Segunda-feira, 13 de Fevereiro de 2006

Agostinho da Silva nasceu há 100 anos

Agostinho da Silva.jpg
Agostinho da Silva



Comemora-se hoje o 100º aniversário do nascimento de Agostinho da Silva, grande intelectual português do século XX. Para também fazermos jus a efeméride, lembramos daqui Agostinho da Silva com saudade, sobretudo das suas “Carta Vária” que me enviava via postal e na qual amiúde abordava com mestria e peculiaridade várias questões relativas a África.

Quero aqui partilhar o meu primeiro encontro com Agostinho da Silva. Porém, não o faço apenas para dizer que tive o privilégio de conhecer de perto um intelectual de envergadura, mas sobretudo para testemunhar duas grandes características do homem e do intelectual que conheci: simplicidade e modéstia. Com efeito, travamos conhecimento mais ou menos nas seguintes circunstâncias: por sugestão do malogrado e amigo Manuel Ferreira, escritor e estudioso das literaturas africanas de expressão portuguesas, ia eu a caminho do ICALP (Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, actual Instituto Camões) responder ao convite da Dr.ª Laura, no sentido de investigar e escrever um extenso artigo para a Revista do ICALP sobre a Literatura Colonial da Guiné “Portuguesa”.

Defronte ao ICALP, quando estava sentado num dos bancos do jardim do Príncipe Real a aguardar pacientemente a reabertura do ICALP, surgiu Agostinho da Silva, todo simplório, a desculpar-se e a perguntar-me se podia sentar-se no mesmo banco. Acedi de imediato, não obstante termos sido empurrados, acto contínuo, para a necessidade de quebrarmos o forçoso monólogo que naturalmente e por momentos se instalou entre nós, caracterizadas este por fúteis abordagens sobre o tempo e o clima, aliás, invectivas a que inicialmente apenas respondia positivamente, abanando a cabeça em jeito de consentimento. Quebrado o degelo inicial, Agostinho da Silva passa de imediato com perguntas a fim de se informar de que África é que sou propriamente oriundo: se de Angola ou Moçambique, se de Cabo Verde ou S. Tomé e Príncipe, sem todavia evocar a Guiné-Bissau.

Pressupondo eu que o meu interlocutor era mais um daqueles sujeitos que preconceituosamente evocava(m) sempre a Guiné-Bissau em último lugar – logo eu que tinha e tenho, apesar de tudo, um incomensurável orgulho em ser guineense – interpelei-o com firmeza sobre a razão porque a Guiné não constava do rol das suas curiosidades, ao que respondeu: “por nada, é que quase não há guineenses por cá”. Como na realidade os guineenses em Portugal quase se circunscreviam aos estudantes, antigos funcionários administrativos e os ex-Comandos Africanos do Exército Colonial, e menos relativamente aos emigrantes económicos (actualmente a maioria), lá achei que Agostinho da Silva não ocultava nenhumas segundas intenções, sobretudo quando ambos soubemos que estávamos ali a aguardar a reabertura do ICALP, pelo que fomos afoitando a amena cavaqueira que, exponencialmente, ganhou novo élan...

Vieram depois as naturais apresentações e fiquei então a saber que, na realidade, tinha acabado de conhecer, em pessoa, o autor das “Carta Vária”, que já recebia em casa, fazia anos. Para além dos livros póstumos e à distância dos anos oitenta, não tenho hoje presente todos os detalhes que viriam a ligar-me a Agostinho da Silva, pois creio que nunca mais o voltei a ver em pessoa, apesar de termos trocado cartões de visita e termos planeado reencontrar-nos.

Há encontros que são únicos, como únicas são algumas oportunidades que jamais se repetem. Do meu lado, e concerteza da de Agostinho da Silva também, certamente estava escrito algures que jamais nos voltaríamos a ver-nos, pelo menos de carne e osso. O nosso fugaz encontro é deste modo um exemplo desses destinos que se entrecruzam e que nos marcam para a uma eternidade, mas para nunca mais se cruzarem, embora seja omnipresente em mim a imagem visual de Agostinho das Silva como um homem de farta barba branca, simplório e humilde, aliás, imagética que amiúde se apodera de mim sempre que dele me lembre ou quando me deleito com a leitura dos seus eternos e riquissímos escritos, porque afiguram-se riquíssimos e perenes.

E se Agostinho da Silva estivesse vivo e me abordasse novamente nas circunstâncias descritas, havia de o dizer: Sim, Agostinho, sou guineense, mas como tu, que és português, sou antes um cidadão do mundo".


Leopoldo Amado

publicado por jambros às 15:07
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