Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Panaceias, lenitivos e paliativos...


NU.jpg

Tenho vindo a defender, publicamente, a ideia de que a comunidade internacional deveria ponderar seriamente a possibilidade de a Guiné-Bissau passar à gestão das Nações Unidas por um período entre 8 a 10 anos e, só então, proceder-se à transferência de poderes através de eleições. Os dados da ideia foram lançados, assistindo-se, a um aceso debate a esse propósito. A temática reporta-se a uma das questões muito caras aos guineenses, ciosos da sua noção de Nação. Passaram a existir inúmeras vozes concordantes, algumas cépticas e outras discordantes. Felizmente que assim é, pois registamos, com júbilo que, afinal, de alguma forma, o assunto está agendado no plano nacional, não devendo tardar muito que o venha a ser no plano internacional.

Sobre a ideia de um protectorado das Nações Unidas para a Guiné-Bissau, todas as leituras desembocam na constatação de que a sucessão de golpes e contra golpes comportam causas profundas e complexas, sem fim à vista. Torna-se imperativo fazer alguma coisa para estancar a espiral de violência que ciclicamente se abate sobre a Guiné-Bissau, onde, infelizmente, até hoje, os nossos mais próximos amigos, mesmo os mais bem intencionados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), nos ajudam, paradoxalmente, a justapor panaceias, lenitivos e paliativos, que não resolvem nada e acabam por potenciar novas crises. Lavram-se "memorandos de entendimento", a despeito da sempre provável implosão dos desentendimentos, inibindo o génio e a força criadora guineenses, e engendrando novos golpes e contra golpes.

Perante a proposta de colocar a Guiné-Bissau sob tutela das Nações Unidas, não venham agora - só agora! - com o argumento de que, nós os guineenses, somos mais ciosos do nosso incipiente sentido de Nação do que a necessidade de construirmos um verdadeiro Estado de Direito. Pode ser até que a gestão das Nações Unidas para a Guiné-Bissau venha a funcionar como um importante tónico para a nossa capacidade de coesão nacional.

Ante a nova crise golpista (a de 6 de Outubro passado), ao invés de procurarmos grandes remédios para os grandes males, não hesitamos em culpar a comunidade internacional pela não concretização das promessas de ajuda, eximindo-nos de questionar o lugar que ocupamos no concerto das nações, onde, porventura, mais por culpa própria do que da comunidade internacional, nem sequer tomamos parte efectiva. É verdade que o sistema internacional é, além de desfavorável, também injusto, sobretudo para os mais fracos, como nós. Ora, não é menos verdade de que não podemos e nem devemos contar excessivamente com a chamada ajuda ao desenvolvimento, na medida em que, a lógica do dom, no contexto das linhas de força que caracterizam as actuais relações económicas internacionais, é quase matéria do passado. A Guiné-Bissau tem que de alguma maneira aceder as vantagens comparativas, isto é, tem de produzir para consumir. Deve criar as condições, comparativamente vantajosas, susceptíveis de atrair o investimento externo e assim produzir riqueza. E, nesse sentido, não se pode assacar culpas à comunidade internacional, quando mergulhamos na folia colectiva de conjuras fratricidas, que vem ofuscando as perspectivas de desenvolvimento.

Urge por cobro a esta torrente transversal (não apenas junto às Forças Armadas) e omnipresente de golpes e contra golpes que se petrificou na sociedade com rastos de violência gratuita. Urge sanear a economia guineense, inserindo-a na economia internacional e global. Urge a criação de uma cultura de auto-responsabilização. Urge pôr travão a recorrente e perversa mendicidade a que nos entregamos. Urge tornar factível o princípio de igualdade de oportunidades, de molde a dissuadir potenciais focos de conflitos. E, sem pretender que as Nações Unidas venham a ser uma espécie de varinha mágica para todas as maleitas, cremos, que ela representa o que imperativamente precisamos. Chamemo-lo protectorado, tutela, ou superintendência; eis o que se afigura indispensável.
É por essas e outras determinantes, imperativos até, que uma transitória tutela das Nações Unidas para a Guiné-Bissau, não obstante as debilidades conhecidas do sistema da ONU - mas insuspeito até pela natureza intrínseca dos princípios que o enformam - serenaria os ímpetos frenéticos dos que na Guiné-Bissau, volta e meia, chantageiam e matam impunes com armas em punho.

Isso certamente as Nações Unidas não tolerariam na eventualidade de virem a assumir a gestão transitória do país. A gestão das Nações Unidas para a Guiné-Bissau criaria novos hábitos administrativos e procedimentos diferentes que criariam as condições indispensáveis à estabilização económica, política e social do país.

*Historiador Guineense


publicado por jambros às 13:35
link do post | comentar | favorito
|
1 comentário:
De esteves a 9 de Outubro de 2006 às 21:16
É de uma coragem e de uma clarividência, este artigo, que só por cobardia e, ou inércia de muitos politicos guineenses, não apareceram ecos quer pró quer contra.


Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Setembro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2

3
4
5
6
7
8
9

10
11
12
13
14
15
16

17
18
20
21
22
23

24
25
26
27
28
29
30


.posts recentes

. ...

. Tajudeen Abdul-Raheem pos...

. PAIGC: uma história de co...

. A última Imagem da Guiné:...

. Amílcar Cabral, na pele d...

. Sobre "A Hora da Verdade"...

. Olhares de fora - A mudan...

. As próximas décadas - Ten...

. Bissau

. ...

.arquivos

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

blogs SAPO

.subscrever feeds