcar Cabral, na pele d...

. Sobre "A Hora da Verdade"...

. Olhares de fora - A mudan...

. As próximas décadas - Ten...

. Bissau

. ...

.arquivos

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

blogs SAPO

.subscrever feeds