Sábado, 2 de Setembro de 2006

Amílcar Cabral, na pele do Gungunhana

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Opinião de : Norberto Tavares de Carvalho, « O Cote »

A notícia foi dada com uma simplicidade extraordinária :
« EUA concluem que Portugal não esteve envolvido na morte de Amilcar Cabral. » (Jornal Expresso, 7 de Junho de 2006).

Um abalo sísmico não teria provocado em mim a mesma reacção. Imaginei cenários, fiz hipóteses, cálculo … nada conseguiu conter-me. Assim, resolvi interceder desta maneira.
Sem nenhuma pretensão monográfica, recordemos alguns antecedentes:

• 1970, Operação « Mar Verde», preparada psicologicamente pelo General António de Spínola na Ilha do Suga, Arquipélago dos Bijagós, comandada pelo Capitão Almeida Bruno e pelo Major Alpoim Galvão, com o objectivo de aniquilar a direcção do PAIGC estabelecida em Conacry. A operação falhou e o futuro Presidente de Cabo-Verde, Aristides Pereira, escapou por um triz (algemado num barco portugês acostado no largo das costas guineenses - de Conacry- foi libertado in-extremis pelos « soviéticos ».)

• 1973, 20 de Janeiro, prisioneiros da PIDE/DGS, recém-libertados da prisão, a cobertos do estatuto de militantes do PAIGC, e com o intuito aparente de reintegrarem o partido, acabaram por assassinar o Amílcar Cabral. Um deles era de origem caboverdeana…

• Qual é então o objectivo desta declaração estado-unidense? Senão que a operação revisionista luso-o-yankee já vinha sendo orquestrada depois de um certo tempo. Um jornalista portugês já tinha preparado a representação ao tentar ilibar o General Spínola na morte do Cabral. No seu livro (« Quem mandou matar Amílcar Cabral ? »), José Pedro Castanheira, Relógio d’Água Editores, 1995.) , para fazer crer à opinião pública do que o General não queria a morte do Secretário-Geral do PAIGC, o escritor serve-se do Capitão Otelo Saraiva de Carvalho, que num dia de completa falta de inspiração, faz a seguinte declaração : « A captura de Cabral, permitiria a Spínola um enorme brilharete. É o espírito típico da Cavalaria: subjugar o adversário, exibi-lo como troféu, fazê-lo vergar, e, depois, negociar. Seria a reedição do que o Mouzinho de Albuquerque fez com o Gungunhana ». (Idem, p. 207)

Isto não é gozar com a gente? Negociar com o Cabral depois de o ter humilhado? Recorde-se de que negociar com o Portugal d’outrora foi um dos cavalos de batalha do Amilcar Cabral. Infelizmente o Dr. Marcelo Caetano sempre vetou as intenções visionárias e humanistas do líder nacionalista. E o Spínola ia negociar com o Amilcar … contra a decisão do seu governo? O escritor russo, Oleg Ignatiev (Os três tiros da PIDE » Oleg Ignatiev) estabeleceu categóricamente : a PIDE/DGS foi o cérebro do assassinato do Amílcar Cabral.

Que as circunstâncias da sua morte ainda não foram totalmente elucidadas, embora se tenham envidados esforços nesse sentido (« Cabo-Verde : os bastidores da independência », José Vicente Lopes, Spleen edição, 2002.) - isto é manifesto. Que não se pode rejeitar a cumplicidade de alguns membros do PAIGC no assassinato, isto também parece ser evidente. Mas que o governo colonial português, pela PIDE/DGS - e o General Spínola intercalado -, « não esteve directamente envolvido na sua morte » (Jornal Expresso, 7 de Junho de 2006), a minha opinião é que tudo isto, longe de uma simples probabilidade, cheira a diversionismo. Mas deixo a questão a quem de direito.

NOTA:

À propósito deste assunto, escrevemos já e reteiramos neste espaço o que se segue: "(...) muito se tem escrito e dito sobre a autoria moral do assassinato de Cabral (pois sabe-se muito mais relativamente a autoria material), sem que novas luzes sejam trazidas à ribalta. Com efeito, não sobram dúvidas de que a autoria moral do assassinato de Cabral é, no mínimo, de responsabilidade múltipla, aliás, responsabilidade essa que varia consoante o nível de comprometimento, jsto é, que varia de forma difenciada à medida em que os agentes do “complot” se aproximam ou se afastam, quais círculos concêntricos, do núcleo daqueles que mais directamente estavam nteressados no desaparecimento físico de Amílcar Cabral.

Ora, era natural que uma figura da dimensão de Cabral tivesse inimigos, dentro e fora do PAIGC. Como o PAIGC era constituído de guineenses e caboverdianos, era também natural que, na perspectiva “de dentro”, existissem guineenses e caboverdianos na múltipla teia de responsabilidades relativamente ao seu assassinato, pese embora o axioma, pelo menos do nosso ponto de vista, da directa participação da PIDE e das autoridades coloniais portuguesas no acto.

Assim, na nossa óptica, a única novidade que os americanos “soltaram” sobre o assassinato de Amílcar Cabral é a de que na sua trama tomaram igualmente parte, citamos, “um feudo entre mulatos das ilhas de Cabo Verde e africanos do continente”, pois até aqui, sobretudo em Cabo Verde, era e é uma espécie de hábito adquirido vislumbrar-se apenas os guineenses entre os esconjurados “de dentro” do PAIGC.

De resto, nenhumas outras novidades nos trouxeram os documentos que os americanos “soltaram” que nem feras, mas que nenhumas mossas fazem, em virtude de nada ou quase nada adiantarem relativamente ao estado actual do conhecimento sobre a matéria, antes pelo contrário, desvalorizando incompreensivelmente a directa participação da PIDE e das autoridades coloniais portuguesas no vil acto, quando asseveram, apenas marginalmente, "haver sinais de envolvimento português", quando, na realidade, dentre os interesses justapostos em linhas concêntricas e que mais se abeiram do núcleo daqueles a quem mais directamente interessava a eliminação física de Cabral – e isso é possível hoje provar-se – figurava inquestionavelmente a PIDE e as autoridades coloniais portuguesas (...)".

Leopoldo Amado



publicado por jambros às 10:46
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1 comentário:
De africamente a 5 de Fevereiro de 2007 às 21:23
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