Domingo, 21 de Maio de 2006

Morreu o Sané: "Um Pólon garandi ku cai"

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Tinha eu 9 ou 10 anos de idade quando conheci o Sané em 1970, no famoso Lar de Estudantes que as autoridades coloniais criaram essencialmente para acolher os estudantes do sexo masculino que vinham do interior.

Naquela altura no Lar, a principal linha de demarcação existente atinha-se com a idade dos alunos. Nós outros, que íamos iniciando o CIPES (Ciclo Preparatório do Ensino Secundário), ocupávamos a ala dos “putos” e os mais velhos, como o Sané, que já estavam no Liceu Honório Barreto, ocupavam no Lar a ala dos “garandi candjas”, como dizíamos.

Para além do estudo, no Lar, todos tinham tempo para outras actividades lúdicas ou desportivas. Assim, independentemente da idade, todos encontrávamos na Sala de Convívio onde jogávamos damas ou ténis de mesa. Quase sempre, sobrava-nos ainda tempo para tocarmos violão e cantarmos as poucas mas já famosas músicas do Cobiana Djazz e algumas outras que, desde essa altura, Sidónio Pais já compunha. Foi pois na Sala de Convívio do Lar que conheci mais de perto o Sané, pois não era muito afeiçoado à prática de desporto, onde igualmente nos encontrávamos, seja para jogar futebol, seja para participarmos na Classe de Saltos.

Lembro que o Sidónio aparecia com frequência na Sala de Convívio do Lar para connosco cantar, quando eu e o Guilherme Semedo tocávamos. Nessa altura, apesar de ser já visível o talento de grande cantor que Sidória viria a ser, como provou-se mais tarde, ele ainda não era muito destro no violão como o é hoje, pelo que eu e o Guilherme Semedo, que já “arranhávamos” qualquer coisa, éramos constantemente convocados pelo Sané para tocarmos a fim de que o seu amigo Sidó cantasse.

Porém, imediatamente depois da independência, enquanto nos ocupavámos da emulação patriótica através da Brigada Pedagógica, Sané e os seus “mandjúas” foram cursar no exterior. Voltou depois e ocupou cargos de responsabilidade no aparelho do Estado (entre outros, Director dos Armazéns do Povo e Director dos Recursos Hídricos), enquanto no exterior, eu e a maioria dos meus “mandjúas” ainda concluíamos licenciaturas.

Mas o destino juntou-nos novamente nos finais da década de “80” e inícios de “90”, quando juntos nos abalançamos na inesquecível aventura que foi a fundação do Partido da Convergência Democrática (PCD). Aí, passei a conhecer ainda melhor o Sané e, essencialmente, a sua luta por uma sociedade mais integrante para com as minorias várias a que, aliás, não era alheia o facto dele próprio ser oriundo de uma família aristocrática tradicional muçulumana, na qual, de resto, tinha imenso orgulho.

Já doente, mas sempre crente nas possibilidades de recuperação, privamo-nos dias e dias em Lisboa e juntos desdobramo-nos de Hospital em Hospital. Em Dezembro do ano passado (última vez que nos vimos presencialmente), visitei-o no seu escritório em Bissau. Nos inícios do corrente ano, ainda falamos telefonicamente aquando da sua passagem por Lisboa à caminho de Paris, onde ultimamente vinha completando os tratamentos médicos.

Em jeito de último adeus, e porque ainda não interiorizei completamente a ideia do desaparecimento fisico do Sané, apenas digo que ele era um conviva nato, um amigo, um conselheiro e, inquestionavelmente, amigo da sua família e do seu amigo. Era sobretudo um bom homem e um homem bom (o que não é certamente indiferente ao facto de Sané também chamar-se Bobondim, que na língua mandinga
significa “menino", "imberbe", "dócil”).

Sonhava uma Guiné diferente e, mesmo em situações de completo caos, interpelava tudo e todos para que não abandonassem o país, certamente porque gostava de rodear-se dos amigos em intermináveis sessões de amena cavaqueira, mas inquestionavelmente porque igualmente nutria a inquebrantável convicção de que todos e cada um são necessários à Guiné-Bissau.

Tal como escreveu o seu inseparável amigo Sidónio - e corroboro dessa asserção - a sua morte representa a queda de um grande poilão ("Um Pólon garandi ku cai"). À propósito, apenas acrescentaria: a sua morte representa também uma grande perda para a nossa geração, porque perdemos um batalhador; um reconciliador; um sofredor, um ousado; um homem de fundo poético e sonhador, mas igualmente um homem que, entre outros predicados, possuia o condão de transformar muitos dos seus sonhos em realidade palpável.

Descanse em paz, meu/nosso Bobondim.
publicado por jambros às 13:18
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