Quinta-feira, 2 de Março de 2006

Libertar a palavra

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por Mário Cabral

Estou regressando calma e paulatinamente, para o meu/nosso país, a heróica Guiné-Bissau. Quando em 1994, após as primeiras eleições multipartidárias, deixei o país, após anos de serviços prestados, nos sucessivos governos pós-independência, para cumprir o meu desejo de ser cidadão do mundo e servir as Nações Unidas, opção que me ajudaria a cumprir a minha missão de chefe de família, escrevi num artigo saído num jornal da praça, que me colocava ao serviço da nação, nas responsabilidades que iria exercer, alargando a área de soberania do meu país. Com efeito a pequenez territorial da Guiné-Bissau é, no meu entender, engrandecida, leia-se estendida, com o bom desempenho da sua diáspora, ao participar na recolha e partilha de experiências.

Após dois meses de vivência da realidade política, social, económica e cultural do país (estou desde o passado dia 13 de Dezembro de 2005 em Bissau), senti-me na necessidade de contribuir com algumas reflexões a partilhar com os meus conterrâneos.

A Guiné-Bissau, contrariamente ao que diz uma certa imprensa e muitos intelectuais nacionais e estrangeiros, é um país viável, convivial e promissor. Dotado de recursos humanos e naturais que são suficientes para um normal desenvolvimento do país, a Guiné-Bissau pode alargar e valorizar tanto os recursos humanos como os naturais, se regressarmos à observância de alguns valores que caracterizaram a nossa sociedade: honestidade, civismo, amor ao trabalho sério e bem feito, solidariedade, tolerância, hospitalidade, guinendade e bom senso.

Hoje no nosso país, o que se vê mais frequentemente (felizmente existem numerosas e honrosas excepções), é uma azáfama para assumir o poder a todo o custo (vale tudo, inclusive tirar olhos). Esse sentimento impera sobretudo em certa classe política e empresarial, se for correcta, a leitura que fiz da nossa sociedade. Porquê e para quê tais atitudes e comportamentos surgiram?

Apesar de todas os entraves resultantes das convulsões recentes, quer sociais, quer políticas, quer armadas, a sociedade guineense continua activa, empreendedora e imaginativa. Basta andar pelas ruas esburacadas, ornamentadas por vezes com montes de lixo não reciclado, para convivermos com os transeuntes que vão e vêm aos agitados mercados de Bandim, da praça ou de Kundok, verdadeiras bolsas de valores. Circula por esses postos do mercado informal, diariamente, largas centenas de milhares (serão milhões?) de francos guineenses, não obstante todos se queixarem de que o negócio está fraco, e está de facto. O cidadão comum sente e sabe, que se pode fazer mais e melhor, razão porque não baixa os braços!!!

Se o informal funciona, porque não funciona o público e/ou o privado organizado? Será que o guineense tem tendência para o que não é organizado, onde reina a confusão e o debrouillez-vous? Ou é porque pretende fugir ao fisco, por não ter ainda entendido que o Estado guineense lhe pertence e que, ao roubá-lo, se rouba a si mesmo? Será que, para além da educação cívica que se organiza ciclicamente, pouco tempo antes das eleições, não tem existido outras formações relativas aos direitos e deveres do cidadão? Será que não se organizam frequentes debates sobre temas essenciais da vida comum dos guineenses e de todos aqueles que escolheram a Guiné-Bissau para viver e labutar, na busca de consensos mobilizadores da vontade nacional?

Para alguém como eu, que tem vivido fora deste contexto geopolítico, é difícil compreender como é possível que os nossos políticos e dirigentes institucionais, por razões insondáveis e inconfessáveis, podem tomar o país e o povo que os elegeu, como reféns das suas lutas intestinas. Não será que o povo (accionista dessa empresa chamada Guiné-Bissau) vota confiante, em quem pensa que vai dar o melhor de si mesmo, para que o país avance? Não posso imaginar sequer, que um servidor do Estado e muito menos, que um homem/mulher do Estado, não perceba qual é a sua missão?!?! Pa ké ku no na kansa nó kabeça? Ó no na findji nan kuma nó na kansa n’utro?

Na Guiné-Bissau temos que aplicar estratégias win/win (ganhador/ganhador) e não persistir no lose/lose (perdedor/perdedor). Só temos a ganhar se todos ganharmos e não teimarmos em serpentear o caminho de cascas de banana, para gritarmos triunfantes depois, ui i laluuu!?? A quem interessa, ao amigo da onça? Amigo da Guiné-Bissau não será com absoluta certeza, o(s) autor(es) de tais praticas infelizmente frequentes!!!

Julgo que devemos tomar conjuntamente o engajamento de promover uma cultura de diálogo, de tolerância, de debates pacientes, de negociações aturadas, de compromissos sérios e honestos, porque é disso que necessitamos para avançar. Precisamos de nos orgulhar de nós mesmos, das nossas vitórias individuais e colectivas. Devemos ficar contentes quando o outro tiver sucesso. Isso é guineidade, a mola impulsionadora da elevação da auto-estima. A história recente mostra-nos que, só juntos podemos vencer os desafios do combate à pobreza e a boa integração no comboio da mundialização.

Impõe-se portanto, na minha modesta opinião que nos entendamos, que nos confraternizemos, que construamos os consensos mobilizadores para que possamos legar, senão para os nossos filhos, ao menos para os nossos netos, uma terra de esperança e de futuro promissor. Entretanto, por favor, desbloqueemos as vias de obstáculos naturais e artificiais para que, também nós, cada homem e cada mulher honrada, na dignidade, com honestidade e com esperança, possa ter a alegria de viver HOJE em paz e segurança, com os seus vizinhos e com o mundo que nos envolve. Ninguém, nenhum país é suficientemente forte para viver em autarcia, nada nem ninguém pode ignorar a comunidade internacional e a globalização que nos desafia e interpela.

Bem hajam,

Mário Leopoldo Cabral

Portugal, 25 de Fevereiro de 2006
publicado por jambros às 16:41
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